29.12.12

frigideiras de piche e concreto


almas abalroadas  
num acidente quilométrico  
que se estende por toda a estrada  
as tevês ligadas em todas as casas  
nenhum noticiário revela as causas  
sorrisos colgate entre as chamadas  
nas ruas, os refugiados dos comerciais de margarina  
famílias derretidas em frigideiras de piche e concreto  
desintegrando os dedos de pontas enegrecidas
carcomidas de vício ou ofício, tanto faz  
é tudo o mesmo malabarismo no meio-fio  
por um fio, navalha, alta tensão,  
todos os malditos fios!  
vejo as mãos estendidas em súplicas inauditas  
os carros passam zunindo  
reduzindo-os a reflexos cada vez mais longínquos no retrovisor  
corpos bambeiam ziguezagueiam  
solicitam do asfalto sua dose diária de atropelamentos  
e cá estou eu, no mesmo movimento  
sempre recolho meus pedaços da pista 
e me recomponho  
eu, o eterno atropelado
e também o motorista  
que some na poeira da estrada  
apagando sombras do retrovisor  
eu, o sorriso colgate  
e o alicate que me arranca um a um  
todos os dentes  
uma vaga noção das causas  
e das minhas calças curtas muito muito curtas  
e de todas as roupas apertadas demais
para movimentos humanos  
e de todo esse excesso de pano  
se enfiando nos olhos  
dando nó nas entranhas  
costureiros do absurdo, onde se costuram coisas tão desmedidas?  
todo mundo quer a saída  
mas ninguém dá um passo em direção  
a qualquer entrada  
ademais,  
todas estão fechadas.  
ainda não inventaram nada  
como o bom e velho  
pé na porta.  
(e a gente ainda com essa coisa  
de atravessar paredes)

16.12.12

uma estrela risca o breu da noite

para Laura Cravo

ela invade a minha noite
com o sol entre os dentes
seus olhos de girassol
e delicados pés de nuvem
dançando no meu coração

até esqueço de atear fogo
no posto de gasolina
dos meus planos de fuga
das bombas caseiras que fiz
pra vender como doces
nas portas dos bares

então eu a levo para passear
na minha tempestade

então ela me ensina a abocanhar o sol
pra fazer dele sorriso

então nos sentamos no meio-fio
para admirar a velocidade dos carros
fatiando horizontes

entre um carro e outro
meus doces explosivos
pipocam no asfalto
como fogos de artifício

ela me ensinou a explodir coisas
sem raiva e sem medo
só porque é bonito

em agradecimento,
eu lhe dei um punhado de pólvora

a noite pretende amanhecer na nossa esquina
uma lágrima risca a madrugada
o posto de gasolina está vazio
e não será incendiado

ela vai embora cantando summertime
don't you cry don't you cry

há sempre uma canção bonita
para as despedidas.

28.11.12

Pequenas infrações cotidianas


Pequenas infrações cotidianas. Meu sistemático desrespeito a todos os relógios; inclusive os que marcam as horas. Os trabalhos adiados pela urgência imperativa de contemplar esse teto branco, enquanto passo em Raio-X a lata de lixo: montes guimbas de cigarro, filtros cheios de pó de café molhado, latinhas de cerveja meio amassadas de ontem ou antes ou sei lá quando exalado um cheiro quente; algumas multas de trânsito, todas as bíblias, manuais de conduta e regras de bom comportamento. Acho que não vou conseguir a condicional, não tenho me comportado muito bem ultimamente. Apanho as chaves do carro e me meto em fuga, em alta velocidade, deixando um rastro de barulho e fumaça. Atiro peças de roupa pelo chão de algum apartamento; todo sexo bom vai deixando coisas pelo caminho; às vezes, pessoas. Atiro peças de roupa pela calçada, fazendo o motorista desavisado girar o pescoço, sambar no asfalto e beijar o poste; e depois sumo numa onda do mar de Copacabana. Atiro peças de roupa em qualquer lugar, com a mesma displicência com que atiro palavras num poema. ahhhhhhh... cotidianas infrações poéticas, como eu as amo! Como amo os loucos e os desregrados e tenho um carinho todo especial pelos suicidas convictos que em tudo diferem dos desesperados; são os que calmamente desistem, mandam o mundo à merda, e que se foda. Continuo do lado dos que continuam, com igual convicção (o mundo à merda e que se foda). Algumas contas a pagar se acumulando sobre a mesa. A lixeira transbordando, espumando, querendo devorar a casa; de hoje não passa, retiro o saco e levo pra fora. A maior de todas as produções humanas: lixo e mais lixo; em todos os sentidos. Já disse que devorei os relógios? Tenho tempo de sobra no estômago; nunca mais gastrite nervosa. E todo esse teto branco. E todas as minhas pequenas infrações cotidianas. Pode gastar seu latim com “faça isso”, “seja aquilo”, e todos os seus latidos; em terra de desempregados quem tem chefe é gado. Eu me demito, como diria um velho bebum paraguaio. Era um velho sábio.

21.11.12

dinamite & diamante (São Paulo)

teu nome de santo não me engana
tua gana demoníaca, toda a tua grana
teu palco de sacrifícios
me vejo engolida
por teus edifícios
teu céu cinza
& pôr-do-sol sem horizonte.
danem-se as estrelas
e me sirva uma dose de uísque.
eu encaro tuas esquinas devastadas
igrejas evangélicas em plena ascensão no reino das putas
tuas putas suicidas,
todos os teus suicidas no colo do asfalto.
teus prédios encurvados devorando meu corpo
teus engarrafamentos
imensa cidade parada
sem pontos de fuga
sem mares ou morros
me acolha nos teus viadutos
teus vícios
em tua fumaça fechada
em todos os teus entulhos
de cidade acumulada
arqueada & arquejante
o gás tóxico do teu bafo alcoólico
& quase atômico
sopra na minha nuca
as baforadas do teu cigarro
os escapamentos dos carros
o terror das tuas cracolândias insanas
imensas cidades assombradas
guardadas no ventre de uma só cidade
me espreme contra tuas paredes
me canta tua música
de migrações desgovernadas
teu sotaque de estrada
& toda a cadência melódica
dos teus pedintes noturnos
os tiros descompassados
- todos os tiros, até os não disparados -
a esmagadora coleção de vitrines
da esmagadora coleção
de shoppings centeres
- performances do desespero -
acolha meus gritos de socorro
com teus gritos de socorro
teu pulso corre no meu pulso
(e teu olhar no meu de cientista maluco)
esse imenso rio degenerado que é teu sangue
e tuas veias de ruas incompreensíveis
e ainda assim eu me acharia
nesse teu mapa difuso
o olhar confuso de amigos perdidos
na terra do nunca
e no escuro das impossibilidades
algo acontece, se cria,
se faz impávido & colosso
há um diamante escondido na tua concha
não as pérolas penduradas nos pescoços
de tuas socialites desqualificadas & sórdidas
importadas de conchas de mares de outras cidades
tua concha guarda um diamante indizível
eu o vejo reluzir
no mais improvável
tilintar de
corpos.

20.11.12

pequena viagem noite adentro


o barulho do ranger dos dentes
aquecimento de motores
na garganta
o tempo se faz de baleia encalhada
no meio da sala
há grades em todas as janelas
alarmes de incêndio, câmeras de segurança
as câmeras da CET-Rio agora
filmando a minha fuga em alta velocidade
meu poder sobrenatural de entortar grades
faz de mim
um herói ou um gorila?
tanto faz,
todo herói carrega um gorila no peito, né mesmo?
lá vou eu com meus macacos desgovernados...
meu chão movente se afundando a cada passo
– não, eu nunca varri os pés pra debaixo do tapete –
lá vou eu também com os meus anjos descontentes
de hora em hora, perguntando: já chegou? já chegou?
como se houvesse realmente onde chegar...
lá vou eu, lá fui, até me perder de vista
numa curva acentuada
que engole
o resto da estrada

13.11.12

arremesso


o coração rebatido por um taco de baseboll
home run
delírio da arquibancada
o meu espanto
de quem desconhece regras
e esse jogo que nunca acaba...

25.10.12

velhas fotografias


Sorrisos congelados em velhas fotografias. As fotos não guardam os copos quebrados, os cinzeiros entulhados de guimbas, as lágrimas, as brigas. Não guardam os nossos tropeços; apenas os pés lado a lado.
Aquele meu sorriso, onde você guarda? Sei que ficou com você quando eu fui embora. Já procurei por aqui, afastei os móveis, revirei as gavetas, e nada.
Eu não soube onde enfiar tanto amor. Furei os bolsos e deixei cair, quase sem querer, porque a gente esquece que os bolsos estão furados e enfia a coisa ali. Depois enfiei as mãos e fiquei surpresa por não achar, e fiquei muito triste por perder. Onde eu poderia encontrar outro igual? Me distraio brincando de encontrar um aqui, outro ali, como quem acha moedinhas nas ruas e fica feliz; uma breve euforia.
Faça o favor de me devolver meu sorriso, não é de bom tom ficar com o que é dos outros. Sei que não te devolvi alguns livros, mas isso não se compara. Sorrisos não se encontram nas prateleiras das livrarias. Só em velhas fotografias; e no seu esconderijo.

17.10.12

ainda & sempre o maldito cão

tem um cão desesperado
saltando, latindo e abanando o rabo
mendigando migalhas de atenção
um furacão que veio

não se sabe de que direção
telhados, postes, plantações
- tudo devastado
a imagem singela
daquela criança correndo na guerra
- as guerras nos porta-retratos -
aviões dentro de torres
tanques sobre carros
em todo lugar uma TV sempre ligada
uma pessoa enfiando o dedo na tomada
alguém tomado de angústia ou medo
alguém tomando o último gole
e indo embora em segredo
e tem aquele cão desesperado
eu querendo falar de amor
esse cão desesperado no meu peito
arranhando as minhas pernas
eu armada de pés
chutando ele de lado
sempre armada de pés
desarmada de chãos
vislumbrando 10 mil monstros
embaixo do colchão
criança correndo de dentro
do porta-retrato
das nossas guerras
se atirando no centro
da devastação
tem toda essa solidão
a tomada eletrizando os dedos
sem notícias na televisão
meu último gole
uma fuga em segredo
e o latido intermitente
de um cão

a falta das botas (versão do sutiã)

meu sutiã gostava muito
de se enroscar nas suas botas
minhas roupas sentem falta
de se atirar pelo chão

as coisas têm umas vontades
muito esquisitas
não conheço uma garrafa de bebida
que não queira ser esvaziada
e os cigarros nunca param quietos
dentro do maço
a carteira continua vazia
cabisbaixa
sem esperanças no futuro
as paredes andam mais silenciosas
e os livros se aproveitam disso
pra me atirar palavras na cara
mas as minhas roupas, sabe
elas estão mesmo inconsoláveis
recolhidas nas gavetas
dobradas sobre si mesmas
algumas tentaram o suicídio
e pendem, enforcadas
nos armários
por estranho que pareça
esse caso de amor coisal
meu sutiã realmente gostava
das suas botas

6.10.12

NADA DEVE PARECER IMPOSSÍVEL DE MUDAR

Em Niterói o negócio é o seguinte: Se vc tá satisfeito com os rumos da nossa cidade, não tenho nada a declarar. Caso contrário, tenho duas dicas:

Prefeito: Flavio Serafini 50
http://www.flavio50.com/

Vereador: Paulo Eduardo Gomes (PEG) 50001
http://www.pauloeduardo.org/

São dois caras q eu conheço de longa data, e de muitas lutas. O PEG de outros mandatos como vereador, sempre se fez presente nas lutas dos movimentos sociais, dentre os quais o estudantil; o Flavio do próprio movimento estudantil, e esse conheci mesmo bem de perto, pois fomos da mesma gestão do DCE da UFF e do grupo UFF em Movimento, e conheço tanto as suas ideias, quanto a sua prática, sempre ética e democrática, e posso afirmar q um excelente administrador, pq (junto com o Thiago Melo) descascou os maiores abacaxis q a gente recebeu da gestão anterior do DCE (e não eram poucos, dentre eles uma dívida trabalhista absurda q se arrastava há anos de gestão a gestão...). Nem sempre concordávamos em tudo, o dia a dia do movimento muitas vezes nos coloca em situações de conflito, mas o respeito mútuo e a vontade de mudar o q víamos de errado à nossa volta sempre prevaleceu, na construção democrática de uma Universidade melhor. Acredito mesmo q ele será um excelente prefeito, e o único q realmente representa uma mudança no quadro político da nossa cidade, q sempre teve PT&PDT como aliados (a oposição eleitoreira é apenas a fachada q encobre suas afinidades).

Como moro em Niterói, mas vivo no Rio, tb tenho uma dica para os cariocas:

Prefeito: Marcelo Freixo 50
http://www.marcelofreixo50.com.br/

Pus os links para os sites de todos, pois ainda dá tempo de conhecer as propostas.

NÃO VOTE NULO, NÃO DEIXE SEU VOTO EM BRANCO. Os votos anulados e em branco vão para o lixo (não são válidos), e quando descontados, fazem com que os percentuais dos candidatos aumentem, o q colabora para a eleição em primeiro turno do candidato mais votado. Não colabore com a sua omissão para a eleição de Eduardo Paes (ou então me aguente te responsabilizar depois... rs...).

Outro esclarecimento importante: as eleições são proporcionais para vereador e majoritárias para prefeito; traduzindo: votar no prefeito do mesmo partido do seu vereador não vai ajudar a elegê-lo. Por exemplo, vc pode votar no Claudio Salles para vereador (um cara q sei q fará diferença na cultura de Niterói), e no Flavio para prefeito, e aposto q o Claudinho terá muito mais voz na administração do Flavio, do q o PEG numa administração do Rodrigo Neves. O PSOL tem uma visão de gestão democrática, coisa q os outros nunca tiveram. Enfim (e isso é pq ouvi eleitores do Claudio desinformados sobre o assunto), o voto para prefeito vai única e exclusivamente para o candidato a prefeito; o voto para vereador, no cálculo proporcional, ajuda a eleger outros vereadores do mesmo partido.

Dadas as dicas, e feitos os esclarecimentos, desejo a todos um bom domingo, de voto consciente e esperança em dias melhores, pq NADA DEVE PARECER IMPOSSÍVEL DE MUDAR.

29.9.12

Show

Pães & Cigarros

sempre que meu cigarro acaba
eu penso em pão
tem uma padaria na rua ao lado
que faz entregas
e me traz os cigarros
pães e coca-cola
os entregadores são ágeis
e me trazem na mesma hora
os pães ainda quentes
os cigarros saltando pros dedos
e a coca-cola saciando a sede
das minhas ressacas
os pães costumam esfriar
sem serem tocados
se eu pudesse substituir pão
por você
as coisas seriam bem diferentes

24.9.12

hoje foi o dia de pôr as coisas em ordem:
roupas, sapatos, bolsas, papelada...
tudo q andava espalhado pela casa
tudo nos seus devidos lugares.
peraí, tem alguma coisa fora do lugar...
uma coisa mal guardada
num espaço apertado:
coração.
(sempre esqueço no lugar errado)

ruídos

as coisas sempre acabam assim
eu indo embora pra casa sozinha
mergulhando em ladeiras e escadas
largando os pés nalgumas pedras
perdendo o chão nalguma lágrima
um pouco assustada com a luz de um poste
que acende e apaga, acende e apaga
ruídos de curto-circuito no ouvido
as chaves balançando nas mãos
portas batendo às minhas costas
a agulha arrastando no disco
que já terminou de tocar
e ninguém se lembrou de virar
ruídos e mais ruídos
e todo o silêncio que fica
quando já não há nada a ser dito

DO LADO DE CÁ DO CORDÃO DE ISOLAMENTO

tem uma coisa que vai explodir dentro do peito
aí parece que o peito encolhe pra segurar
vai afundando e vai recolhendo as pernas e os braços
até que você fica ali como um feto
embaixo das cobertas
quieto, muito quieto
(qualquer movimento brusco e...)
a coisa querendo explodir e você lá
tentando desarmar a bomba
sem saber que fio cortar
suando frio
chorando baixinho pra não acordar os vizinhos
você sabe que dos explosivos que carrega no peito
qualquer fio que cortar vai fazer detonar
o suor frio
os fios
contagem regressiva
cordão de isolamento
e você lá
quieto, muito quieto
como um feto
do lado de dentro

28.8.12

vale-brinde

ninguém nunca me disse
que a felicidade não vinha
em um vale-brinde
dos pacotinhos de biscoitos da Elma Chips
- crec crec crec e nada -
e que a probabilidade muito mas muito maior
era da gente ser assim meio triste
esse jeito de andar distraído
com bilhetes premiados nos bolsos
sem conferir os números
da loteria

nunca mais, não durmo

não durmo mais, nunca mais
já tingi um ray-ban de olheiras na cara
tenho o meu estoque de cigarros
para as madrugadas, todas as madrugadas
as manhãs, tardes, noites
e novamente as madrugadas
baixando músicas que nunca serão
a canção de ninar que eu preciso
Cazuza e Dylan arranham meus sorrisos
meus ouvidos, quis dizer meus ouvidos
vozes dissonantes no meu peito
lendo livros que me atiram palavras como tapas
não há tom de colo
nenhum som de passos cruzando a porta
e eu não fui pra rua, meu bem
não bebi essa noite nem deixei o carro
estacionado na boca de um poste
não me encolhi me escondi
não dormi embaixo da ponte
não causei nenhum estrago
não tropecei não beijei o meio-fio
não corri não gritei nem quis ser inconveniente
apenas sentei e esperei
pacientemente
e eu nunca mais
não durmo
desejando ser devorada
por algum dragão noturno

7.8.12

brrrrrrrrrrrrrrrrrr...

Essas reformas constantes de quem tá sempre pondo a casa abaixo porque nunca tá suficientemente bom. Derrubamos as paredes com os pés e aí começa tudo de novo. Britadeiras, pequenas implosões, guindastes, guinchos, reboco, massa fumaça tijolo. Nunca tá bom. Aquela casa de madeira construída na árvore dos nossos sonhos de infância, eu perdi o endereço, as chaves, as escadas, a trilha de migalhas, todas as migalhas que me arranquei pra deixar no caminho, pra não me perder, meu corpo esfacelado pelo chão em algum lugar que eu não sei, por aí... pedaços dos meus dedos que eu tive o cuidado de cortar em pequenas partes iguais com um belo alicate, todos os fios dos meus cabelos, as rótulas dos joelhos, os cotovelos... tudo perdido por aí numa trilha... devorado por algum bicho voraz o tempo. Eu entretida demais nas reformas constantes de todas as casas novas. Trocando os móveis de lugar sem parar. Essa mesa vai prali onde tá o sofá, esse jarro do lado da janela, a janela embaixo do tampo de vidro da mesinha acho que vai ficar bom; duas portas no teto talvez, ou uma em cima da cama, a cama ali do lado do fogão de aquecimento automático, eu durmo na geladeira acho que vai ficar bom. E por aí tudo de novo e sempre recomeça. E as britadeiras... britadeiras em cima da cama, no computador, no sofá e na televisão, britadeiras em todos os livros das prateleiras músicas roupas jarros de planta mesinha de cabeceira. Coração; poeira, desarrumação. Britadeiras, britadeiras, britadeiras... – e não é tanto a dor, mas o som.
“(...) América, essa palavra, o som é o som da minha infelicidade, a articulação da minha velha e estúpida tristeza – minha felicidade não se chama América, ela tem um nome secreto menor mais pessoal mais risonho – a América está sendo procurada pela polícia, perseguida em Kentucky e em Ohio, dormindo com os ratos pelos currais e uivando os shingles metálicos que revestem os silos escuros dos fugitivos, é a figura de um machado na True Detective Magazine, é a noite impessoal nos cruzamentos e entroncamentos onde todo mundo olha para os dois lados, para os quatro lados, ninguém dá a mínima – a América é onde você não pode nem chorar por você mesmo – É onde os gregos dão um duro danado para serem aceitos e às vezes eles são de Malta ou do Chipre – a América é o que pôs na alma de Cody Pomeray o ônus e o estigma – que na forma de um policial à paisana cagou ele a pau numa salinha dos fundos até ele falar sobre um troço que já nem é mais importante – a América (MÁFIA DE JOVENS SEXO DROGAS CARROS!!) é também o neon vermelho e as coxas no motel barato – É onde à noite os bêbados trôpegos começam a aparecer como baratas quando os bares fecham – É onde as pessoas, as pessoas, as pessoas choram e mordiscam os lábios pelos bares e nas camas solitárias e se masturbam de um milhão de jeitos diferentes em tudo que é cantinho escuro – Tem estradas malignas por trás de tanques de gasolina onde cães assassinos rosnam atrás das cercas de tela e os carros da radiopatrulha de repente surgem como carros de fugitivos mas de um crime mais secreto, mais sinistro do que as palavras conseguem descrever – É onde Cody Pomeray aprendeu que as pessoas não são boas, que elas querem ser más – onde aprendeu que elas querem fugir e brigar, e que em vez de fazer amor elas rosnam – a América transformou o rosto de um jovem garoto em ossos e com tinta escura pintou olheiras nele, fez das maçãs do rosto uma pasta branquicenta e entalhou vincos naquela fronte marmórea e transformou a esperança cheia de vida na sabedoria silenciosa de lábios grossos que não dizem nada, nem para si mesmo no meio da maldita noite – o tilintar dos pires na triste triste noite – O trabalho gorgolejante de alguém na pia de uma lanchonete (na aridez vazia do Colorado a troco de nada) – Ah e ninguém se importa mas o coração no NOSSO peito vai reaparecer quando os caixeiros-viajantes morrerem todos. A América é uma latrina solitária. (...)”
JACK KEROUAC, em VISÕES DE CODY

24.7.12

flores para os mortos

Já faz um tempo que o Rio de Janeiro me parece um grande cemitério, e os cadáveres vagam por aí exibindo suas arcadas dentárias - ossaturas sem bocas sustentando um eterno sorriso. Um grande sorriso sem fim, por toda parte, e é apenas a condição de não ter carne pra recobrir os ossos; não tem nada a ver com felicidade. Ainda procuro algum resquício de vida em alguma esquina. Noites bêbadas de desamparo vagando desesperadamente pelas ruas sem saber para onde ir, até que o sol anuncie o fim de linha e eu me enterre numa cama qualquer, que geralmente não é a minha. Há uns amigos loucos que também procuram, sem cessar. Às vezes a gente se faz companhia, e é como se trouxessem flores aos nossos túmulos solitários. A visita de quem não esquece, no grande cemitério vazio. Aqui e ali, espasmos. Pequenas contrações musculares. Pulsaçõezinhas ínfimas em meio à grande paralisia. A gente não desiste. Mete o pé em algumas portas. Nas placas de proibição. O carro na contramão, sem medo. Dizem que Deus protege os loucos e os bêbados. Se há Deus em qualquer parte, espero que isso seja verdade.


ps. esse desenho aqui é do André Kitagawa.

20.7.12

Poema vagabundo para um bluesman qualquer


pego a estrada com vc
e cruzo tudo q é fronteira a pé
sob um baita temporal
usando um jornal de guarda-chuva
vc pode fazer as curvas mais radicais
com o meu carro
e até jogá-lo numa vala
- ele já tá pago -
a gente dá risada e larga ele lá
e sai nadando
e vai parar num mar do Caribe ou sei lá
qualquer lugar
q tenha um bom uísque
ou a pior bebida no pior dos bares
eu não faço mais questão de cama
a grana acabou, meu bem
a gente dorme na rua na grama no banco da praça
vc me acorda com sexo e blues, e tá bom
- bom dia, baby! -
eu te preparo o café
se tiver onde coar
e a gente fica lá
quarando ao sol
e enche a cara e briga por qualquer bobagem
e eu vou dar pro seu melhor a amigo
- a gente já sabia que ia acontecer -
eu sou uma mulher carente
- todas são.
vc vai querer se livrar de mim
eu vou querer te matar
- a gente sabia q ia ser assim –
então a gente bebe mais uma no próximo bar
e segue viagem...
vc esquece repentinamente
as contas pra pagar
se acumulando embaixo da sua porta
eu esqueço
q em algum lugar eu tinha uma porta
as paredes foram feitas
pra gente atravessar, cê sabe
e a gente sai derrubando tijolos
chutando pedras
desmoronando o sorriso da cara dos bestas
perguntando, onde há
afinal, onde há gente no mundo?
seres humanos nos atravessam
e a gente pára pra escutar a melodia
de um cão vagabundo
o pior dos cães nos interessa
e eu tento escrever uma coisa bonita
e sai um poema apressado
uns versos de rodoviária
rabiscados no banheiro
vc nem liga, e tá tudo certo
e eu fico inventando essa coisa
de dançar
sob o céu do deserto...
mas isso é tudo besteira
é q eu sou uma mulher carente, cê sabe
e eu já bebi demais essa noite
e só tenho pra conversar
esse livro do Kerouac
meus planos de viagem
e uma carta pela metade

ps.: deviam dizer q é proibido reler “On the road”
após certa idade...

19.7.12

Os cães vão latir...

Dublé

apagando incêndios com a ponta do cigarro
caminho sobre ovos ou cacos de vidro
já não importa se eu me atiro pela janela
de um carro em alta velocidade
eu sou aquele tipo de dublé
que sempre vai saber o modo certo
de se esborrachar
e um jeito discreto de cair fora
nunca meu rosto no cartaz do filme
descanso com a cara num copo de vodka
e deixo o cigarro cair aceso incendiando a casa
já criei uma pele à prova de queimaduras
e ossos inquebráveis
nem ouço soar o alarme...
pode esmurrar as mesas
e bater com a cabeça na parede, baby baby
entramos no filme errado
e a sessão já está na metade
tem sempre uma porta destravada
por onde eu escapo
uma janela, um parapeito
tô na minha melhor forma
e sei de tudo sobre saltos

10.7.12

Esses caras


tem esses caras
escorados no meu ombro
tropeçando pernas, chutando pedras
alimentando com as mãos
algumas feras
eles me alimentam
pondo o dedo na ferida
pra cavar mais fundo...
– “meninos não choram num quarto de hotel
ouvindo uma balada triste...”
– eu nunca soube nada de meninos –
mas tem esses caras
e essas músicas...
essas músicas repetidas
arranhando o peito...
um poema na ponta
do isqueiro
– sei alguma coisa sobre isso –
a gente não vai virar o disco
– “a gente aguenta a próxima dose, baby.”
a gente calçou o coração
com luvas de boxe
e os nossos pés
de precipícios

Bichos aquáticos


em vez de correr atrás dos ratos
que sobem dos ralos nas chuvas
eu devia me proteger nas marquises, sei disso.
tenho andando com os sapatos molhados
se eu virar a bota de cabeça pra baixo
posso encher um copo d’água, eu sei.
tem sempre uma nuvem sobre a minha cabeça
ou sou eu que persigo a nuvem? – sei lá...
o fato é que meu carro tá alagado
e a correnteza já começa a levá-lo
e eu subi no capô.
fico ali sentada
fazendo uns versos...
quem precisa de resgate?
eu não dei o telefonema.
tenho o direito de ficar calada,
sei coisas sobre isso.
e os policiais vêm me fazer perguntas
e os padres me fazem perguntas
e os professores perguntam
e os recenseadores
os burocratas
as operadoras de telemarketing
minha mãe pergunta demais, coitada.
e eu só tô a fim de ficar
boiando em cima do carro
com os sapatos alagados.
(e os ratos a essa altura já viraram
bichos aquáticos
– mas quem se importa?
ninguém sabe nada sobre os ratos
e ninguém os incomoda.)

Looney Tunes


Eu pareço um desenho animado. Levo uma rajada de tiros e não cambaleio e não caio, só bebo um copo d’água e fico lá vazando pelos buracos da barriga. O trator passa por cima de mim, e eu fiozinho de papel assopro o dedão e me encho de volta. Não adianta, baby. Pode vir com seus explosivos. Desenhos animados nunca morrem.

2.7.12

carta do porão

para Chacal e Tavinho Paes

Desse porão escuro, ouço latidos. Não sei se de fora ou de dentro. Os cães estão por toda parte. Displicentes, filando restos de banquete. Ou atacando ferozmente. Eu desci para o porão quando os cães invadiram a casa. Os cães ladram. Eles sentam à minha mesa para jantar com a tevê ligada, dormem na minha cama, dirigem meu carro. Eu vim para esse canil escuro debaixo da sala. Ouço latidos e a tevê ligada. Os cães devem vestir as minhas roupas, ou destroçá-las com os dentes, tanto faz. Passei a me vestir de palavras. Palavras escorrem da umidade das paredes. Há muitas infiltrações nos porões das casas. Os cães devem esquecer as torneiras ligadas. Há muitas goteiras. Passei a encher baldes de palavras, para jogá-las no ralo. Agora os cães deram pra fumar meus cigarros. Já estou por aqui com eles. Não gosto que bebam do meu copo, já disse. Não são cães adestrados. Aprendi a rosnar com eles e já estou com os caninos avantajados. “Cuidado, cão feroz” – pregaram na minha testa. Nunca entendi por que alguns cães abanam os rabos e fazem festa, e têm latidos finos e pequeno porte. Pelo tom do latido eu posso adivinhar o tamanho do poeta. Sempre preferi os vira-latas aos de pedigree, e dez mil vezes os de caça. Agora no porão faz frio e eu não sei se é noite ou dia. Os cães nunca dormem. Os latidos não param. Já estou andando sobre quatro patas e sei das coisas pelo faro.

Ps. Texto de abertura do livro "Todos esses cães latindo no peito"; fotos: Vitor Vogel

18.6.12

DRIVE-IN RIO

O Drive in Rio já tá rolando a todo vapor! Eu me apresento nesta quarta, dia 20, a partir das 21h30, junto com Bayard Tonelli, com a performance "Poesia e outras realidades", no Armazém 6 do Cais.


INFO

Após a experiência de sucesso em Copenhague (2010), o coletivo WUNDERKAMMER traz para o Rio de Janeiro o projeto DRIVE-IN, que ocupará o Armazém Utopia no Cais do Porto durante toda a Rio+20, Conferência das Nações Unidades sobre Desenvolvimento Sustentável.
Serão 16 veículos reciclados com intervenções e performances multimídia sobre questões críticas da atualidade. Cada veículo servirá de plataforma para um artista, ou coletivo, do Brasil, Dinamarca, Inglaterra e Austrália. O DRIVE-IN RIO é um grande espaço para experimentação em performance, design, audiovisual, artes cênicas, animação e video mapping.
DRIVE-IN RIO

13 a 22 de junho de 2012, de 21h30 à 00h

ARMAZÉM DA UTOPIA
Av. Rodrigues Alves, s/nº
Armazém 6 - Cais do Porto
Tel.: (21) 2516 4893

8.6.12

algumas pessoas desistem

para João Arthur Soares

Algumas pessoas desistem. Elas simplesmente dobram aquela esquina sem dizer adeus. Elas tomaram aquele trem, e nós não estávamos na estação abanando nossos lenços brancos. Algumas pessoas vão calmas, apenas já estão cansadas demais para continuar. Uma criança brinca de subir os degraus da escada rolante que desce. Algumas pessoas esquecem as crianças nos bolsos, e continuam subindo, e já não se divertem. Então elas param. Elas simplesmente param e a escada rolante desce. Elas saem do elevador no andar errado, já não sabem mais para onde subiam. Então elas saem. Elas somem ao dobrar aquela esquina, e todas as ruas ficam mais vazias. Um deserto no peito dos que ficam. Uma chuva fina. E uma criança saltando do bolso.