29.12.09

TODOS OS RISCOS

quando se vive de amores inventados
o risco é acreditar demais
e se perder no meio do caminho
e se enrolar no fio do novelo
e se envolver na trama da novela
e se acabar no meio-fio
chorando sozinho
quando se viver de amores inventados
o risco é se arriscar demais
e caminhar no fio da navalha
e se atirar sem pára-quedas
e se lançar no pára-peito
e ameaçar um passo
e retornar assim, meio sem jeito
quando se vive de amores inventados
o risco é apostar demais
e fazer só lances altos

contando os centavos
e jogar todas as fichas

num cavalo dado, meio sem dentes
perder o último cigarro
e implorar um trago
quando se viver de amores inventados
o risco é embaralhar tudo
jogar cartas de amor e enviar tricas de áses
se lançar de isca e engolir o peixe
desinventar o fim e começar do meio
não saber que lugar é esse, que horas são, nem por que veio
se envergonhar da confusão
e sair de fininho
quando se vive de...
...é escrever poemas mal acabados
sobre coisas mal entendidas
e ter sempre o que acabar
e ter sempre o que desvendar
e nunca ficar entediado
inventar um amor
é desejar ardentemente
todos os riscos!

17.12.09

Conexões

17/12 - 22h40
Diretamente de Macau-RN. Cidadezinha inha inha. A Grande Família na televisão. Um whisky no copo. Tá bom. Tem brisa. Hoje à tarde, depois do almoço, fiquei deitada sob uma árvore na pracinha da cidade, um calor desgraçado, mas sob a sombra da árvore, um picolé de limão, e um ventinho tão bom...!

...

CONEXÃO
16/12

Minha viagem começou com Kerouac. Eu disse que viria sozinha? Mas nãããão! Vieram comigo Kerouac, Bukowski, Sartre e Simone de Beauvoir, Freud, Jakobson, Tavinho Paes e Mário Bortolotto. Só amigos. Vieram todos comigo, depois de uma dificílima seleção, porque também imploravam pra vir Chico Buarque, Anaïs Nin, e até mesmo Nietzsche - mas eu tive que dizer não, não terei tempo para dar atenção a todos vocês! Então viemos uma pequena excursão, eu e meus livros. E minha viagem começou com Kerouac, ainda no aeroporto. Ele veio sentado no meu colo durante toda a viagem de avião (adorando as minhas carícias para lhe virar as páginas). Agora fumo um cigarro no aeroporto de Salvador, enquanto aguardo o vôo pra Natal. Passagem a R$179 tem seu preço: conexão. Então tive que descer pra trocar de aeronave e foi um alívio saber que eu podia sair pra fumar. Se eu soubesse... É melhor que escala, em que você tem que ficar aguardando dentro do avião, se entupindo de bala Toffe! Enfim, coisas de viciado... Mas o fato é que Kerouac repousa agora ao meu lado e eu parei pra escrever não tanto pensando em fazer um relato, mas porque é impossível ler Kerouac sem pensar nele. Então eu fiquei pensando... nessa estranha conexão, de me aproximar enquanto eu vou me distanciando... Talvez ele esteja lendo Kerouac agora mesmo. Tavez o mesmo livro, a mesma linha. Talvez a gente se encontre numa palavra, e passeie pelas entrelinhas... Pelo menos sozinha eu posso criar as minhas companhias. Ele acabou de sair, estava aqui agorinha, falando comigo. Tomamos whisky no mesmo copo, por isso só um, só por isso.
São 18h20. Daqui a 30 min. eu embarco. Eu e a minha comitiva. Só terminar esse cigarro...

...17h50. Túnel do tempo, voltei. Eu que nem uma idiota perguntando onde era o portão de embarque. Aqui não tem horário de verão. Mais uma hora de espera. Mais um capítulo. Mais três cigarros.

...18h15. Conheci um holandês interessante. Puxou assunto comigo ao ver a capa do meu livro. Kerouac, falou, é bom de ler com um baseado. Pelo sotaque perguntei, americano? Não, aí me disse que era proibido de entrar nos Estados Unidos. Por quê? Eu já interessada. Por causa de umas coisas que eu escrevi, respondeu. Sem entrar em detalhes. Entre umas palavras e outras eu voltava pro livro, estava compenetrada. Ele ainda falou de Bukowski e da legalização das drogas, da péssima qualidade do nosso baseado e da sua maravilhosa plantação na Hollanda. Logo ele partiu pra pegar seu vôo, sei lá pra onde, e eu fiquei triste por não ter lhe dado mais atenção. Por que será que ele foi proibido de entrar nos Estados Unidos? Comunista ou terrorista? O que será que ele escreveu? Jornalista ou escritor? Será que ele tinha um baseado daqueles, verdinho, pra me dar de presente de Natal? Pra onde será que ele estava indo? Por que falava portugês tão bem? O que estava fazendo em Salvador? Mais que tudo, eu queria ler o que ele escrevia, tendo como referências Kerouac e Bukowski e proibido de entrar nos Estados Unidos! E eu nem perguntei o seu nome... (apenas isso, e o google me salvaria!)

...18h45. Fui obrigada a passar um copo de milk shake de ovomaltine pequeno do Bob's na esteira de detector de metais. Mais uma hora de atraso, e embarque para Natal, com Kerouac e as magníficas balas Toffe da TAM.

15.12.09

Brisa

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

Manuel Bandeira

(é pra esse lugarzinho que eu vou - Macau/RN - chato, né?!)

Na verdade eu vou levar meus livros. Mas pretendo viver de brisa... Durante um mês e meio, entre o Rio Grande do Norte e a Bahia. Quando tiver acesso à internet, quando tiver novidades ou histórias interessantes pra contar dessa viagem, publico aqui no blogue. Embarco amanhã. Fico na casa do meu pai. Não quero ter histórias interessantes pra contar. Quero ler meus livros. Andar pela praia. E descansar... Viver de brisa! Só isso.

eu sou a sua solidão, de Tavinho Paes

para Bia Provasi

eu sou a sua solidão
sou eu quem preenche o vazio
que você não pode preencher
sou eu quem te confirma a falta de alguém
que nem falta faz
quando você está com alguém
vivendo em paz

eu sou a sua solidão
o movimento que você não previu
o acidente do qual não se escapa
o que vê o que você não viu
o acontecimento que não passa

eu sou a sua solidão
sou eu quem te laça e desenlaça
sou eu quem te oferece lágrima e lenço
sou eu quem pede silêncio ao silêncio
sou eu quem grita uma agonia
que nem a alegria disfarça

eu sou a sua solidão
quando quiser se livrar de mim
não me esquece nem me ameaça
não sou seu caçador
nem você é minha caça
eu não sou uma desgraça
sou sensível ao seu acaso
me importo com a sua graça
eu sou o seu caso

eu sou a sua solidão
posso causar ou aliviar sua dor
não tenho nada a ver com amor
não tenho modo de usar
não tenho pressa
nem ando devagar
não sou nem triste nem carente
não sou casual nem frequente
na minha presença
quem está ausente
está exatamente
onde eu estou
quando, comigo mesmo
estou transparente

eu sou a sua solidão
não estou no seu coração
nem possuo a sua mente
até gosto da sua imaginação
mas a minha emoção
não é nem fria nem contente
não tem culpa nem se arrepende

eu sou a sua solidão
a diferença que te faz
diferente
sou a sua solidão
a sua que não te pertence
eu sou sua ... só sua

... eu sou a sua solidão

11.12.09

A NOITE DE ONTEM. E APESAR DE TUDO, ESSA SOLIDÃO.

Ontem rolou o CEP 20.000, mesmo debaixo de uma chuva torrencial (que por sinal, alagou meu carro, que hoje dorme com os vidros abertos pra ver se seca a porra do tapete e não fica com aquele cheiro de coisa guardada molhada). Tinha que rolar, e tinha que ser du caralho, porque era para o Mário! O Mário tá se recuperando bem à beça, pelo que dizem as notícias e os amigos. E os amigos que não param de lhe prestar homenagens, em São Paulo, no Rio, em Londrina. E que fazem campanha pra arrecadar uma grana pra ajudar ele, manter sua família lá. Não tive como não lembrar ontem, com o Chacal, da história do atropelamento dele há anos e anos atrás em São Paulo, em que ele ficou na UTI todo estropiado, e os amigos também fizeram uma festa pra arrecadar uma grana pra ajudá-lo. O que só me confirma essa coisa que eu tanto acredito e prego: quem tem amigo, tem tudo! E puta que o pariu, o que mais o Mário tem é amigo! É um cara muito querido. Que bom, né? Eu queria muito que ele tivesse visto ontem a pastelada que a gente fez com o texto dele no CEP. Foi divertidíssimo!! As meninas se jogaram no chão, a platéia fez o coro da torcida, Juju levou um tombo e saiu rolando... linda! Foi engraçadíssimo! O texto foi um trecho da peça "O método", esse que segue:

(Os dois egos começam a fazer uma série de exercícios físicos um de cada lado do palco. Júnior e Jony são seus treinadores e é como se o palco fosse um ringue de luta livre.)

JÚNIOR: Senhoras e senhores. Ladies and Gentlemen. Essa é a luta do século. Do lado de cá nós temos o apocalipse, a barbárie, a anarquia como única saída, a esperança repousando na destruição, no future. Do outro lado, o otimismo, a força jovem de quem toma Cebion todas as manhãs e ainda acredita na Rainha da Inglaterra e no Santo Papa. (para os dois) Ok, vocês já sabem as regras, nada de golpes baixos e para o bem da humanidade que vença o menos pior.

(Jony toca um sininho)

EGO 2: Eu vou despedaçá-lo, verme.
EGO 1: Eu carrego a esperança da humanidade nos ombros. Não irei decepcioná-la. Eu acredito na Carla Perez e na paternidade do Gugu.
EGO 2: Acho melhor então começar a se defender porque eu vou começar a atacar. Sid Vicious.

(Ego 1 sofre um impacto, mas se mantém de pé.)

EGO 1: Dj Marky.

(Ego 2 fica desnorteado, mas permanece firme.)

EGO 2: Combat Rock.

(Ego 1 cambaleia)

EGO 1: Madona. (Ego 2 quase cai) Rainha Elizabeth, Georg Bush, Daniel (Ego 2 cai). Jean Claude Van Damme, Spice Girls, Jota Quest, Adriane Galisteu, Otávio Mesquita, Edir Macedo, Alexandre Pires…
JUNIOR: É sensacional, senhoras e senhores. A barbárie está sendo impiedosamente derrotada pela força do otimismo, da esperança. O apocalipse acaba de beijar a lona, senhoras e senhores. Ele já não encontra forças para resistir aos golpes sucessivos da alegria de viver, mas não... esperem.... parece que o pessimismo ainda tenta uma desesperada reação...
EGO 2: Frank Zappa.

(Ego 1 cai como se tivesse levado uma rasteira.)

JONY: Sensacional, seus porcos, reação brilhantíssima. O otimismo sem razão cai de bunda no ringue. É o final do primeiro round. (Toca o sininho.)
JÚNIOR: (para Ego 1) Você bobeou. A luta tava praticamente ganha.
EGO 1: Foi bobeira minha. Mas ele não perde por esperar.
JONY: (para Ego 2) Teve um momento que eu pensei que tinha sido o fim.
EGO 2: Nesse segundo round eu acabo com ele.

(Jony toca o sininho anunciando o segundo round.)

JONY: Vai lá, ataca primeiro, não dá chance pra ele.
EGO 2: Lou Reed. (Ego 1 vai cedendo) Vítimas da Candelária, do Carandiru, Mick Jones, Etiópia, flagelados do Nordeste (encosta Ego 1 nas cordas) Sem terra, Sex Pistols, Cólera, Olho Seco, Sub, Detrito Federal...
EGO 1: (num esforço sobre-humano) Back Street Boys (Ego 2 cai longe). NSync, KLB, Twister, Shakira, Nelson Ned.

(Ego 2 leva a mão a pélvis e solta um grito)

JUNIOR: (toca o apito) Eu avisei que não valia golpe baixo. Vou ter que descontar ponto de você, Ego.
EGO 1: Sacanagem.
JÚNIOR: Continua a luta. (falando baixo para Ego 1) Aproveita que ele tá agonizando e dá o golpe de misericórdia.
EGO 1: Deixa comigo. (falando bem alto) É o Tchan no Hawaí.
EGO 2: Nããããoooo!!!!

(Ego 2 voa para fora do ringue como se atingido por um golpe violentíssimo.)

JÚNIOR: Sensacional, senhoras e senhores. A rebeldia sem causa foi atirada para fora do ringue. Um golpe violentíssimo. A barbárie agoniza. Parece que a luta terminou. A torcida da “galera feliz” está em delírio. Mas esperem... não, não é possível. Parece que o pessimismo ainda encontra forças para se levantar. O pessimismo vai voltar. A ameaça ainda paira sobre a humanidade. É inacreditável.
JONY: Ok, seus porcos, podem parar de guinchar, ainda não foi dessa vez. Os abutres da felicidade sem razão não vão se alimentar do inconformismo salutar. A contestação volta ao ringue. O inconformismo não se dá por vencido. Os seus olhos brilham como se tivesse um golpe mortal preparado.
EGO 2: Dogma 95, Sid and Nancy, Torquato Neto...

(Ego 1 cai desfalecido, mas ainda assim consegue balbuciar.)

EGO 1: (balbuciando) Paulo Ri... car... do...

(Ego 2 cai e os dois ficam no chão um de cara pro outro como se estivessem trocando tapas já no limite de suas forças.)

EGO 2: The Damned.
EGO 1: Domingão do Faustão.
EGO 2: Pj Harvey.
EGO 1: Banheira do Gugu.
EGO 2: Nick Cave e Tom Waits.
EGO 1: Caldeirão do Huck.
EGO 2: Latão de lixo.
EGO 1: Caviar.
EGO 2: Barata com molho de pimenta da Cica.
EGO 1: Abobrinha.
EGO 2: Melancia.
EGO 1: Hebe Camargo.

(Suas últimas palavras são praticamente inaudíveis, mas mesmo assim continuam falando até tombarem definitivamente desfalecidos.)


Deu pra sacar mais ou menos como deve ter sido, né? Uma leitura dramatizada totalmente improvisada, no palco do CEP 20.000, com Betina de EGO 1, Marcela de EGO 2, eu de JÚNIOR, Juju de JONY, e a Karlinha lendo as rubricas. Destaque pra Juju impagável fazendo o sininho, e Marcela rolando no chão com um vestido preto deslumbrante! Foi tudo filmado pela câmera do Tavinho - quero muito ver isso! O Mário faz teatro pra se divertir com os amigos, e foi o que a gente fez, acho que ele vai gostar disso.

Depois rolou o "poeta oculto", que é um amigo oculto de poemas, num barzinho em Botafogo, que foi caótico, como tudo o que a gente faz, mas muito muito bom!

Esrevi esse pra Betina:

a poesia impressa no corpo
a poesia expressa na fala
poesia nas veias
olhos, sorrisos
no coração
a força de mil cavalos
a fome de cem leões
o fogo de dez dragões
e o canto de uma sereia
na sua voz
e ela é só uma menina
bailarina, serpentina
brincando de ser feliz
é uma atriz que esbarrou na poeta e disse:
- desculpa, não vi que você estava aí...
e a poeta já estava nela
poética, com cores vibrantes
corpinturada na sua pele
luminosa nos olhinhos que pedem mais
a poeta rompeu o casulo
borboleta colorida
e saiu voando por aí...
levando a atriz, a bailarina, a menina
a voar mais alto, mais leve, sempre mais...
um dia ainda vejo ela na tevê, na tela do cinema
num close up que faz ver a alma
e vou dizer: que linda! ela é poesia...
ela ainda é a menina que brinca.


E ganhei esse do Pedro Lage:

Meu Poeta Mais que Oculto

Onde se perde, no labirinto dos lábios,
uma romã de olhos verdes e andar de colibri?
- Você acredita em cinema?
- Sim.
- Você acredita em poesia?
- Sim.
- Você quer ser uma princesa?
- Aí, depende.
- Você depende do caos?
- Também.
Ela se move na noite dos beijos mais...
e passa, deusa-menina, no lapidário dos ecos
para me dizer que escapou por um triz.
- Você acredita em teatro?
- Mas, é claro que sim!
Ela é o amor que não se deu porque voou
com seus olhos de aurora
e a vida ficou toda aa sua frente, cheia de ninhos
e bosques sensuais, até se perder nas moléculas
inchadas do futuro. Nunca é demais lembrar
mesmo no abismo dos versos
que por ela suspirou o poeta, que por ela
morreu o poeta – quem, mais que tudo, a quis
até queimar-se nas asas do outono.
Ai de mim!, como imaginar que eu poderia
na várzea da cidade insone, imprimir meu nome
e dar dizer colar o meu amor a Beatriz!

Mas mesmo entre os suspiros dos poetas, essa semana eu ouvi de um amigo sobre mim o que é certeiro e definitivo: "Você é a garota mais solitária do Rio de Janeiro". Eu já chorava de soluçar numa mesa de bar, e fiquei com aquilo ecoando: "Você é a garota mais solitária do Rio de Janeiro". Ele é um cara que enxerga além. "Você é a garota mais solitária do Rio de Janeiro". Suspirei, conformada. Eu sou mesmo.

10.12.09

É HOJE


ESPAÇO CULTURAL SÉRGIO PORTO
rua humaitá, 163 (fundos / 2266 0896)

10/12, quinta feira
de 20 às 22:30 / 4 reais.



HOMENAGEM A MÁRIO BORTOLOTTO



À SAÚDE E À RECUPERAÇÃO
DO GRANDE ARTISTA E IRMÃO


com leitura e textos de / para mário por

rogério skylab, chacal, fausto fawcett, carmen molinari, fabrício corsaletti, graça carpes, edu planchêz, mano mello, beto brown, pardal, ericson pires, fran fillon e quem chegar
*******************************************************
art-action com
tavinho paes, arnaldo brandão, betina kopp
beatriz provasi, juju hollanda, marcela giannini, layanna lossë
******************************************************
marco gringo carioca, daniel, zé urbano, gabriel, ricardo rodrigues, microfone aberto

apoio: prefeitura do rio
coord. chacal

8.12.09

PRA SER BEM CUIDADO

que haja enfermeiras bonitas
pra você olhar quando acorda

e que elas ponham cd's de blues

pra você ouvir enquanto dorme

que os anjos te apliquem remédios

e os médicos digam poemas

pra você voltar logo

a dizer poemas, a cantar um blues

com os amigos

para as moças bonitas

e os anjos caídos

7.12.09

Tava só aguardando a convocação oficial do Chacal pra postar aqui. Eis o que ele anunciou lá no seu chacalog:

POEMÁRIO BORTOLOTTO NO CEP 20.000 / DIA 10 DE DEZEMBRO

Preferia que isso fosse cena de uma peça.
Mas temos que conviver com esse horror.
O que fazer ? como o pessoal dos Parlapatões,
cantar bem alto a poesia, de mário e em sua homenagem
para que a nuvem negra se dissipe,
mário volte a conversar com a gente e
que a vida possa ser vivida plenamente
sem medo ou terror.
Fui abrir o livro de poemas do Mário e caiu direto nesse:

A MORTE COM SEU HÁLITO FRIO
BAFEJA EM MINHA NUCA
COMO QUEM NÃO QUER NADA
COMO QUEM ESTÁ SÓ DE PASSAGEM
ELA SABE QUE EU NÃO QUERO NADA COM ELA
A VIDA É UMA BELA SACANAGEM
MORRER É UMA PUTA VIADAGEM

Como se ele viesse me dizer: "Fica fria, eu vou sair dessa!" E eu sei que vai.

5.12.09

Depois de algumas horas em estado de choque com a notícia de que o Mário Bortolotto foi baleado, e de ficar catando notícias atualizadas na internet que me dissessem que ele está fora de risco, escrevi um poema torcendo pela sua recuperação. É o que me resta... Ele é forte, vai sair dessa!

Mário,
segura essa, rapaz.
agüenta firme.
tem umas minas chorando por você.
tem uns amigos que hoje não vão beber.
tem até ateu que vai entrar na igreja, você vai ver.
agüenta firme, segura mais essa.
você é forte, rapaz.
eu sei que é.
é um cara que protege.
que merece proteção.
eu queria te proteger.
agora.
te tirar toda a dor.
agora.
trazer logo de volta
sua cara de mau
e o coração de menino.
trazer de volta pra uma mesa de bar.
pra um jogo de bilhar.
agora.
te dar um beijo numa esquina
com o dia amanhecendo.
agora.
te deixar sob o ventilador
com uma moça linda
adormecendo na sua cama.
agora.
te deixar numa janela
ouvindo blues
com um blue label nas mãos.
agora.

te deixar a sós
com o amor da sua vida
te dizendo docemente que te ama.
agora.
te deixar
agora
num lugar qualquer
que seja o melhor lugar pra você.
só pra você não me deixar
com essa angústia no peito
e essa cara de sala de espera.
pra você não me deixar
com essa lágrima parada
no canto do olho
com esse olho parado
na tela
pra você não me deixar.

não deixar essas minas chorando...
e os amigos sem beber...
e os ateus numa igreja
pedindo aos anjos
que te protejam...

3.12.09

ORAÇÃO

nós queríamos ser anjos
mas anjos têm asas
a gente segue voando
e se espatifando no chão
só queríamos ser anjos
mais nada
mas anjos têm asas
pra atravessar a escuridão
só queríamos ser anjos
tocadores de harpas
mas tem uma guitarra
arranhando o coração
anjos, anjos, mais nada
mais uma dose
mais um trago
mais uma droga
um beijo, um escarro
mais um salto
mais um chão
anjos tocadores de harpas
anjos portadores de asas
todos rindo da nossa cara
(verdade ou alucinação?)

2.12.09

DEUS É FODA!!!

Eu (al cientro), Nanda Rosemberg e Aline Vargas
em "Oração", de Fernando Arrabal

- Seremos como anjos.
- Como os bons ou como os outros?
- Os outros não vão para o céu, os outros são os demônios e vão para o inferno.
- E o que eles fazem lá?
- Eles sofrem muito, eles ardem.
- Não vejo nada de novo.

28.11.09

Esfinge e Oração - amostra grátis


A sessão de fotos pro meu livro, que seria hoje, ficou pra amanhã. Então eu e Marcela ficamos fazendo testes. O trabalho será com as pinturas da Marcela sobre a minha pele. Eis uma amostra grátis, da minha máquina tosca (a da Layana é profissional). Amanhã vamos montar a "Esfinge" completa! Foda vai ser desmontar depois... (a porra da tinta não sai direito só com água e sabão, e ainda resiste ao álcool gel - alguém vai ter que esfregar as minhas costas!)

E na terça, dia 1º, apresento "Oração", de Fernando Arrabal, com Aline e Nanda no Jardim da UNIRIO, às 19h30. Desde às 16h30 estarão rolando várias cenas. A nossa vai ser a última. O texto é foda e a nossa encenação acho que tá no mínimo interessante. (é a tal cena pra qual eu tava testando cheirar açúcar)
Tem diálogos do tipo:
- Seremos como anjos.
- Como os bons ou como os outros?
- Os outros não vão para o céu, os outros são os demônios e vão para o inferno.
- E o que eles fazem lá?
- Eles sofrem muito, eles ardem.
- Não vejo nada de novo.
E ainda:
- Se vemos que um pobre paralítico é sozinho, vamos visitá-lo.
- Não o matamos?
- Não.
- Pobre velho!

27.11.09

um gosto de café amargo e despedida
olhos de noite amanhecida
e um arrepio na espinha
- ainda estou naquela esquina.

26.11.09

BEIJOS SELADOS, BEIJOS SILENTES, E O QUE NÃO SE PODE CALAR
SOBRE O SHOW DA KARLA SABAH
("CALA A BOCA E ME BEIJA")

No Tribunal de Justiça, enquanto aguardávamos o convite do João pra falar poesia, ouvi alguém comentar sobre a responsabilidade que era subir no palco do Canecão – será que a Betina daria conta? Não titubeei. Betina é das melhores performers de poesia que eu conheço. Ela tem de sobra algo que é fundamental: cara-de-pau. Ela tá pouco se lixando se a pessoa vai sorrir ou vai torcer o nariz, ela pára uma pessoa no meio da rua com a sua POESIA QUE PÁRA e manda um poema com toda a certeza que ela tem naquelas letras. Ela se entrega com todo o seu corpo, com toda a sua alma, pra qualquer um. É a Geni dos poetas! E deixa na vontade comandantes de Zepelins que não entendem a sua arte. Betina é assim. É uma menina que brinca. Já viram uma criança brincar? Ela acredita em todas as suas fantasias, e ai do adulto que não embarcar! Ela tem certeza dos monstros que vai enfrentar, e confia que com aquela capinha é capaz de voar. E voa... quando salta de cima do sofá. Betina é assim. Então eu sabia. E foi assim que ela abriu o show da Karla Sabah. “Eu sou a Betina, uma menina...”


A menina não estava sozinha. A seu lado, um coroa vidrado na gatinha. Tavinho devia estar mais inseguro que ela, apesar de sua longa estrada. Assim, como ficam os coroas com gostosas bem mais novas e cheias de atitude, meio desconsertados... Encontrei Tavinho mais cedo transtornado pelo esporro que tinha tomado da BB por tê-la feito borrar a unha. Que nem a criança que acabou de levar uma bronca da mãe porque fez coisa errada. Tavinho seria um desses moleques bem agitados, que não pára quieto um só segundo, que é a mãe desviar o olho e ele já virou o mundo de pernas pro ar, construiu um foguete com utensílios de cozinha e já está pronto pra embarcar! E embarca... Depois volta cheio de novidades, e já marcou com o ET dono de um bar um show de poetas no meio do Sistema Solar! Tavinho é assim. E ai de quem não acompanhar! E lá estava ele no palco dizendo: “Eu só posso ser aquilo que eu sou 24 horas por dia”. Tavinho é assim. É o que ele é. E é tudo o que ele queria.



Um pouco antes eu adentrava o Canecão, junto com a minha irmã, Aninha, com um convite que dizia “Setor B, Mesa 364”. O que eu procurava era o meu lugar, e não essa indicação. O meu lugar que era junto com Marcela, Maysa, Fernão, Juju, Eliana, Tito, Adriana, Maristela, Dalberto, Ricardo, Bayard, Luiz etc etc etc. Estavam todos lá, os poetas, aglomerando mesas que não era “as suas”, pra verem juntos aquilo que seria um acontecimento poético-musical no palco de peso do Canecão. Os poetas, acostumados a viver em guetos, eventinhos de poetas para poetas, vibrando com aquela janela, portão, grade, porta de garagem, porta aberta, escancarada, dando passagem pra palavra. E foi assim que, extasiados, vimos Betina entrar. Depois Tavinho. Num bate-bola lindo! Um dando o passe pro outro marcar. Preparando o território pra Karla Sabah.



Karlinha entrou gostosa, falando o poema que ela deu o título de Madame Kaos. O show foi todo lindo, ela brilhou! No final os poetas foram todos pra linha de frente, pra beira do palco, dançar, como boa vanguarda, convidando o público todo a se levantar. E no bis do “Cala a boca e me beija”, num momento me deu um estalo, é agora: subi no palco e fui caminhando com os braços abertos em direção à Karlinha, que feliz em me ver, retribuiu o meu beijo, um estalinho, um abraço, outro estalinho, e a minha saída calmamente do palco. Não poderia sair dali sem atender ao pedido que ela me fazia no outdoor, sempre que eu passava na frente do Canecão, durante uma semana inteira, e que ela reiterava com a sua linda voz na primeira execução da música e durante todo o bis. Um beijo que diz “eu te amo” em silêncio. E fica ecoando...

Fotos: Maysa Britto

alô, alô, testando...

acabei de cheirar açúcar. isso mesmo. assim. peguei uma tábua. joguei um pouquinho de açúcar. peguei um cartão. ajeitei uma carreirinha. enrolei um canudinho. e punf... mandei ver! um pequeno teste pra uma idéia de cena. arrabal junkie. queria ver se com açúcar dava pra simular cocaína. fiquei fungando, passando a mão no nariz - igualzinho quem cheira pó, perfeito! depois comecei a rir sozinha (será que eu tô doidona?). pensei: "é por isso que ator é tudo maluco". imagina. vc chega em casa depois de um dia exaustivo de trabalho e estudo. janta. fuma uma cigarro. olha uns e-mails. depois vai pra cozinha e manda uma carreirinha... de açúcar! virei pra minha mãe e falei: "mãe, cheirei açúcar". ela nem se assusta mais. amanhã vou quebrar umas garrafas.

24.11.09

Hoje tem show da Karlinha no Canecão. "Cala a boca e me beija". Ainda tem participação do Tavinho e da Betina falando poesia. Todos os amigos lá. Vai ser foda! (e das melhores...)


23.11.09

EXPLOSÃO

penso em explosões
de manhã especialmente
sempre penso em explosões
ligo o gás pra preparar o café
explosões
andando pela rua vi três botijões de gás empilhados,
um em cima do outro
pensei em explosão
quando bati de carro
pensei em explosão
sempre que passo por um posto de gasolina
penso em explosão
às vezes acendo um cigarro.

BAGANA NA CHUVA

É o título de um livro do Mário Bortolotto. Tomei a liberdade, sem ele saber, e certamente contra a sua vontade, de juntar umas frases dele (fora do contexto original), com minúsculas alterações pra dar unidade, e compor um poema. Goste ou não, é pra ele! Grata pelo livro, que é muito bom!

ele costumava olhar os pássaros
o retrato de uma garota e um estilete que não ia usar
caiaques no céu
baganas atiradas em poças d’água
gotas de chuva com gosto de pepsi-cola
ele nunca conseguia chegar em casa
era preciso pegar uma mulher e fugir pra algum lugar
um lugar onde não se ouvisse falar de amor
onde ninguém soubesse tocar saxofone
mas ele apenas tomava conhaque na janela ouvindo blues
(música é melhor que saber o caminho de volta pra casa)

20.11.09

BLUE EYES

para Tavinho Paes*

blá blá blá blá
ele é totalmente demais

ele tem um grupo de green eyes
com seus olhos the blues man
the girls da sua life
as she-has do seu he-man

qualquer coisa dá o start
ele não aceita o stop
art é action, vida é arte
ele é pop, ele é top

com seus olhos de blues man
suas moças de green eyes
sua batida beat
transportada em bytes

ele não topa o stop
ele quer sempre mais
seu heart beat bate
pelas belas de green eyes


* autor de músicas como "Rádio Blá", "Totalmente demais" e "She-ha" - siiiiim..., a da Xuxa! grande poeta. e grande amigo.

ESSA COISA

essa inconseqüência
essa urgência
uma ânsia
uma coisa qualquer
um impulso
um fascínio
uma atração incontrolável
isso que é inominável
sem explicação
esse jogar-se
atirar-se ao precipício
um sorriso no rosto
no abismo
o chão se aproxima
a queda é certa
vai doer, vai sangrar
vai espedaçar
você pode morrer
você pode matar
todo o risco
todo o medo
tudo o que é angústia e desespero
se desmancha no ar
naqueles segundos
em que a paixão clareia os sentidos
tudo é leve, não há gravidade
e você sabe,
contra todas as leis da física,
você sabe que não está caindo
e mais do que tudo, você sabe
tem a plena certeza
de que sabe voar
nossa!
tem uma dorzinha da tua mordida no meu pescoço que me faz um bem...
se eu soubesse que ao deslizar a mão desde a nuca ia me sentir assim
tinha oferecido meu corpo todo aos teus dentes
antes
sempre

18.11.09

não ter você
é a possibilidade de ter um dia
ter você
é o começo do fim
caminho pra te perder

16.11.09

QUANDO NÃO SE ACREDITA

a vida até que é boa
quando você não acredita
em comerciais de margarina
em novelas do manoel carlos

a vida até que é boa
quando você não acredita
em deus e no diabo
no certo e no errado

a vida até que é boa
quando você não acredita
em previsão do futuro
em remissão do passado

a vida é boa
quando não se acredita
quando ela simplesmente

(se fingindo de acaso)
te surpreende

APENAS ISSO.

uma vodka no terraço
você e eu
cercados de antenas
de topos de prédios
à nossa frente, o precipício
o abismo sob nossos pés
e a gente sentado em silêncio
balançando as pernas
lado a lado
um suave sorriso
e a leve impressão
de que viver vale a pena

EM SÍNTESE

eu bebo pra esquecer
o futuro
previsão de coisas devastadas
mundo
alma

14.11.09

GATINHO DE ESTIMAÇÃO

eu queria ter um gato que se enroscasse nas minhas pernas em noites como essa
jogada no sofá lendo um livro, fumando um cigarro, no silêncio que é a minha calma
e um gato passeando pelas minhas pernas
vindo acomodar-se perto do meu peito
bem de mansinho...
só pra eu sentir, entre um ronronar e outro,
um leve alívio de ser amada
(mas não há gato, não há alívio, não há nada)

é mais ou menos disso que eu tava falando no post abaixo:

eu não entendo, não consigo entender, por que o amanhecer daqui é tãããão lindo! por que é sempre tão avermelhado, alaranjado... pinceladas no azul, no branco. é indescritível o que é o dia amanhecendo da varanda da casa da minha irmã na glória. vista pro aterro. baía de guanabara. enfim... outro dia fiz umas fotos. hoje tá ainda mais bonito. mas vou postar as fotos do outro dia pra mostrar como parece uma pintura. e se alguém discordar eu digo: "é porque você não viu ao vivo". o que é um argumento de autoridade maravilhoso que encerra o assunto.

13.11.09

Hoje, a partir das 23h, tem show do Arnaldo Brandão, "Amnésia Programada", no Conversa Afinada, Rua Vinícius de Moaraes, 75, 3o andar - Ipanema. Convite R$20; R$15 lista amiga. Participo falando um poema. É isso aí, foi de última hora, não deu pra avisar ninguém, e eu tô sem celular. Então, se der tempo de alguém ler isso aqui e chegar lá, até.

INESPERADO

é que tem coisas inesperadas
é que tem coisas realmente inesperadas
é que eu não sei quantos chopps tomei
nem que horas eu vou voltar pra casa
é que de repente eu me animei
é que de repente eu não sei
eu simplesmente não sei
nem sei se eu quero saber de alguma coisa
é que eu simplesmente me deixo levar
e que tem coisas inesperadas
é que o que se espera é muito chato
o previsível, indesejado
é que de repente o desejo nasce do acaso
é que de repente o acaso é um caso sério
é que nada é de caso pensado
é que o que se pensa é muito chato
o impensado, desejado
é que de repente o dia amanhece
é que de repente a vida amanhece
é que de repente, eu ainda estou de noite
eu preciso de óculos escuros
com vista pro mar
eu preciso de você
com vista pro mar
das aves negras no céu
das ondas brancas no chão
das bebidas trancadas no bar
de burlar a segurança
das saídas de emergência
do 28o andar
de tudo o que nos ronda
de tudo o que eu nem sabia -
de tão inesperado! -
que eu iria precisar
você e eu (só)
(sem vista pro mar)

9.11.09

IMINÊNCIA

a possibilidade é mais que o fato
o por fazer melhor que o feito

muito maior que o ato (mais vasto...)
o que está nas mãos está nas mãos.
não é desejo de pegar
[a mão só avança pelo que fica no ar]
desejar e ter é muito bom - essa urgência...
mas bom mesmo é morder o sanduíche pelos lados
e deixar por último o meio cheio de recheio!
ou comer primeiro a parte seca do biscoito recheado
ou guardar aquele último gole de coca-cola pra manhã do dia seguinte de ressaca - hummm...
a coisa deixa de ser a coisa em si e vira um objeto de desejo
como um beijo guardado
[estamos sempre na iminência de algo]

longa viagem para avestruzia


avestruzes, avestruzes
eu queria ver avestruzes cruzando o aterro esta noite!
avestruzes enormes cruzando o aterro do flamengo
para espanto dos seres terrenos
1, 2, 3, 4, 5... vários!
nas duas pistas
correndo
não me pergunte por que avestruzes
são seres estranhos
meio pássaros, meio humanos
como um gordo americano empunhando o seu bic mac no pódio
tendo a velocidade de um keniano
avestruzes enormes, gordos, comedores de bic mac e corredores de maratona
com suas pernas finas e compridas dando largas passadas de corrida
cruzando o aterro despreocupados, desprevenidos dos carros
para espanto dos motoristas embriagados
ia dar no noticiário:
“acidente no aterro é causado por avestruz na pista”
“de acordo com testemunhas, os avestruzes desembarcaram minutos antes no aeroporto santos dumont”
“ainda não se sabe por que vieram”
“os avestruzes permanecem detidos para averiguação”
“segundo o comandante do 13º batalhão, ainda não foi possível colher os depoimentos porque os avestruzes não falam a nossa língua”
precisa-se de tradutores de avestruz – anunciaria o jornal nos classificados
tradutor de avestruz se tornaria um emprego valorizado
não por ser um trabalho assim tão bacana, mas por estar em falta no mercado
logo surgiriam os cursos especializados:
- avestruzês para iniciante
- avestruzês – curso básico
- avestruzês advanced
e as publicações:
- avestruzês para viagem – guia de bolso
etc.
e até as universidades ofereceriam habilitação no curso de letras
marque a opção de habilitação no curso desejado:
( ) inglês
( ) francês
( ) alemão
( ) espanhol
( ) avestruzês
e por aí vai...
mas tudo isso não tem a menor importância
eu só queria ver avestruzes cruzando o aterro esta noite
sem nenhum sentido político, social ou educativo
pela sua total falta de sentido
pela sua total irrelevância
só porque eu acharia bonito
como uma poesia
cruzando o aterro para estar comigo
espelho de areias brancas
espelho sem água
sem margem pra debruçar
miragem, miragem
caminho pra algum lugar
deserto, lugar de passagem
lugar que não dá pra ficar
sempre igual, sempre igual
duna aqui, duna ali
vários contornos
a mesma paisagem
sempre o mesmo chão
sempre o mesmo sol
sempre a mesma noite fria
depois do calor do dia
sempre o mesmo céu
sempre o mesmo sou
em busca de oásis
deserto de areias brancas
deserto sem água
sem margem pra debruçar
espelho sem fim

5.11.09

NO SILÊNCIO DAS HORAS

como é triste a resposta que se dá no silêncio das horas
dolorida em todas as demoras de não ser
do não sei...
o não que se impõe no talvez
sem nunca ter sido dito
ecoando no tempo esgarçado
no espaço vazio
o não na voz são três letras
palavra de curta duração
bala que atinge em cheio
uma só dor, e a paz eterna
o não no silêncio é a sala de espera
é a sala de espera
é a sala de espera
espera
espera
hemorragia interna
eterna, silenciosa, consumida de dores de demoras
como é triste a resposta que se dá no silêncio das horas

4.11.09

PERFORMANCE

A convite da performer Tania Alice, professora da UNIRIO, vou participar da performance "24 horas de vida de uma mulher", das artisas francesas Emmanuelle Becquemin e Sthéphanie Sagot e do chef Roland Villard, segunda, dia 16, às 20h, numa noite interativa de arte e gastronomia promovida pelo Sofitel e pela Aliança Francesa. O evento faz parte da comemoração do Ano da França no Brasil. Segue abaixo o flyer.


31.10.09

NUMA NOITE QUALQUER...

I
quando colhemos a poeira das ruas
e os postes iluminam apenas poças d’água que refletem solidão e dor
e uma criança vende chicletes na madrugada
e um bêbado grunhindo gemidos desconexos
corta o silêncio, invade o poema
falar de flores e da luz da lua
não vale a pena


II
um hippie corta palha e me faz uma esperança
eu não quero, estou dura
um hippie corta palha e me faz uma flor
eu não quero, estou dura
me faz um peixe, um pássaro
várias formas de dobradura
quando ele já está convencido
me presenteia
de peixe, pássaro, flor
de esperança
e eu tiro do bolso um sorriso
quase doce
de criança


III
uma sirene de polícia
de ambulância ou de bombeiro?
uma rajada de tiros
ou de fogos de artifício?
uma confusão
ou um festejo?
um bêbado xingando
ou bradando versos de amor?
é de alegria ou dor
de medo ou esperança
a síntese dos sons da madrugada?

Difícil ser funcionário

João Cabral de Melo Neto

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

26.10.09


Vamos (Madame Kaos) nos apresentar no CEP 20mil, esta quinta, dia 29, no Espaço Cultural Sérgio Porto, a partir das 20h.



19.10.09


Esta terça, dia 27, tem o segundo show de lançamento do CD Amnésia Programada, do Arnaldo Brandão, na Cinemathèque, a partir das 21h. Vou falar um poema lá. A entrada é R$20, e R$15 na lista amiga.

16.10.09

Eu era o pacote completo, e eles fizeram um lindo laço de fita pra enfeitar a caixa (ou poemas de amigos)

Sabe o que eu acho incrível na amizade? É que os amigos conhecem a gente profundamente, e ainda assim, nos amam. Eles conhecem de cor os nossos maiores defeitos, e fazem questão de exaltar as qualidades. Não que nos passem a mão na cabeça, muito pelo contrário. Eles sabem o momento de dizer "não", e quando é importante deixar o "sim" rolar solto... Mas eles amam o pacote completo, cheio de imperfeições. Eles rasgam o papel do presente, não estão nem aí pra decoração, porque eles sabem que o presente está dentro da caixa, e que é cheio de defeitos de fabricação, mas mesmo assim, brincar é tão bom!... Eles não precisam do manual, ou ler as regras do jogo. O que eles não sabem, eles inventam! O que deixa a vida cheia de possibilidades a mais... A amizade é a maior invenção da humanidade! E eu fiz toda essa introdução só pra falar que recentemente dois grandes amigos me fizeram um grande carinho em forma de poesia. O Fernão virou meu amigo de infância logo que nos conhecemos, e olha que a infância dele foi bem antes da minha. O Lucio, meu marido, dizem até que já temos 3 filhos. Veio de Brasília essa semana visitar as crianças... Amigos, amigos, sempre amigos. Apesar da diferença de idade, apesar da distância. Apesar dos defeitos de fabricação e etc. Porque amizade não se faz de "apesares". Se faz de "com isso, com aquilo e tudo o mais". Eu amo esses rapazes, o pacote completo de cada um deles! Agora, chega de blá, blá, blá. Eis os poemas:

BIA
Para
Bia Provasi
Pelo olhar se apresenta
voz suave e tranqüila
divertida e atenta
sempre em paz
sempre faz
acontece
ama
ri
.


recita
a vida
poesia
que faz
a cada dia
um verso
a cada gesto
e o ritmo
no pulso


seu olhar de anjo
o jeito de ocupar o espaço
a dança que faz com o braço
a vida que dá ao poema
abrem portas no universo
para acompanharmos
sua vida a cada verso

Fernão
15/09/09

(AMIGOS: Eu, Fernão, Maysa, Marcela, Maíra, Juju e Célio)

Atemporal
para a grande amiga, Beatriz Provasi.

Essa amiga Bia
É pra lá de porreta
É livre no pensar
E diz o que vem na veneta

Artista de verso e de palco
Corajosa, e decerto valente,
Amiga do peito e, também,
Pessoa muito coerente

Esporadicamente amigo,
aqui logo reconheço
que, apesar da distância,
nunca faltou o apreço

Saudade que vai,
O tempo esvai;
Saudade que vem,
Amizade aqui tem.

Amiga que veio
que é e será
mais que adjetiva,
Sujeita atemporal

Lucio Mello

(AMIGOS: Lucio, Tamara, Natália, eu e Jacomo)

10.10.09

NU ARTÍSTICO

a nudez mais funda é a da alma
tento esconder as gordurinhas dos meus pensamentos
mas elas pulam pra fora, formam pneuzinhos
meus poemas são repletos de pneuzinhos
são o corpo imperfeito de um espírito inquieto
não uso maquiagem e vivo descabelada
meus versos têm um dentinho torto que aparelho nenhum dá jeito
cansei de sorrir com a mão na frente pra esconder o defeito
hoje sou só gargalhada!...
desfilo versos desengonçados pelas passarelas
me deixo fotografar com as expressões mais ridículas
o amor é ridículo – por que meus versos têm de ser bonitos?
eu defendo a feiúra da obra de arte
a estética da feiúra, da imperfeição,
do exagero, do excesso de informação
a estética dos engarrafamentos, da fumaça, das buzinas
do muro pichado, do lixo revirado
de tudo o que é caótico, urbano
de tudo o que é humano
a nudez mais funda é a alma exposta, ferida aberta,
coração dilacerado atirado no asfalto
que ainda pulsa, pulsa, pulsa...
antes de ser esmagado pela roda do carro
o motorista apressado nem vê
(está sempre atrasado pra viver)
eu desacelero, recolho, emolduro, exponho:
é o meu poema
que ainda pulsa, pulsa, pulsa...
eu estou nua dentro de um carrinho de compras no meio da rua
mas são poucos que têm olhos pra ver.

15.9.09

uma carta (ou história de ninar)

Oi Fer, onde está você? Estou morando num arco-íris, que fica pra lá do azul! É incrível como todas as cores se completam e todos os meus amigos me trespassam nos lilases. Tem dias que eu durmo no vermelho, outros no verde, e quando vejo, estou acordando no amarelo. Você precisa conhecer o meu pote de outro! Ele também é seu, como todos os meus tesouros. Os duendes o vigiam quando não estou. Quando estou, brincam comigo. Pulamos corda nas cores, cada um em uma, ao mesmo tempo. Também nadamos, cada qual na sua raia. E apostamos corrida até o pote de outro, que fica na linha de chegada. Eu sempre ganho, porque tenho passadas mais largas. Mas às vezes, fico pra trás de propósito, só pra ver a alegria de ganhar estampada em seus rostos. Como eles sempre moraram aqui, conhecem muitas histórias que cruzam os ares. Me contaram de um menino que eu gostei muito, porque me lembra a gente, as nossas viagens. O menino não conseguia dormir à noite, quando sua mãe dizia que era a hora. Então, pra passar o tempo, adivinha o que ele fez? Resolveu construir uma cápsula espacial! Todas as noites, antes de sua mãe o botar na cama, ia até a cozinha e pegava garfos, facas, conchas, escumadeiras, panelas, abridor de lata, uma hélice de liquidificador e etc. Ia pegando as poucos... Também uns pregos e parafusos, alicates, e outras ferramentas. E a cada noite, ia montando as peças, umas nas outras, até o dia raiar e o sono bater. Uma noite, ele percebeu que não precisava fazer mais nada, estava pronta a sua cápsula espacial. Então ele resolveu viajar pelo Universo. Cada noite um passeio diferente. Visitava estrelas, astros, planetas, os anéis de Saturno, cometas, conhecia extraterrestres de todas as esferas, e brincava com eles. Viajou tanto, tanto, tanto, que já conhecia cada ponto do Sistema Solar, já havia passado por toda a Via Láctea. Então resolveu partir para outras galáxias. E uma noite, decidiu dar uma volta espacial completa. Subiu, subiu, subiu, subiu, subiu... passou muito tempo viajando pelo espaço. E nada de se completar a tal da volta. Começou a pensar que talvez o Espaço Sideral não fosse redondo como a Terra. Resolveu voltar, mas, de repente, se viu perdido. Perdido no meio do espaço, no vago, sem nenhum ET ou uma estrela conhecida. Não tinha a quem pedir ajuda, uma informação, guarida. Pensou na sua mãe, na sua casa, no seu quarto, em seus brinquedos, em tudo o que havia ficado para trás. Sentiu uma angústia jamais sentida, um aperto no peito, um misto de saudade e desespero. E pôs-se a chorar. Chorou, chorou, chorou, chorou, chorou... chorou tanto, que a cápsula começou a inundar. Ele nem se deu conta que estava boiando na água, já que no espaço se bóia no ar. Chorou, chorou, chorou... e a cápsula cheia d’água começou a pesar, e com o peso das lágrimas, começou a descer... E desceu, desceu, desceu... e com a vista turva das lágrimas, o menino nem via passar as estrelas e os planetas e tudo o que conhecia, nem os ETs que lhe acenavam pelo caminho. Quando deu por si, estava a ponto de se afogar nas próprias lágrimas, que inundavam toda a cápsula. E quando abriu a porta, estava dentro de seu quarto. A água que escorreu varou pela casa e foi dar na sala, onde outro grande lago de lágrimas se encontrava. Eram as lágrimas de sua mãe, desesperada, que já havia ligado para a polícia, os bombeiros, todos os hospitais e lugares mais sombrios. O barulho do encontro das águas a despertou, e ela correu para o quarto do filho. Se abraçaram tanto, e tanto comemoraram, que a mãe nem deu pela presença de uma cápsula espacial formada por seus utensílios de cozinha no meio do quarto. Apenas disse ao filho, pode brincar onde quiser, meu menino, mas não saia mais sem um aviso. Achei que você tinha sido abduzido por ETs! Que bom que essas coisas não existem, suspirou aliviada. O menino reprimiu uma risada. Recebeu da mãe um beijo de boa noite. E naquela noite, dormiu como um bebê embalado no colo. Sonhou com uma menina que morava num arco-íris, e brincava com duendes de pular corda nas cores. E ele se divertiu tanto apostando corrida até o pote de ouro, que percebeu que o sono também pode ser uma viagem extraordinária! Não passou mais uma noite em claro. E você, meu Pequeno Príncipe, meu Menino Maluquinho, o que anda aprontando nas suas viagens?
Beijos,
Bia


ps. este texto integra o livro em processo "Oscar manda lembranças"...

5.9.09

iminência (primeira versão)

a possibilidade é mais que o fato
é o olfato, o tato,
o toque que arrepia
o gosto de quero mais
é o que fica no ar
que você quer apanhar...
o que está nas mãos está nas mãos.
não é desejo de pegar
desejo é impulso, é vontade,
sonho de ser realidade
o que move, motiva, o que pulsa
desejar e ter é muito bom - essa urgência...
mas melhor é morder o sanduíche pelos lados
e deixar por último o meio cheio de recheio!
ou comer primeiro a parte seca do biscoito recheado
ou guardar aquele último gole de coca-cola pra manhã do dia seguinte de ressaca - hummm...
a coisa deixa de ser a coisa em si e vira um objeto de desejo
como um beijo negado
[estamos sempre na iminência de algo]

24.8.09

meu esmalte vermelho descasca.
é tão feio unha descascada de esmalte vermelho!
é feio ver explícito o pedaço que falta
mas, afinal, isto é meu espelho:
um pedaço que falta gritando vermelho intenso no corpo inteiro.
e não adianta retocar aqui, ali, acolá
o jeito é tascar acetona e tirar tudo!
depois, repintar de outra cor
um tom mais claro pra dar leveza...
pra descascar sem dor
um descanso, uma pausa, um alento.
e depois, um recomeço
um novo vermelho intenso
que só descasque no tempo certo de repintar
dando a impressão de estar sempre a durar...
eu preciso dessa ilusão!
em não ver o pedaço que falta,
é como se ele não estivesse lá.
(a pior ausência é a que se faz presente no espaço vazio que a denuncia)

20.8.09

Sarau da UNIRIO

Dia 28/08, sexta, a partir das 18h, vai rolar o Sarau de Artes Cênicas da UNIRIO, que organizamos todo início de semestre pra receber os calouros. O sarau percorre várias salas do CLA (Centro de Letras e Artes), e termina na sala do DA, em cima da cantina.

29.7.09

amizade não se conquista
amigo não se ganha
amigo não se faz
amizade não cresce, não se constrói
e é por isso que amigo não se perde
amizade não se desfaz, não diminui, não se destrói
amizade é um encontro que acontece
amigo
– e isso é tanto e é só isso –
se reconhece

20.7.09

Hoje eu, Betina Kopp e Lucas Castelo Branco estaremos no lançamento do livro "ESTRIBILHO DO ENCARCERADO", de Anna Maria Dutra de Menezes de Carvalho, falando poemas da autora. Será a partir das 19 horas, na Livraria diVersos, durante o Corujão da Poesia-Universo da Leitura da Barra da Tijuca. (Av. Érico Veríssimo, 843 Lj A)
De lá vamos para o Sarau Eletrônico do Tico Santa Cruz, que é transmitido ao vivo pela internet. Pra saber o endereço do site e mais informações, acesse: http://bloglog.globo.com/ticosantacruz/

MONOCORDIA
(Ana Maria Carvalho))

Bebemos todos, tanto bebemos
Que embriagados então ficamos
E vimos coisas que nunca vemos
E sem saber nos conhecemos
E conhecendo nos amamos.
Que grupo estranho aquela gente
De juventude tão aparente
E tão saudável no apresentar
Mas na verdade quanta ironia
Saber ao certo, ninguém sabia
O que soubemos naquele bar.
Ao confessar cada desgosto
O mesmo rosto em cada rosto
Se repetia
E soluçantes nos beijamos
E uns aos outros nos confessamos
Sem covardia.
Hoje passou a bebedeira
E a dor exata desta besteira
Chorou na fronha
E ao nos olharmos quanto receio
Aí quanto gesto parado ao meio
Quanta vergonha.
E desvendados e descobertos
Nós nos sentimos demais incertos
Para o viver
E filosóficos, sem reclamar
Voltamos todos ao mesmo bar
Para beber.
Bebemos tanto, tanto bebemos
Que embriagados então ficamos
E vimos coisas que nunca vemos
E sem saber nos conhecemos
E conhecendo nos amamos.