9.11.09

iminência (editado)

a possibilidade é mais que o fato
o por fazer maior que o ato
o que está nas mãos está nas mãos.
não é desejo de pegar
[a mão só avança pelo que fica no ar]
desejar e ter é muito bom - essa urgência...
mas melhor é morder o sanduíche pelos lados
e deixar por último o meio cheio de recheio!
ou comer primeiro a parte seca do biscoito recheado
ou guardar aquele último gole de coca-cola pra manhã do dia seguinte de ressaca - hummm...
a coisa deixa de ser a coisa em si e vira um objeto de desejo
como um beijo guardado
[estamos sempre na iminência de algo]

longa viagem para avestruzia


avestruzes, avestruzes
eu queria ver avestruzes cruzando o aterro esta noite!
avestruzes enormes cruzando o aterro do flamengo
para espanto dos seres terrenos
1, 2, 3, 4, 5... vários!
nas duas pistas
correndo
não me pergunte por que avestruzes
são seres estranhos
meio pássaros, meio humanos
como um gordo americano empunhando o seu bic mac no pódio
tendo a velocidade de um keniano
avestruzes enormes, gordos, comedores de bic mac e corredores de maratona
com suas pernas finas e compridas dando largas passadas de corrida
cruzando o aterro despreocupados, desprevenidos dos carros
para espanto dos motoristas embriagados
ia dar no noticiário:
“acidente no aterro é causado por avestruz na pista”
“de acordo com testemunhas, os avestruzes desembarcaram minutos antes no aeroporto santos dumont”
“ainda não se sabe por que vieram”
“os avestruzes permanecem detidos para averiguação”
“segundo o comandante do 13º batalhão, ainda não foi possível colher os depoimentos porque os avestruzes não falam a nossa língua”
precisa-se de tradutores de avestruz – anunciaria o jornal nos classificados
tradutor de avestruz se tornaria um emprego valorizado
não por ser um trabalho assim tão bacana, mas por estar em falta no mercado
logo surgiriam os cursos especializados:
- avestruzês para iniciante
- avestruzês – curso básico
- avestruzês advanced
e as publicações:
- avestruzês para viagem – guia de bolso
etc.
e até as universidades ofereceriam habilitação no curso de letras
marque a opção de habilitação no curso desejado:
( ) inglês
( ) francês
( ) alemão
( ) espanhol
( ) avestruzês
e por aí vai...
mas tudo isso não tem a menor importância
eu só queria ver avestruzes cruzando o aterro esta noite
sem nenhum sentido político, social ou educativo
pela sua total falta de sentido
pela sua total irrelevância
só porque eu acharia bonito
como uma poesia
cruzando o aterro para estar comigo
deserto sem fim
deserto sem fim
espelho de areias brancas
espelho sem água
sem margem pra debruçar
miragem, miragem
caminho pra algum lugar
deserto, lugar de passagem
lugar que não dá pra ficar
sempre igual, sempre igual
duna aqui, duna ali
vários contornos
a mesma paisagem
sempre o mesmo chão
sempre o mesmo sol
sempre a mesma noite fria
depois do calor do dia
sempre o mesmo céu
sempre o mesmo sou
em busca de oásis
deserto de areias brancas
deserto sem água
sem margem pra debruçar
espelho sem fim
espelho de mim

5.11.09

como é triste a resposta que se dá no silêncio das horas
dolorida em todas as demoras de não ser
de não sei...
o não que se impõe no talvez
sem nunca ter sido dito
ecoando no tempo esgarçado
no espaço vazio
o não na voz são três letras
palavra de curta duração
bala que atinge em cheio o coração
uma só dor, e a paz eterna
o não no silêncio é a sala de espera
é a sala de espera
é a sala de espera
espera
espera
hemorragia interna
eterna, silenciosa, consumida de dores de demoras
como é triste a resposta que se dá no silêncio das horas

4.11.09

PERFORMANCE

A convite da performer Tania Alice, professora da UNIRIO, vou participar da performance "24 horas de vida de uma mulher", das artisas francesas Emmanuelle Becquemin e Sthéphanie Sagot e do chef Roland Villard, segunda, dia 16, às 20h, numa noite interativa de arte e gastronomia promovida pelo Sofitel e pela Aliança Francesa. O evento faz parte da comemoração do Ano da França no Brasil. Segue abaixo o flyer.


31.10.09

numa noite qualquer...

I
quando colhemos a poeira das ruas
e os postes iluminam apenas poças d’água que refletem solidão e dor
e uma criança vende chicletes na madrugada
e um bêbado grunhindo gemidos desconexos
corta o silêncio, invade o poema
falar de flores e da luz da lua
não vale a pena


II
um hippie corta palha e me faz uma esperança
eu não quero, estou dura
um hippie corta palha e me faz uma flor
eu não quero, estou dura
me faz um peixe, um pássaro
várias formas de dobradura
quando ele já está convencido
me presenteia
de peixe, pássaro, flor
de esperança
e eu tiro do bolso um sorriso
quase doce
de criança


III
uma sirene de polícia
de ambulância ou de bombeiro?
uma rajada de tiros
ou de fogos de artifício?
uma confusão
ou um festejo?
um bêbado xingando
ou bradando versos de amor?
é de alegria ou dor
de medo ou esperança
a síntese dos sons da madrugada?

Difícil ser funcionário

João Cabral de Melo Neto

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

26.10.09


Vamos (Madame Kaos) nos apresentar no CEP 20mil, esta quinta, dia 29, no Espaço Cultural Sérgio Porto, a partir das 20h.



19.10.09


Esta terça, dia 27, tem o segundo show de lançamento do CD Amnésia Programada, do Arnaldo Brandão, na Cinemathèque, a partir das 21h. Vou falar um poema lá. A entrada é R$20, e R$15 na lista amiga.

16.10.09

Eu era o pacote completo, e eles fizeram um lindo laço de fita pra enfeitar a caixa (ou poemas de amigos)

Sabe o que eu acho incrível na amizade? É que os amigos conhecem a gente profundamente, e ainda assim, nos amam. Eles conhecem de cor os nossos maiores defeitos, e fazem questão de exaltar as qualidades. Não que nos passem a mão na cabeça, muito pelo contrário. Eles sabem o momento de dizer "não", e quando é importante deixar o "sim" rolar solto... Mas eles amam o pacote completo, cheio de imperfeições. Eles rasgam o papel do presente, não estão nem aí pra decoração, porque eles sabem que o presente está dentro da caixa, e que é cheio de defeitos de fabricação, mas mesmo assim, brincar é tão bom!... Eles não precisam do manual, ou ler as regras do jogo. O que eles não sabem, eles inventam! O que deixa a vida cheia de possibilidades a mais... A amizade é a maior invenção da humanidade! E eu fiz toda essa introdução só pra falar que recentemente dois grandes amigos me fizeram um grande carinho em forma de poesia. O Fernão virou meu amigo de infância logo que nos conhecemos, e olha que a infância dele foi bem antes da minha. O Lucio, meu marido, dizem até que já temos 3 filhos. Veio de Brasília essa semana visitar as crianças... Amigos, amigos, sempre amigos. Apesar da diferença de idade, apesar da distância. Apesar dos defeitos de fabricação e etc. Porque amizade não se faz de "apesares". Se faz de "com isso, com aquilo e tudo o mais". Eu amo esses rapazes, o pacote completo de cada um deles! Agora, chega de blá, blá, blá. Eis os poemas:

BIA
Para
Bia Provasi
Pelo olhar se apresenta
voz suave e tranqüila
divertida e atenta
sempre em paz
sempre faz
acontece
ama
ri
.


recita
a vida
poesia
que faz
a cada dia
um verso
a cada gesto
e o ritmo
no pulso


seu olhar de anjo
o jeito de ocupar o espaço
a dança que faz com o braço
a vida que dá ao poema
abrem portas no universo
para acompanharmos
sua vida a cada verso

Fernão
15/09/09

(AMIGOS: Eu, Fernão, Maysa, Marcela, Maíra, Juju e Célio)

Atemporal
para a grande amiga, Beatriz Provasi.

Essa amiga Bia
É pra lá de porreta
É livre no pensar
E diz o que vem na veneta

Artista de verso e de palco
Corajosa, e decerto valente,
Amiga do peito e, também,
Pessoa muito coerente

Esporadicamente amigo,
aqui logo reconheço
que, apesar da distância,
nunca faltou o apreço

Saudade que vai,
O tempo esvai;
Saudade que vem,
Amizade aqui tem.

Amiga que veio
que é e será
mais que adjetiva,
Sujeita atemporal

Lucio Mello

(AMIGOS: Lucio, Tamara, Natália, eu e Jacomo)

10.10.09

NU ARTÍSTICO

a nudez mais funda é a da alma
tento esconder as gordurinhas dos meus pensamentos
mas elas pulam pra fora, formam pneuzinhos
meus poemas são repletos de pneuzinhos
são o corpo imperfeito de um espírito inquieto
não uso maquiagem e vivo descabelada
meus versos têm um dentinho torto que aparelho nenhum dá jeito
cansei de sorrir com a mão na frente pra esconder o defeito
hoje sou só gargalhada!...
desfilo versos desengonçados pelas passarelas
me deixo fotografar com as expressões mais ridículas
o amor é ridículo – por que meus versos têm de ser bonitos?
eu defendo a feiúra da obra de arte
a estética da feiúra, da imperfeição,
do exagero, do excesso de informação
a estética dos engarrafamentos, da fumaça, das buzinas
do muro pichado, do lixo revirado
de tudo o que é caótico, urbano
de tudo o que é humano
a nudez mais funda é a alma exposta, ferida aberta,
coração dilacerado atirado no asfalto
que ainda pulsa, pulsa, pulsa...
antes de ser esmagado pela roda do carro
o motorista apressado nem vê
(está sempre atrasado pra viver)
eu desacelero, recolho, emolduro, exponho:
é o meu poema
que ainda pulsa, pulsa, pulsa...
eu estou nua dentro de um carrinho de compras no meio da rua
mas são poucos que têm olhos pra ver.

15.9.09

uma carta (ou história de ninar)

Oi Fer, onde está você? Estou morando num arco-íris, que fica pra lá do azul! É incrível como todas as cores se completam e todos os meus amigos me trespassam nos lilases. Tem dias que eu durmo no vermelho, outros no verde, e quando vejo, estou acordando no amarelo. Você precisa conhecer o meu pote de outro! Ele também é seu, como todos os meus tesouros. Os duendes o vigiam quando não estou. Quando estou, brincam comigo. Pulamos corda nas cores, cada um em uma, ao mesmo tempo. Também nadamos, cada qual na sua raia. E apostamos corrida até o pote de outro, que fica na linha de chegada. Eu sempre ganho, porque tenho passadas mais largas. Mas às vezes, fico pra trás de propósito, só pra ver a alegria de ganhar estampada em seus rostos. Como eles sempre moraram aqui, conhecem muitas histórias que cruzam os ares. Me contaram de um menino que eu gostei muito, porque me lembra a gente, as nossas viagens. O menino não conseguia dormir à noite, quando sua mãe dizia que era a hora. Então, pra passar o tempo, adivinha o que ele fez? Resolveu construir uma cápsula espacial! Todas as noites, antes de sua mãe o botar na cama, ia até a cozinha e pegava garfos, facas, conchas, escumadeiras, panelas, abridor de lata, uma hélice de liquidificador e etc. Ia pegando as poucos... Também uns pregos e parafusos, alicates, e outras ferramentas. E a cada noite, ia montando as peças, umas nas outras, até o dia raiar e o sono bater. Uma noite, ele percebeu que não precisava fazer mais nada, estava pronta a sua cápsula espacial. Então ele resolveu viajar pelo Universo. Cada noite um passeio diferente. Visitava estrelas, astros, planetas, os anéis de Saturno, cometas, conhecia extraterrestres de todas as esferas, e brincava com eles. Viajou tanto, tanto, tanto, que já conhecia cada ponto do Sistema Solar, já havia passado por toda a Via Láctea. Então resolveu partir para outras galáxias. E uma noite, decidiu dar uma volta espacial completa. Subiu, subiu, subiu, subiu, subiu... passou muito tempo viajando pelo espaço. E nada de se completar a tal da volta. Começou a pensar que talvez o Espaço Sideral não fosse redondo como a Terra. Resolveu voltar, mas, de repente, se viu perdido. Perdido no meio do espaço, no vago, sem nenhum ET ou uma estrela conhecida. Não tinha a quem pedir ajuda, uma informação, guarida. Pensou na sua mãe, na sua casa, no seu quarto, em seus brinquedos, em tudo o que havia ficado para trás. Sentiu uma angústia jamais sentida, um aperto no peito, um misto de saudade e desespero. E pôs-se a chorar. Chorou, chorou, chorou, chorou, chorou... chorou tanto, que a cápsula começou a inundar. Ele nem se deu conta que estava boiando na água, já que no espaço se bóia no ar. Chorou, chorou, chorou... e a cápsula cheia d’água começou a pesar, e com o peso das lágrimas, começou a descer... E desceu, desceu, desceu... e com a vista turva das lágrimas, o menino nem via passar as estrelas e os planetas e tudo o que conhecia, nem os ETs que lhe acenavam pelo caminho. Quando deu por si, estava a ponto de se afogar nas próprias lágrimas, que inundavam toda a cápsula. E quando abriu a porta, estava dentro de seu quarto. A água que escorreu varou pela casa e foi dar na sala, onde outro grande lago de lágrimas se encontrava. Eram as lágrimas de sua mãe, desesperada, que já havia ligado para a polícia, os bombeiros, todos os hospitais e lugares mais sombrios. O barulho do encontro das águas a despertou, e ela correu para o quarto do filho. Se abraçaram tanto, e tanto comemoraram, que a mãe nem deu pela presença de uma cápsula espacial formada por seus utensílios de cozinha no meio do quarto. Apenas disse ao filho, pode brincar onde quiser, meu menino, mas não saia mais sem um aviso. Achei que você tinha sido abduzido por ETs! Que bom que essas coisas não existem, suspirou aliviada. O menino reprimiu uma risada. Recebeu da mãe um beijo de boa noite. E naquela noite, dormiu como um bebê embalado no colo. Sonhou com uma menina que morava num arco-íris, e brincava com duendes de pular corda nas cores. E ele se divertiu tanto apostando corrida até o pote de ouro, que percebeu que o sono também pode ser uma viagem extraordinária! Não passou mais uma noite em claro. E você, meu Pequeno Príncipe, meu Menino Maluquinho, o que anda aprontando nas suas viagens?
Beijos,
Bia


ps. este texto integra o livro em processo "Oscar manda lembranças"...

5.9.09

iminência (primeira versão)

a possibilidade é mais que o fato
é o olfato, o tato,
o toque que arrepia
o gosto de quero mais
é o que fica no ar
que você quer apanhar...
o que está nas mãos está nas mãos.
não é desejo de pegar
desejo é impulso, é vontade,
sonho de ser realidade
o que move, motiva, o que pulsa
desejar e ter é muito bom - essa urgência...
mas melhor é morder o sanduíche pelos lados
e deixar por último o meio cheio de recheio!
ou comer primeiro a parte seca do biscoito recheado
ou guardar aquele último gole de coca-cola pra manhã do dia seguinte de ressaca - hummm...
a coisa deixa de ser a coisa em si e vira um objeto de desejo
como um beijo negado
[estamos sempre na iminência de algo]

24.8.09

meu esmalte vermelho descasca.
é tão feio unha descascada de esmalte vermelho!
é feio ver explícito o pedaço que falta
mas, afinal, isto é meu espelho:
um pedaço que falta gritando vermelho intenso no corpo inteiro.
e não adianta retocar aqui, ali, acolá
o jeito é tascar acetona e tirar tudo!
depois, repintar de outra cor
um tom mais claro pra dar leveza...
pra descascar sem dor
um descanso, uma pausa, um alento.
e depois, um recomeço
um novo vermelho intenso
que só descasque no tempo certo de repintar
dando a impressão de estar sempre a durar...
eu preciso dessa ilusão!
em não ver o pedaço que falta,
é como se ele não estivesse lá.
(a pior ausência é a que se faz presente no espaço vazio que a denuncia)

20.8.09

Sarau da UNIRIO

Dia 28/08, sexta, a partir das 18h, vai rolar o Sarau de Artes Cênicas da UNIRIO, que organizamos todo início de semestre pra receber os calouros. O sarau percorre várias salas do CLA (Centro de Letras e Artes), e termina na sala do DA, em cima da cantina.

29.7.09

amizade não se conquista
amigo não se ganha
amigo não se faz
amizade não cresce, não se constrói
e é por isso que amigo não se perde
amizade não se desfaz, não diminui, não se destrói
amizade é um encontro que acontece
amigo
– e isso é tanto e é só isso –
se reconhece

20.7.09

Hoje eu, Betina Kopp e Lucas Castelo Branco estaremos no lançamento do livro "ESTRIBILHO DO ENCARCERADO", de Anna Maria Dutra de Menezes de Carvalho, falando poemas da autora. Será a partir das 19 horas, na Livraria diVersos, durante o Corujão da Poesia-Universo da Leitura da Barra da Tijuca. (Av. Érico Veríssimo, 843 Lj A)
De lá vamos para o Sarau Eletrônico do Tico Santa Cruz, que é transmitido ao vivo pela internet. Pra saber o endereço do site e mais informações, acesse: http://bloglog.globo.com/ticosantacruz/

MONOCORDIA
(Ana Maria Carvalho))

Bebemos todos, tanto bebemos
Que embriagados então ficamos
E vimos coisas que nunca vemos
E sem saber nos conhecemos
E conhecendo nos amamos.
Que grupo estranho aquela gente
De juventude tão aparente
E tão saudável no apresentar
Mas na verdade quanta ironia
Saber ao certo, ninguém sabia
O que soubemos naquele bar.
Ao confessar cada desgosto
O mesmo rosto em cada rosto
Se repetia
E soluçantes nos beijamos
E uns aos outros nos confessamos
Sem covardia.
Hoje passou a bebedeira
E a dor exata desta besteira
Chorou na fronha
E ao nos olharmos quanto receio
Aí quanto gesto parado ao meio
Quanta vergonha.
E desvendados e descobertos
Nós nos sentimos demais incertos
Para o viver
E filosóficos, sem reclamar
Voltamos todos ao mesmo bar
Para beber.
Bebemos tanto, tanto bebemos
Que embriagados então ficamos
E vimos coisas que nunca vemos
E sem saber nos conhecemos
E conhecendo nos amamos.

14.7.09

eu me pergunto se eu deveria perder tempo elaborando respostas
você é tão inteligente
já deveria tê-las
talvez as tenha
mas não!
a verdade é que você não tem resposta nenhuma
até as dúvidas você suga dos outros
cite filósofos e poetas e grandes cineastas
cite o mundo inteiro!
mostre o quanto você é capaz de armazenar conhecimento
e não ter uma idéia própria
porque tem medo
eu sou bonita e veja você!
eu não sou burra – sabe por quê?
porque eu sei pensar por mim mesma.
e falo fernando pessoa, e clarice lispector e a puta que o pariu!
(se eu acho que eles dizem o que eu quero dizer)
mas eu sei dizer o que eu quero
com as palavras que EU quero
ao contrário de você.
você foi treinado para ser o inteligente
e não é capaz de compreender a beleza
de simplesmente
SER
eu nunca fui adestrada
sou fera solta
ferida às vezes
mas sempre capaz de ferir
não se meta comigo, rapaz, você vai se arrepender!
eu podia dizer o que eu disse e algo mais, e daí?
eu sou o que eu sou.
e você?
você é o que fizeram de ti.

9.7.09

UM POEMA RUIM (ou a minha melhor resposta)

eu podia te xingar de todos os nomes
porque você só dorme com a namorada e eu sou a vadia
porque você me conta das suas trepadas
e dá em cima da minha melhor amiga
eu podia destruir você em poucas palavras
falar que você trepa mal e beijar meu amigo gay
eu podia ignorar a sua existência, que é o melhor tapa na cara
eu podia trepar com todos os caras, menos você
ou te seduzir só pra dizer na hora h,
que nem geni a herculano:
- “você só toca em mim casando!”
mas não vou fazer nada,
nada, nada, nada
não vou dizer nada
só não vou dormir com você porque não sou sua namorada
e nem vou dar mais ouvidos às histórias das suas trepadas
vou sair com a minha melhor amiga pra falar de você e de outros caras
e dedicar a você um dos meus piores poemas
já que é da minha poesia que você tanto gosta
então eis um poema ruim
(ou a minha melhor resposta)

27.6.09

A poesia do movimento...






8.6.09

não queira me anestesiar
não fujo da dor
encaro.
se pra amar é preciso doer, que doa!
e doa mais, muito mais, sempre mais...
(sofreria é se não doesse de amor)
doer é uma forma de sentir-se vivo
ter um corpo com terminações nervosas
e um músculo se exercitando no meio do peito
é natural da vida
se você entra numa academia e exercita demais o músculo do braço
no dia seguinte, o braço vai doer
com o coração é assim
é um músculo como qualquer outro
mas é um tipo de dor - exercitar-se - um tipo de dor que dá prazer
você sente que tem um corpo e faz dele o que quer
você sente que tem um coração e que ele bate e que ele apanha
não queira apaziguar meu coração
ele é um lutador de boxe, um campeão!
não uma bailarina na ponta dos pés...
vale sangrar no canto da boca e inchar o olho pra levar o cinturão
de que me vale dinheiro?
eu quero o título, as homenagens...
quero todas as honras...
e o inchaço no rosto e o dente que voa pelos ares
eu quero também
eu quero todas as minhas cicatrizes das minhas lutas e das minhas conquistas
e de todas as vezes que eu fiquei na lona
eu as trago comigo, as ostento como um troféu
você acha que eu sofro, que estou triste?
tenho tudo o que quero, mesmo quando não tenho
porque faço do meu jeito, sem medo de correr riscos
eu entro no ringue com a mesma disposição pra luta
seja o adversário um frangote ou um troglodita
de que me vale a sua segurança?
andar de cinto, atravessar na faixa, jamais avançar o sinal,
cercar-se de grades, câmeras, alarmes – prisão!
eu atravesso fora da faixa no sinal aberto correndo ao ar livre
só para abraçar alguém que vive!
morrer, cedo ou tarde, todo mundo morre
e também se morre, e muito mais cedo,
e muito mais triste o seu enterro,
quando se morre de não viver.
(meu coração não pára nunca!)

4.6.09

Carta de um livro em processo (para Fernando)

Oscar subiu no telhado. Quer dizer, no terraço de um prédio bem alto. Os gatos são muito espertos. Eu mesma não saberia chegar lá se não tivesse seguido seus rastros. E lá estava você, entre os pára-raios e as antenas de TV. Eu, você e Oscar, juntos de novo. Naquela imensidão de topos de prédios que nos cercavam. Um mar de concreto em que a onda era o vento. E a gente mergulhava... Era o melhor mar para Oscar, que não gosta de água. Nos deitamos sob a luz da lua e não sei ao certo quanto tempo se passou. Foi como num transe. Quando despertei, estava nos seus braços. Você me ajudava a descer do telhado. Já estava no andar de baixo e dizia: “Pule, pode pular nos meus braços”. E eu deslizei no concreto como se estivesse em um escorrega... deslizei para os teus braços. Se você estivesse lá embaixo, na rua, e eu no último andar do prédio mais alto, e você me dissesse “pule”, eu pulava. Confio em você. Do teu lado posso andar de olhos fechados. É uma confiança tão certa, uma confiança tão rara. Amar e saber-se amado. Cuidar e ser cuidado. Por um simples querer. Sem obrigações, sem cobranças. Por um simples querer bem. Não posso livrar você de todo o perigo do mundo. E nem sempre você estará lá embaixo na rua para amparar a minha queda de um prédio bem alto. Mas se você disser pule, eu pulo; e quando eu digo pode vir, você já está do meu lado. Assim somos nós, com nossa confiança mútua, rara, perpétua. Nosso amor desmedido que nos serve de abrigo quando estamos perdidos. Depois de tanto tempo viajando pelo mundo, percebi que eu não tenho um lar. Voltar para casa é estar nos teus braços. Nunca existiu uma casa na árvore. Você é a minha casa da árvore. O meu refúgio. O meu cantinho seguro no mundo. Tudo isso eu já sabia, claro, já sentia. Mas naqueles segundos em que estive nos teus braços ao descer do terraço, isso se tornou tão certo e tão claro. Visível e palpável como as antenas de TV e os pára-raios. E me veio uma paz de estar em casa, um repouso para todo o meu cansaço. Foram apenas alguns segundos. Mas foi minha vida toda, ali, concentrada, acolhida no calor dos teus braços como coisa preciosa e mui querida. Por isso eu sei, com toda a certeza do mundo, que eu vou te amar por toda a minha vida... E você sempre pode vir ao encontro dos meus braços quando precisar de um lar. Sinto saudades quando você não vem. Mas afinal, você sempre está. É como se nunca tivesse saído e por isso não precisasse voltar. Mas você sempre volta... Eu sempre volto... Pra mim... Pra você... Pra casa.

1.6.09

1 ano de Corujão em Niterói

Esta segunda, dia 1º, tem comemoração de 1 ano do Corujão da Poesia de Niterói, a partir das 20h30 no Bar G3, em Icaraí. Segue a matéria que saiu no Globo:



27.5.09

Nesta quinta, dia 28

A partir das 17h, tem o evento Amostra Grátis, do projeto Geringonça, no SESC Tijuca, onde eu já me apresentei 2 vezes com o grupo Madame Kaos. Nesta edição, minha amiga Aline Vargas vai expor seu trabalho de artes plásticas com colagens. Algumas delas serão acompanhadas de poemas meus. Acho que vai ficar bonito! Eu só vou pra exposição, pq de lá eu parto direto para o CEP 20.000, que começa às 18h, no Espaço Cultural Sérgio Porto.
Este terá coordenação de Guilherme Zarvos, e de acordo com a Photophophoka de Tavinho Paes (link ao lado), a programação terá: "o poeta alagoano Lêdo Ivo, o rock da garotada dos Azuis; o talento cênico de estrela Alessandra Colasanti; O Coelho Rosa, Sol na Garganta do Futuro; lançamento do livro O Poeta Maldito da Lapa, de Kbé Saraiva (cuidado com os microfones!), e do 4º vídeo da CEPensamento TV; além dos experimentos sensoriais de Liza Machado e da gastronimia do Chef Z Guinle, que servirá no encerramento seu fabuloso ...risotto al funghi!"

18.5.09

Fim de jogo.

Esse teu jogo de pique-esconde já passou dos limites! Por que sou sempre eu a contar e você a se esconder? Sempre eu a te procurar, enquanto você ri baixinho atrás do armário ou embaixo do sofá... Ri dos meus vãos passos incertos que nunca seguem na sua direção... E em vez de ressurgir às minhas costas, e bater o pique, e ganhar de mim, e depois tirar onda com a minha cara, pra eu ficar louca de raiva e logo amolecer só por te ver... Você permanece escondido, em silêncio. Às vezes faz barulho numa direção, e quando eu corro, você já se escondeu do outro lado. E fica assim, me vendo ir de um lado a outro, desnorteada, enquanto por dentro morre de dar risada. Já disse que esse teu jogo não tem a menor graça, não quero mais, estou fora da brincadeira! Cansei de contar o tempo em que você se afasta de mim. Cansei de colar a cara na parede pra não te ver fugir. Teu esconderijo perde todo o sentido se não há ninguém a te procurar. Esconda-se, esconda-se de si mesmo! E vamos ver o quanto você se diverte com isso, produzindo as pistas que você mesmo apaga, para não se encontrar! E não me peça socorro, não me peça ajuda quando você não puder mais encontrar a si mesmo! Meu ouvido já estará surdo aos ruídos que você provoca pra me despistar. Aí você vai contar até dez e sair pra me procurar. Vai vagar pelas ruas, pelos bares, pelas praças... Meu celular estará tão silencioso quanto a minha risada, porque eu não estarei feliz em não te encontrar, apenas resignada. E se por acaso a gente se esbarrar cara-a-cara (porque eu não vou me esconder, apenas não mais procurar), você vai querer me provar que é você, mas eu não vou te reconhecer. De tanto brincar de esconder, você não vai se achar, e eu não vou saber mais que você é você. Talvez fique perdido pra sempre aquele menino que eu procurava... Perdido entre as minhas lembranças confusas de pistas erradas... Eu não vou reconhecer mais o som da sua risada, ela já não será mais a mesma. Será que você ainda vai se lembrar de como era rir comigo? Ah, mas até o som da sua risada você terá escondido! Você vai querer rir pra mim, e vai sair um grito! Você não saberá mais a diferença entre um riso e um gemido. Tudo em você de você mesmo terá sido escondido. Tudo vai soar falso e eu não vou acreditar que você era aquele menino. Vou ter pena de você por te achar louco, e me desvencilhar cordialmente, acenar com um sorriso, e sumir ao dobrar uma esquina. Não vou mais te procurar. Talvez nunca mais te achar. Terei saudades de você. Você entende como pode ser terrível uma brincadeira inconseqüente?! Se quiser, conte agora até dez, e quando você se virar, eu estarei na sua frente. Fim de jogo.

10.5.09

primeira poesia

p/ minha mãe

matéria-prima do poeta
palavra
a gente lavra, lavra
esculpe a palavra
pinta de várias cores
faz soar em vários tons
brinca na ginga
dança na música das palavras
meu primeiro poema
foi a primeira palavra falada
para o público mais comovido
mãe
é palavra, é gente
abrigo, alimento, é vida
é toda palavra já dita
toda a palavra não-dita
toda bendita palavra gerada no ventre do universo
todo verso
e toda prosa
mãe é toda, e todas são,
rima mais rara, mais cara, mais rica
e nem precisa ser escrita
mãe é
poesia

28.4.09

VERSOS DA MEIA-NOITE COM MADAME KAOS!

Meu amigo poeta lindo que eu amo tanto Gean Queiroz está de volta ao Rio, e com ele retorna o Versos da Meia-Noite, o evento poético mais rock'n roll dessa cidade (junto com o CEP), realizado numa boate de subsolo, no melhor estilo underground! Meu grupo, Madame Kaos, é uma das atrações, e também retorna de um período de "férias" (desde de dezembro de 2008 não fazemos uma apresentação). Então é um retorno em dose dupla, imperdível! (pra acompanhar uma dose dupla de qualquer bebida forte cai bem...) Vai ser no dia 7/05 (quinta), às 23h, na Fosfobox.

(clique no flyer para ampliar)

20.4.09

UM SINISTRO (COMO NOS TERMOS DO SEGURO)

As coisas são sempre por um triz
Por um triz a batida não foi na porta do motorista, no caso, eu
Por um triz eu não perco a vida ou me estrepo toda
E teria sido por um triz que eu não teria avançado aquele sinal, ou que teria avançado o anterior, porque eu parei no primeiro, mas o medo não me deixou para duas vezes seguidas no mesmo lugar em que eu tinha sido assaltada há pouco tempo
Eles nos levam tudo instaurando esse clima de medo, levaram o meu celular, ferraram meu carro e podiam ter me levado a vida, por um triz
Se o motorista do outro carro tivesse freado, a batida teria sido na porta do meu lado
Ele passou pouco antes, e batemos frente com lateral dianteira
Por um triz eu não bato na porta do carona onde estava a mulher dele, por um triz a mulher dele saiu inteira, sem nenhum arranhão
O carro ficou todo ferrado, mas por um triz estávamos os três inteiros
Eu tremendo e chorando e não achando o maldito cartão do seguro na bolsa, e não conseguindo montar o triângulo, dependendo da ajuda de estranhos
Eu tremendo e chorando sozinha de madrugada olhando o estrago no meu carro e no carro dele, enquanto ele calmo chamava a polícia pra fazer ocorrência
Não sei se a calma dele me acalmava ou me deixava mais nervosa, eu só pedia desculpas, tremia e chorava e me sentia engolida por toda a solidão e desamparo do mundo
Foi só um segundo, eu não vi, só senti a batida, e por um triz... Por um triz não acontecia, ou seria pior, por um triz...
Depois de acionar a polícia, o seguro, o reboque, duas horas depois eu estava em casa, tão cansada...
Mas agora a imagem da batida, mais que a imagem, a sensação, porque eu não vi nada, aquela sensação não me deixa dormir
A sensação de um segundo, o barulho, a porrada, o cheiro de borracha queimada, e eu sem saber se desligava o carro, puxava o freio de mão ou ligava o pisca alerta, ou tirava o freio de mão e saía logo do carro antes que um outro viesse na minha direção... eu saindo do carro tremendo ainda sem saber direito o que estava acontecendo... meu deus, o que eu faço, eu nunca bati com o carro? O casal sai do outro carro. Vocês estão bem? Estão. E eu sento no meio-fio e começo a chorar porque eu não acho na bolsa o cartão, o celular, e nem sei pra quem eu devo primeiro ligar... Eu não acho o documento do carro, a carteira de habilitação, e nem sei o que devo falar. Pro casal eu só peço desculpas. Desculpa, desculpa, desculpa... Eu tive medo de parar.
E agora eu não consigo dormir, porque eu queria esquecer, mas eu preciso lembrar. Eu que freqüentemente dirijo sob efeito de álcool, eu não tinha ingerido uma gota de nada. Eu preciso lembrar pra descobrir o que foi que eu fiz de errado. Avançar o sinal? O motorista do reboque veio avançando até Niterói. Todo mundo avança sinal de madrugada. Porque uma menina sozinha no carro não avançaria?! Como foi que eu não vi o outro carro que vinha? A rua parecia tão deserta... Será que a culpa foi minha, ou não estaria ele muito acelerado? Como eu não vi? Eu avanço os sinais vermelhos de madrugada, mas também sempre reduzo nos verdes, porque eu sei que todo mundo avança, então reduzo por segurança. Ele não reduziu, não me viu. Tudo bem, tava verde pra ele, mas por que ele não reduziu? Até bêbada eu faço isso, meu deus! Principalmente bêbada, fico mais cautelosa, por me saber a priori errada. Mas desta vez eu não tinha bebido nada, só água. Só tinha medo de ficar parada, e um pouco de pressa de chegar em casa. Nem cansada eu estava...
Agora tá lá o meu carro todo ferrado, eu ainda sem saber o valor do estrago, mas já sabendo que o seguro não cobre tudo e que eu não tenho um tostão pra bancar o conserto.
Agora ta lá o meu carro ferrado, e eu aqui com a sensação da batida a me despertar toda hora que eu me entrego pro sono. Como se o sono fosse aquele segundo de distração, onde tudo aconteceu por um triz.
Por um triz, eu bati. Por um triz, não consigo dormir.
Aí eu desci pra comprar uma cerveja e vi lá embaixo meu carro amassado e pensei: que merda! Aí eu desisti de dormir. Agora só tomo a minha cerveja e fumo o meu cigarro... Não há nada o que fazer. Só lembrar ao máximo, pra depois conseguir esquecer
.

6.4.09

"se alguém perguntar por mim
diz que eu fui por aí
levando um violão embaixo do braço
em qualquer esquina
eu paro
em qualquer botequim
eu entro
e se houver motivo
é mais um samba que eu faço
se quiserem saber se eu volto
diga que sim
mas só depois que a saudade se afastar de mim"

7.3.09

A DOR QUE DÓI MAIS, de Martha Medeiros

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Oscar manda lembranças

A série "cartas" foi toda apagada do blogue, porque está em fase de revisão para inscrição no Edital da Petrobrás. Quando o livro for publicado, seu conteúdo na íntegra será disponibilizado na internet. Aguardem... E torçam por mim!

6.3.09

Eu Não Existo Sem Você (Vinícius de Moraes)

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos me encaminham pra você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você

2.3.09

como burocratizar um poema?

preencha os campos obrigatórios
descreva os objetivos
aponte os resultados concretos a serem obtidos
informe o quê pretende realizar de maneira clara e sucinta
descreva as atividades previstas
informe o público alvo
faça planos de distribuição e divulgação
orçamentos
cronogramas
não deixe nada em branco
preencha cada campo
de maneira clara e direta
com a quantia de caracteres certa
enquadre, burocratize bem o poema!
depois vá dormir se perguntando: 40 mil vale a pena?
ah, se com um poema eu conquistasse 40 mil almas...!
isso, sim, valeria!
por que não nos pagam pra fazer poesia?
essa coisa sem objetivo, sem resultado concreto, sem público alvo, sem alvará...
essa coisa que não se diz o quê de maneira clara e sucinta
essa coisa, deus meu, que não se enquadra!
que espera apenas que alguém a sinta...
e depois se perde de vista.
que escorrega, desliza, rodopia e vaza...
essa coisa poema não dá,
eu aperto aqui ali acolá,
e não cabe.
eu quero enquadrar, algemar, prender.
eu quero dinheiro – e quem não quer?
mas ela dá um jeito de fugir.
essa coisa poesia me escapa
numa palavra que ela esbarra, empaca:
burocracia.
e lá se foi a poesia...

25.2.09

é carnaval, e eu não consigo sair, e eu não consigo dormir, e eu vejo os simpsons na fox, e eu não consigo nem rir das piadas... é carnaval e eu não vejo o seu rosto no meio das máscaras na multidão e eu só me pergunto onde está você. se você veste a mesma máscara de euforia que eu vi outro dia. é sempre a mesma máscara com cheiro de álcool e falsa felicidade. é sempre a mesma fantasia, que eu gosto de despir quando te olho nos olhos e vejo o que ninguém vê. mesmo aqui, em casa, sozinha, e até de olhos fechados, eu vejo você. não queria te perder de vista, mas eu deixo você se afastar dos meus olhos sem apresentar resistência nenhuma, porque sei que as fantasias também são teu refúgio, e eu te deixo fugir... e eu até acho graça quando vejo alguém perseguir essa imagem, a que você tem e a que você cria, tanto faz. acho graça porque a imagem é o que se esvai. é uma perseguição inútil, e você sabe, e você deixa. e eu acho mesmo que no fundo você acha graça também. e se diverte com isso enquanto não cansa. às vezes você parece criança. querendo testar os limites. pedindo, implorando, um não. apenas mais uma criança querendo chamar atenção. mas eu, quando olho você, o que vejo é uma criança chorando, sozinha, perdida no meio da multidão. uma criança sem os pais ao lado pra quem dar a mão. sem o endereço de casa. e que de tanto soluçar nem consegue dar alguma informação pra que alguém possa te ajudar. o pior é que você sabe que tem a minha mão, e você solta... então não sou eu que vou catar a sua pra te trazer de volta. no fundo eu também sou uma criança sozinha perdida no meio da multidão. só que eu tenho o endereço de casa, onde eu sempre tenho mãos pra segurar, e pra me sentir segura. é carnaval e eu estou em casa e isso me faz bem. não queria te encontrar pelas ruas... te perder de mim...

30.1.09

W.O.

para Aninha

é medo de perder?
ou é medo de ganhar?
quando o jogo está zerado
quando não rolam os dados
quando não se assume os riscos
de iniciar a partida
ela já está perdida
se o que há é nada, já é o não
arrisque a possibilidade de um sim
o sim é o máximo que pode acontecer
não tenha medo de ganhar
que não lutar já é perder

25.12.08

Meu amigo lindo e gostoso e excelente músico Makely Ka tá vindo de BH se apresentar no Rio e eu vou e recomendo, dia 29 no Centro Cultural Carioca, e dia 30 na Cinemathèque, às 21h. Partiu?!

23.12.08


O Projeto MaPa fecha o ano com muita música e poesia. A próxima edição será no dia 26 de dezembro, logo depois da passagem de Papai Noel, a partir das 21h, no Cinematheque, em Botafogo. Nesta próxima edição, o projeto conta com as interferências das poetas do Madame Kaos, do humorista e diretor Fernando Ceylão e da banda Vulgue Tostoi, que apresenta músicas de seu segundo CD. A edição comemora ainda o primeiro ano do MaPa!
No blog do projeto (www.projetomapa.blogspot.com), fotos e o depoimento de quem pisou no palco do Cinematheque na temporada 2008.
Feliz Natal e um ótimo 2009!
MaPa!

16.12.08

As horas longe de você se arrastam como lagartas verdes e peludas deslizando vagarosamente pelo tronco áspero de uma árvore solitária plantada no topo de uma montanha, onde o vento uiva sussurrando seu nome no meu ouvido. Não me alegro quando os pássaros vêm cantar na minha janela. Nem me entristeço ouvindo um negro cantando blues. Não tenho vontade de me embriagar e cantar desafinada e exageradamente um Cazuza no bar. Não tenho sono de dormir em cama que não seja a tua. Não tenho fome que não seja do teu nome. Não tenho sede que não seja do teu cheiro. Sinto falta do teu travesseiro entre as minhas pernas. Dos teus cabelos entre os meus dedos. Dos nossos segredos contados no olhar. Gosto de acordar no meio da noite e velar teu sono. Ouvir tua respiração com o interesse de uma criança pra quem a mãe vem contar histórias ou uma canção de ninar. E depois tornar a dormir, pra logo acordar. Mas as horas passam e eu não tenho sono e eu me pergunto se você dorme por aí. Se você se embriaga e canta Cazuza no bar. Se você se alegra ou se entristece com um pássaro ou um blues. Ou se a lagarta verde também te ronda, peluda, áspera e vagarosa. Se ela te assombra com o passar das horas. Se ela te visitasse eu teria certeza que eu poderia te amar. Que eu poderia deslizar vagarosamente pelo teu corpo, chegar ao topo, soprar o vento, sussurrar gemidos, uivar teu nome no teu ouvido. Você pode até deixar a lagarta na cama dormindo enquanto sai pra tomar uma vodka entre sorrisos de desesperada euforia. E se embriagar, e cantar um blues, imitar um pássaro, e voar... Mas se quando você voltar, a lagarta ainda estiver lá, bota ela pra fora, e me põe na tua cama, que é o meu lugar.

9.12.08

NOSSA MELHOR INFÂNCIA

para Fernando Blauth Klipel


Em maternidades distantes num longínquo 81,
nascemos irmãos numa só alma.
Destinos traçados nas palmas de mãos vazias,
que aprendemos a ocupar de copos e cigarros por não ter o que segurar.
Mãos das quais tudo insiste em escapar...
Mãos em que as linhas das vidas divididas se assemelham a cicatrizes antigas,
já rasas e quase apagadas, mas ainda lá, marcadas.
Temos esse sinal de nascença.
Essa mania de entrar no mundo sem pedir licença
e nunca sentir-se em casa em nenhum lugar.
Encontrar sua mão na minha é como regressar ao lar que nunca me foi abrigo,
e as memórias da infância que não tivemos são minha única realidade possível.
Nossa casa na árvore, para onde fugíamos quando tínhamos medo de algum perigo.
Passávamos dias e dias escondidos debaixo da cama pra jogar Resta Um,
e quando restava uma peça no tabuleiro, saíamos pra comemorar.
Corríamos por horas a fio só pra sentir o vento no rosto.
E nos dias de temporal, a gente corria pra fora de casa e se deixava inundar.
Nos dias de sol, era pedrinha no riacho e picolé na carrocinha do seu Chico.
Um dia a gente mascou tanto bubaloo, mas tanto, que ficou com dor nas mandíbulas,
e a gente queria rir e doía, e a gente ria, e ria, e ria...
A gente comia banda e bala juquinha, e uma vez você se engasgou numa bala soft que foi um deus nos acuda!
Foi a primeira vez que tive medo.
Eu queria dissolver a bala na tua garganta.
Dissolver do mundo tudo o que podia te engasgar, te fazer sofrer,
tudo o que podia me afastar de você.
Quando eu fraturei o braço você foi o primeiro a assinar o meu gesso.
Eu guardei o gesso na minha caixa de cartas.
Você lembra quando a gente dizia que ia viajar?
Eu ia pro meu quarto e você pro seu, de portas fechadas, e a gente se escrevia cartas, mandava por debaixo da porta.
Às vezes as viagens duravam muito e aí batia uma saudade danada e a gente marcava de se encontrar em um ponto do universo, que era a cozinha, porque a gente adorava experimentar novas gastronomias.
Tinha um país que fazia pão com manteiga e açúcar, e era o que a gente mais gostava!
A gente nunca comeu gafanhoto, mas a gente caçava formigas, assim, com o dedão, esmagava uma a uma no chão.
E eu adorava quando você me salvava das terríveis baratas!
Você sempre foi o meu herói, o mais forte, o mais bonito, o príncipe de todo conto de fadas.
E eu gostava de ser salva, e às vezes fingia medos só pra te ver enfrentar meus perigos.
Sem querer nós matamos os peixes do aquário e o pintinho da feira de filhotes.
Enterramos no jardim com uma cerimônia muito solene, choramos como duas carpideiras incontidas, e depois esquecemos os mortos pra jogar Atari.
A gente sempre quebrava o joystick fazendo força na curva do enduro, em que entrávamos com o corpo inteiro!
Eu gostava de comer jujubas com você vendo o dia amanhecer depois de tomar coca-cola escondido a noite inteira!
E andar de bicicleta, e soltar pipa, e jogar bola, e pular pogobol e pular corda!...
No nosso mundo não havia incesto e o meu primeiro beijo foi seu,
e eu fui sua namorada e você o meu,
e o nosso casamento era cada dia em um lugar.
O primeiro escolhido foi a Lua, e eu queria entrar de vermelho que é pro povo da Terra poder me avistar.
Mas o ônibus espacial demorava a chegar...
Aí a gente resolveu casar no jardim, que já era cemitério, então podia ser igreja.
A festa seria na casa da árvore, que é onde a gente ia morar.
Mas não ia caber todo mundo lá!
Que tal então se a gente casasse no Maracanã?! Descesse de helicóptero como o Papai Noel no Natal da Xuxa?! A gente antecipava os fogos do Ano Novo, e ia ser o grande acontecimento do ano! Ia passar na Retrospectiva 94 e ninguém nem ia lembrar da morte do Senna.
Droga, não queria lembrar do Senna, mortes me deprimem!
Prefiro planejar o nosso filho, a cor dos meus olhos com o seu brilho, um nome de anjo, com cara de diabinho, que vai herdar nossa casa na árvore, nosso Atari e todos os outros brinquedos!
Nosso primeiro filho veio no Jogo da Vida, nossa primeira casa e mais toda a rede de hotéis a gente comprou no Banco Imobiliário, mas bom mesmo era ganhar o mundo inteiro no War, que entrava madrugada adentro e a gente nunca se cansava...
A nossa vida inteira a gente foi ganhando como um jogo, montando as peças como um quebra-cabeças que faz surgir uma tela que a gente pintou, nosso jogo da memória inventada.
São as melhores lembranças que eu tenho da nossa infância.
Não você, meu pequeno anjo amoral perdido num céu de estrelas fluorescentes coladas no teto de um quarto vazio.
Não eu, sua pequena infernal, trancada no banheiro pra chorar escondida a solidão inevitável de uma estrela caída.
Nós dois, crianças de um mundo onde não há infância,
escondidos na dor do riso com o mesmo olhar de espanto.
E de repente, depois de tanto pranto, de tanta coisa, de tanta gente,
de toda essa infância perdida,
nossos olhares se cruzam numa esquina da vida.
E mergulhar nos seus olhos é como recordar tudo isso!
Lembrar tudo o que foi (que é tudo o que podia ter sido).
Voltar ao lar que nunca me foi abrigo e finalmente me sentir em casa,
que toda a dor da nossa vida foi uma bala soft agarrada na garganta e um braço quebrado, com um cafuné pelo susto e um gesso assinado de lembrança.
Talvez seja tarde para um pedido, talvez você já tenha desistido,
mas eu não mudei nossos planos.
(eu até guardei meu vestido vermelho)
Vamos pegar carona no próximo foguete
e você casa na Lua comigo?
(quero a cor dos meus olhos com o seu brilho,
quero amar nosso filho)

AMOR PORCO-ESPINHO

para Fernando Blauth Klipel

não sei amar
nunca aprendi a amar
não sei...
acho que descobri o amor ainda pequeno
amei um porco-espinho
precisava cuidado pra amar
o amor demais, apertado,
te entra no corpo como uma farpa, uma flecha
um espinho que não se desencrava
daí percebi que amar doía
desaprendi a acariciar
sempre acho que a mão que desprende carinho
pode afundar-se em espinhos
tenho medo de amar.
Do útero não lembro nada.
Tenho uma fantasia
Um ponto luminoso que quica de parede em parede
e de repente
te cai no mar.
Da minha casa tenho as referências
Do bonito do inteligente
Do como devo ser e não sou.
Escolho ser educado, um gentleman!
Agradável, doce no falar
E carente no olhar.
Tenho um desejo escondido.
Voar nas costas de uma borboleta.
Sentir o vento no rosto
E nunca ter um objetivo certo,
Um porto-destino.
Queria mesmo era recolher a âncora,
rasgar o peito
Ver todo meu pranto vermelho derramado,
e nele sim,
levantar as velas.
E me ser eu, eu pra ti
sem pensar, sem ponderar
gestos nem navalhas.
Mostrar meu corte ainda aberto
E não deixar secar minha lágrima.
Queria ser carregado pela mão,
não pr’um campo verde.
Mas, pro meio de um turbilhão
E lá no centro te pegar pela mão
e rodopiar.
Brincar de ser eu o teu dono.
De ser eu a borboleta.

Eu disse não ser mas talvez seja
talvez eu não me perceba
que no sonho a voar nas asas de uma borboleta
seja eu o pássaro a voar mais alto
o que não se sabe
que caiu do ninho
ainda pequenino, e agora sempre sozinho
asas quebradas, ferida aberta
sem saber que ainda é canto
o que meu chorar
que é sempre canto
o meu lamento
que eu canto e vôo, passarinho
mas penso que passo, no meu canto, sozinho,
sem que ninguém me perceba passar

Fernando Klipel e Beatriz Provasi

6.12.08

Dar arte de dar nós; Da arte de nos dar

(poema coletivo escrito em mesa de bar)

O desejo latente, latejante
de amar em um momento constante
Amar em todos os momentos,
como se ama no sacrifício, na luta.
Até o momento em que amar
não seja mais sacrifício.
Até o momento que sentir
seja uma simples golada de prazer
à presença do amor.
Assim sinto bater como um coração
nossos pés no chão
e cada corpo que se atrai
que se entrelaça
na nossa pequena íntima multidão.
Me sinto distante...
ora perto, ora longe
do prazer que me satisfaz
Da força que não sabemos de onde vem
mas que nos pega e nos arrasta
Nos leva pra longe, distante
imenso, cativante
De onde nada tem
de onde tudo nasceu
Descubro você. A sorte de amar.
Assim mato a saudade, sedenta de você, numa mesa de bar.
E entre as garrafas de nossos antigos carnavais
descubro teus olhos, que me fitam nessa vida afora
Dentro fora, Dentro fora, Dentro fora, Deeeeeentro...
Tempo afora como agora
E o amanhã que nunca acaba.
E acaba, propõe o recomeço, a ré – a marcha ré, do inconsciente passo que me pedes pra dar. E sem falar, e sem ouvir, eu sigo, errante entre um gole e um abraço. Te tenho em meus braços, vos tenho em meus braços.
Braços já cansados de não segurar, tiram forças do desejo de seguir em frente com vocês, da exaustão. Não suporto, desta vez, ter que soltar, desta vez seguir errante.
Não temo cara feia, mas peço, esta cara tem que me abraçar, amanhã ou depois.
Respirar com todos, este é meu
Devir.
Meu dever de tornar possível cada momento ao seu lado. Como se fosse único, como se fosse inexplicável, como se fôssemos um só, e que nada mais existisse, apenas nós, como o ser mais perfeito do mundo.
Nós todos apertados
Nós. Todos sem querer apartar.
Sempre nós, laços
das fitas mais coloridas
que enchem nossos olhos
que inflam nossos peitos
que são a nossa voz
cantando juntos
uma só voz
de uma só vez, toda vez,
várias vezes
sempre
AMO VOCÊS
NÓS
(nunca mais sós)
E agora, passo.
Posso repetir em voz alta,
sussurrada pra ninguém que não sejamos.
Sempre Nós!


Turma do 2º semestre de 2008 – Artes Cênicas/UNIRIO, vulgo “O Fruto Proibido”
Escrito por Aline Vargas, Beatriz Provasi, Bel Flaksman, Daniel Galvão, Diogo Diniz, Fernando Klipel, Gunnar Borges, Gustavo Almeida, Marília Nunes, Nilson Nunes, Rany Carneiro, Renato De Sena, Rodrigo Abreu, Tatiane Santoro, Vanessa Reis e Wesley May. Participação especial de Rafael Medeiros e Vitória Hadba, amigos d’A Boemia.

23.11.08

A incrível saga de São Luiz Gonzaga

Numa noite qualquer, depois de assistir “Que as saídas sejam múltiplas”, espetáculo de dança do nosso amigo Fernando, fomos eu, ele, Bel e Taianã rumo à casa de Daniel, onde também nos aguardavam Gunnar e Marília, nossos parceiros de boemia. Sem nada conhecer de São Cristóvão, procurávamos desesperadamente a Rua São Luiz Gonzaga. Após darmos várias voltas em torno da Quinta da Boa Vista, paramos, enfim, num bar na esquina da Barão de Mesquita com a São Francisco Xavier pra tomar uma cerveja e relaxar do estresse de estarmos perdidos. Aí saiu esse poema coletivo:

A incrível saga de São Luiz Gonzaga


para Marília Nunes, Gunnar Borges e Daniel Galvão

A inviável noite se anuncia
Sutilmente mentirosa com medo da triste apatia entediada
E Luiz Gonzaga
que não era santo nem nada
se escondia atrás do parque
Ai que Boa Vista esta
que não paro de perceber
sempre em círculos.
E quanto mais quadrados e retas procuro,
sempre me indicam:
Contorna! A vista é bela.
Sim, as saídas foram múltiplas.
Mas Luiz Gonzaga não compreendia
em sua busca existencial
qual era afinal,
afinal, qual era, meu deus?!
A ENTRADA!
Escondido atrás do parque, agachado, mãos na testa, como estava, meditava...
Meditava, outros dizem:
- Mendigava o Gonzaga... sempre em busca de migalhas do pão.
Na eterna fuga de sua imensa tristeza. Um sorriso, um consolo, uma desculpa. Um olhar.
Mas não, a Baronesa só tinha lágrimas, do outro lado o cão só ladra.
E Francisco Xavier, esse sim santo
enviou num cavalo branco
um fidalgo salvador
que trazia na cabeça a espada da concórdia
e nas mãos uma taça cheia de presentes dourados .
Assistência móvel para panes elétricas 24 horas.
Este era o cartão que Luiz, o Gonzaga, carregava no pescoço para o caso de um enfarto ou enfisema pulmonar.
Nunca se sabe quando as encruzilhadas viram rotatórias, os mendigos ricos, ou os escarros vêm do gozo.
Aí veio o Barão, um velho nobre podre de pobre que escarrava no chão e vivia a dizer indecências.
Chegou sem pedir licença, puxou uma cadeira e sentou perguntando (sem nem dizer bom dia): Rio?!
E riu...
Mas o sorriso é singelo, carismático, alegre. O Barão tem sua mesquita com um símbolo da suástica, uma virgem de burca transparente, um olhar translúcido em um dos olhos. Só num.
No outro... ninguém sabe como definir.
O outro é tão, tão...
Lacrimoso, eu diria. Mas era uma lágrima que nunca caía. Estava sempre lá, parada, na iminência de despencar. Mas não podia.
Ela sabia que caindo solitária levaria o corpo todo do Barão a desabar, e com ele o céu, o mar, toda a vida, tudo que no mundo há. Uma tristeza quase doce era o anúncio desse olho.
Então ele andava, andava, andava, por aí, a procurar rir pra não chorar.
Passo. Eu não vou conseguir.
É só emoção.
Eu não tenho o dom da palavra.
Não quero mais procurar. Não quero mais chorar...
Não quero sequer rir!
Quero sim é encontrar a concórdia, de mim... Desculpem, do Barão.
Do meu – entendam sempre dele, por favor. Do meu sim e do meu não. Do meu Santo ou nada. Do meu bi, tri, quadri... Multi qualquer coisa que seja farsa ou não.
Em um ano da minha vida, tenho tudo daquele ano, e nem consigo entender.
Como jogo fora, pra ninguém ver.
Nunca queimei, joguei fora mesmo.
Pra ninguém que eu perceba alguém ler.
Mas que besteira a minha!
Que ingenuidade besta meu deus?!
Se já me lêem nos olhos a alma, se já me lêem no corpo inteiro, nos dedos rasgando das toalhas das mesas de bar o molhado do suor dos copos...
Não, não, não são todos que sabem ler.
Há os analfabetos fundamentais, que nunca vêem uma letra de emoção. Um “a” de abelhinha zunindo no ouvido de uma criança que descobre o mundo.
Paro por aqui, porque quanto mais profundo se chega no Japão,
mas no Luiz Gonzaga a gente não chega não!

Beatriz Provasi, Bel Flaksman, Fernando Klipel e Taianã Mello (que após algumas garrafas seguiram um táxi e conseguiram enfim chegar na Rua São Luiz Gonzaga!!!)

21.11.08

O MENINO E A CORUJA FALANTE

para João Luiz de Souza

uma fala amaciada
desliza pela madrugada...
e eu vejo um menino brincando
um sorriso de criança encantada
sabe aquela criança que inventa a brincadeira
personagens, histórias, mundos incríveis,
paisagens, perigos, heróis, grandes conquistas
coisas que os outros dizem: não é verdade, isso não existe.
mas ela insiste na fantasia
pois no fundo ela sabe
(e se fortalece nesse saber profundo)
que tudo existe quando a gente cria!
eu acredito na sua história,
entro no jogo, participo da brincadeira,
e comigo vejo outros,
e vejo uma cidade inteira!
e eu vejo o olhar deslumbrado da criança
quando percebe que os outros acreditam no que ela já sabia
mas lhe diziam os incrédulos: isso é pura fantasia!
qual o quê!
criança sempre vê além
por isso vê o que ninguém vê
esse menino viu além
e foi além do que podia imaginar
outros vieram lhe somar histórias
e era tanta imaginação, tanta imagem, tanta ação,
tantos mundos se somando, tanta criação, tão divertido!
que o menino nunca mais se viu perdido
e mesmo na madrugada mais sozinha, mais fria, mais vazia,
ele conversa com uma coruja de estimação
um coruja que fala!
não como um papagaio besta que vive repetindo frase feita
ele tem uma coruja que no pé do seu ouvido
pousa palavras com asas
uma coruja que fala poesia!...
o menino nunca pára de brincar
a brincadeira, tão somada, tão sadia,
que pela cidade inteira se irradia,
nunca, nunca, nunca vai terminar!
mas tem hora que o menino precisa
- porque toda a mãe dizia e nela a gente sempre acredita -
deixar o jogo só um pouquinho,
escovar os dentes, fazer xixi, e ir pra cama dormir.
e nessas horas a coruja se empoleira na sua cabeceira,
e faz dos versos uma linda canção de ninar.
no dia seguinte o menino acorda homem feito
com tantos feitos no caminho
mas ainda vejo no seu olhar, no seu sorriso, de mansinho,
o despertar daquele menino,
que inventou as brincadeiras
com as quais continua a brincar.
ele acredita, e se encanta, e se deslumbra,
e ainda conversa poesia com a coruja,
que leva no ombro pra todo lugar!
mas sabe, não é todo mundo que vê
a coruja no seu ombro e o menino em seu olhar
são só as crianças e os poetas
- o que dá na mesma.
só mesmo que sabe brincar!

14.11.08

FLIPORTO 2008

Ainda não tive tempo nem de desfazer a mala direito... Queria muito escrever e escrever e escrever sobre o que foi a FLIPORTO, mas agora não dá. Seguem então umas fotos e um poema coletivo, pra quem quiser degustar...






Galos, galinhas, pavões
pintos, preás, patos
peixes comendo ração
cavalos-marinhos expostos em vidrinhos
Sol nascendo ao sono do povo
Poesia no porto sonhando acordada
A arte convida...
Antes os grilhões pesados dos escravos no porto,
hoje a poesia que liberta os pulsos
e pulsa na garganta

Beatriz Provasi, Betina Kopp (psicografada), Lucas Castelo Branco, Marcelo Asth e Paulo Beto Meirelles, na última noite em Porto de Galinhas


31.10.08

EPISÓDIOS ONÍRICOS


sonhei que meus olhos sangravam
na verdade era só um deles, acho que o da direita, ou da esquerda, não sei, os lados se invertem no espelho
o sangue parecia sair da retina
era um sangue grosso e lento, não era um jorro
não lembro se tinha dor, mas sei que eu sentia um horror de perceber um olho que sangra

certa vez sonhei que meus dedos caíam, um a um
eles simplesmente se desprendiam da mão
e eu observava com a maior placidez
sem me dar conta de que, nossa, meus dedos estavam caindo!
depois de caírem uns três é que me caiu a ficha: eu não podia deixar meus dedos caírem assim
aí tentei segurar com a outra mão
e foi só aí que eu senti dor
foi só quando percebi e tentei impedir

eu tinha sangue saindo por um dos olhos e não tinha dor
e o sangue não atrapalhava a minha visão
lembro que em algum momento eu também tinha sangue na boca
como se algo tivesse arrebentado dentro de mim
e o sangue buscasse por onde sair...

talvez deva apenas estar preparada pra me deixar sangrar com calma
pra sentir o paladar desse sangue como uma criança que lambe a ferida
muitas coisas já se desprenderam de mim como aqueles dedos
algumas naturalmente, como se não me fizessem falta
outras com muita dor, a tentativa de reter, a certeza de não poder viver sem elas
sim, já senti muita dor, já vi muitas coisas me escaparem entre os dedos, como se me escapassem meus próprios dedos e a possibilidade de segurar
hoje tenho muitas coisas nas mãos e pouca vontade de chorar
mas há um olho que sangra
que eu não posso estancar

dias depois
sonhei que catava morangos no fundo do mar
os morangos estavam de molho
e eu precisava mergulhar fundo, fundo, quase perdendo o ar
depois trazia os morangos à tona
colocava em algum lugar
e voltava a mergulhar
é assim meu mergulho no mundo
eu cato morangos no fundo do mar

depois voltei a sonhar no mar
era... um navio virado
eram... pessoas brigando
e eu não sabia por que
eu estava perdida entre aquelas pessoas
eu não sabia o que eu fazia ali
aí eu mergulhei
revirei umas coisas no fundo do mar
encontrei uma chave
aí eu percebi que as pessoas brigavam pela chave
eu encontrei a chave e escondi comigo
eu tinha a chave pela qual as pessoas brigavam
mas eu não sabia pra que usar
depois eu estava comendo uma torta de morango
não sei como fui do mar aos morangos da torta
nem sei que fim levaram as pessoas que brigavam
mas eu tinha a chave do fundo do mar
e os morangos eram deliciosos

30.10.08

Meshes of the Afternoon, Maya Deren

27.10.08

Batuck das Artes na UNIRIO

ESTE SARAU FOI ADIADO. AGUARDEM A NOVA DATA...

Tô organizando este sarau com a minha turma de Teatro da UNIRIO: Batuck das Artes, dia 31/10, sexta, a partir das 18h, no Jardim do CLA. Pra quem não sabe, a UNIRIO fica na Urca, Av. Pasteur, e eu não sei o número, mas tem placa indicando a entrada. Vou fazer uma performance de poesia e gaita com Betina Kopp e Oswaldo Coyote. Trabalho inédito! Vale a pena conferir...

Começou, e agora?

ADVERTÊNCIA: Este texto não é uma crítica, é só uma necessidade de expressão.

Não costumo ler críticas nem me deixo influenciar por elas. Prefiro tirar minhas próprias conclusões. Pois bem, nem faço idéia do que a crítica falou sobre “Ele precisa começar”. Fui assistir à peça porque a proposta me pareceu interessante – e de fato é. O ator com pleno domínio de todas as funções criativas do espetáculo, texto, direção, atuação, luz, som; e partindo do seu próprio processo de criação. Não tem nenhuma grande novidade aí (e onde é que tem?), mas isso me interessa. Mas se por um lado a concepção do espetáculo me despertou interesse, por outro achei o conteúdo um tanto raso. É o próprio ator, Felipe Rocha, num quarto de hotel, escrevendo o texto da sua peça. Isso poderia levar a muitos lugares ou a lugar nenhum. Nesse caso, levou a muitos lugares e a lugar nenhum. É uma necessidade desesperada de expressão - muito compreensível, aliás, na nossa geração - e algumas boas tiradas cômicas. Mas esse “querer falar” é ao mesmo tempo um “não ter nada a dizer”, e é aí que a coisa toda se perde. Porque querer falar sem ter o que dizer acaba soando como uma simples necessidade de aparecer – também muito compreensível na nossa geração “Big Brother”, mas pouco louvável. Esse processo de construção do texto que o ator/autor põe em cena é interessante, mas é diferente querer dizer alguma coisa e não saber como, buscar meios de se expressar, descobrir outras coisas pelo caminho, se desviar, voltar... e querer dizer qualquer coisa só pra ter o que falar! Eu fiquei angustiada com essa tentativa desesperada do ator de falar sem ter o que dizer, crendo na possibilidade de ser surpreendida com uma crítica. Com um comentário final que denunciasse o absurdo daquela situação. Como em “Dinheiro grátis”, de Michel Melamed, em que o ator submete o público a uma série de jogos de compra e venda, em que o público paga por uma declaração de amor, por um trago no cigarro do ator, por uma série de coisas que o ator propõe em cena, e no final queima o dinheiro todo, dando um sentido de crítica àquela brincadeira, a todas aquelas transações comerciais realizadas no espetáculo. A peça não diria tanto sem aquele comentário final. Em “Ele precisa começar”, a peça fala, fala, e não diz nada. Felipe Rocha chega a propor que nós, espectadores, estaríamos nos perguntando qual o interesse daquilo tudo. Acerta. As pessoas riem da piada. Essa autocrítica em tom de piada me lembra tanto Jô Soares quando faz uma piada sem graça... Aí ele dá um jeito de arrancar risada fazendo piada do seu próprio ridículo. Talvez ainda fosse pior, aquela autocrítica de quem quer receber elogio. Não sei. O fato é que não me parece nenhum dilema existencial real, nenhum questionamento sério sobre o sentido daquilo tudo. Apenas um comentário engraçado perdido no meio de tantos outros, amarrados por esse desejo de se expressar sem ter o que dizer. Eu sempre acho que, nesses casos, é melhor ficar calado. Mas admiro a coragem do ator, ele encarou a fera que o perseguia em seus sonhos. Ele precisava começar e começou. Só não sabia pra onde ir, andou em círculos e não chegou a lugar nenhum. Não conheço bem a trajetória do ator, e não tenho nenhuma pretensão de julgá-lo por esse trabalho; aliás, gostei dele como ator, não gostei foi do autor do texto (que por acaso é ele mesmo). Torço pra que no próximo trabalho ele ao menos tenha idéia de onde quer chegar, mesmo que dê em um lugar totalmente diferente. Tenho certeza que seus passos serão mais seguros, e acompanhá-los uma experiência bem mais interessante.

16.10.08