9.11.09
iminência (editado)
o por fazer maior que o ato
o que está nas mãos está nas mãos.
não é desejo de pegar
[a mão só avança pelo que fica no ar]
desejar e ter é muito bom - essa urgência...
mas melhor é morder o sanduíche pelos lados
e deixar por último o meio cheio de recheio!
ou comer primeiro a parte seca do biscoito recheado
ou guardar aquele último gole de coca-cola pra manhã do dia seguinte de ressaca - hummm...
a coisa deixa de ser a coisa em si e vira um objeto de desejo
como um beijo guardado
[estamos sempre na iminência de algo]
longa viagem para avestruzia

eu queria ver avestruzes cruzando o aterro esta noite!
avestruzes enormes cruzando o aterro do flamengo
para espanto dos seres terrenos
1, 2, 3, 4, 5... vários!
nas duas pistas
correndo
não me pergunte por que avestruzes
são seres estranhos
meio pássaros, meio humanos
como um gordo americano empunhando o seu bic mac no pódio
tendo a velocidade de um keniano
avestruzes enormes, gordos, comedores de bic mac e corredores de maratona
com suas pernas finas e compridas dando largas passadas de corrida
cruzando o aterro despreocupados, desprevenidos dos carros
para espanto dos motoristas embriagados
ia dar no noticiário:
“acidente no aterro é causado por avestruz na pista”
“de acordo com testemunhas, os avestruzes desembarcaram minutos antes no aeroporto santos dumont”
“ainda não se sabe por que vieram”
“os avestruzes permanecem detidos para averiguação”
“segundo o comandante do 13º batalhão, ainda não foi possível colher os depoimentos porque os avestruzes não falam a nossa língua”
precisa-se de tradutores de avestruz – anunciaria o jornal nos classificados
tradutor de avestruz se tornaria um emprego valorizado
não por ser um trabalho assim tão bacana, mas por estar em falta no mercado
logo surgiriam os cursos especializados:
- avestruzês para iniciante
- avestruzês – curso básico
- avestruzês advanced
e as publicações:
- avestruzês para viagem – guia de bolso
etc.
e até as universidades ofereceriam habilitação no curso de letras
marque a opção de habilitação no curso desejado:
( ) inglês
( ) francês
( ) alemão
( ) espanhol
( ) avestruzês
e por aí vai...
mas tudo isso não tem a menor importância
eu só queria ver avestruzes cruzando o aterro esta noite
sem nenhum sentido político, social ou educativo
pela sua total falta de sentido
pela sua total irrelevância
só porque eu acharia bonito
como uma poesia
cruzando o aterro para estar comigo
deserto sem fim
espelho de areias brancas
espelho sem água
sem margem pra debruçar
miragem, miragem
caminho pra algum lugar
deserto, lugar de passagem
lugar que não dá pra ficar
sempre igual, sempre igual
duna aqui, duna ali
vários contornos
a mesma paisagem
sempre o mesmo chão
sempre o mesmo sol
sempre a mesma noite fria
depois do calor do dia
sempre o mesmo céu
sempre o mesmo sou
em busca de oásis
deserto de areias brancas
deserto sem água
sem margem pra debruçar
espelho sem fim
espelho de mim
5.11.09
dolorida em todas as demoras de não ser
de não sei...
o não que se impõe no talvez
sem nunca ter sido dito
ecoando no tempo esgarçado
no espaço vazio
o não na voz são três letras
palavra de curta duração
bala que atinge em cheio o coração
uma só dor, e a paz eterna
o não no silêncio é a sala de espera
é a sala de espera
é a sala de espera
espera
espera
hemorragia interna
eterna, silenciosa, consumida de dores de demoras
como é triste a resposta que se dá no silêncio das horas
4.11.09
PERFORMANCE

31.10.09
numa noite qualquer...
quando colhemos a poeira das ruas
e os postes iluminam apenas poças d’água que refletem solidão e dor
e uma criança vende chicletes na madrugada
e um bêbado grunhindo gemidos desconexos
corta o silêncio, invade o poema
falar de flores e da luz da lua
não vale a pena
II
um hippie corta palha e me faz uma esperança
eu não quero, estou dura
um hippie corta palha e me faz uma flor
eu não quero, estou dura
me faz um peixe, um pássaro
várias formas de dobradura
quando ele já está convencido
me presenteia
de peixe, pássaro, flor
de esperança
e eu tiro do bolso um sorriso
quase doce
de criança
III
uma sirene de polícia
de ambulância ou de bombeiro?
uma rajada de tiros
ou de fogos de artifício?
uma confusão
ou um festejo?
um bêbado xingando
ou bradando versos de amor?
é de alegria ou dor
de medo ou esperança
a síntese dos sons da madrugada?
Difícil ser funcionário
Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.
Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.
É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.
Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.
Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.
Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança
Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...
Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.
26.10.09
19.10.09
16.10.09
Eu era o pacote completo, e eles fizeram um lindo laço de fita pra enfeitar a caixa (ou poemas de amigos)
Bia Provasi
voz suave e tranqüila
divertida e atenta
sempre em paz
sempre faz
acontece
ama
ri
.
recita
a vida
poesia
que faz
a cada dia
um verso
a cada gesto
e o ritmo
no pulso
seu olhar de anjo
o jeito de ocupar o espaço
a dança que faz com o braço
a vida que dá ao poema
abrem portas no universo
para acompanharmos
sua vida a cada verso
15/09/09
(AMIGOS: Eu, Fernão, Maysa, Marcela, Maíra, Juju e Célio)
Atemporal
para a grande amiga, Beatriz Provasi.
Artista de verso e de palco

(AMIGOS: Lucio, Tamara, Natália, eu e Jacomo)
10.10.09
NU ARTÍSTICO
tento esconder as gordurinhas dos meus pensamentos
mas elas pulam pra fora, formam pneuzinhos
meus poemas são repletos de pneuzinhos
são o corpo imperfeito de um espírito inquieto
não uso maquiagem e vivo descabelada
meus versos têm um dentinho torto que aparelho nenhum dá jeito
cansei de sorrir com a mão na frente pra esconder o defeito
hoje sou só gargalhada!...
desfilo versos desengonçados pelas passarelas
me deixo fotografar com as expressões mais ridículas
o amor é ridículo – por que meus versos têm de ser bonitos?
eu defendo a feiúra da obra de arte
a estética da feiúra, da imperfeição,
do exagero, do excesso de informação
a estética dos engarrafamentos, da fumaça, das buzinas
do muro pichado, do lixo revirado
de tudo o que é caótico, urbano
de tudo o que é humano
a nudez mais funda é a alma exposta, ferida aberta,
coração dilacerado atirado no asfalto
que ainda pulsa, pulsa, pulsa...
antes de ser esmagado pela roda do carro
o motorista apressado nem vê
(está sempre atrasado pra viver)
eu desacelero, recolho, emolduro, exponho:
é o meu poema
que ainda pulsa, pulsa, pulsa...
eu estou nua dentro de um carrinho de compras no meio da rua
mas são poucos que têm olhos pra ver.
15.9.09
uma carta (ou história de ninar)
Beijos,
Bia
ps. este texto integra o livro em processo "Oscar manda lembranças"...
5.9.09
iminência (primeira versão)
é o olfato, o tato,
o toque que arrepia
o gosto de quero mais
é o que fica no ar
que você quer apanhar...
o que está nas mãos está nas mãos.
não é desejo de pegar
desejo é impulso, é vontade,
sonho de ser realidade
o que move, motiva, o que pulsa
desejar e ter é muito bom - essa urgência...
mas melhor é morder o sanduíche pelos lados
e deixar por último o meio cheio de recheio!
ou comer primeiro a parte seca do biscoito recheado
ou guardar aquele último gole de coca-cola pra manhã do dia seguinte de ressaca - hummm...
a coisa deixa de ser a coisa em si e vira um objeto de desejo
como um beijo negado
[estamos sempre na iminência de algo]
24.8.09
é tão feio unha descascada de esmalte vermelho!
é feio ver explícito o pedaço que falta
mas, afinal, isto é meu espelho:
um pedaço que falta gritando vermelho intenso no corpo inteiro.
e não adianta retocar aqui, ali, acolá
o jeito é tascar acetona e tirar tudo!
depois, repintar de outra cor
um tom mais claro pra dar leveza...
pra descascar sem dor
um descanso, uma pausa, um alento.
e depois, um recomeço
um novo vermelho intenso
que só descasque no tempo certo de repintar
dando a impressão de estar sempre a durar...
eu preciso dessa ilusão!
em não ver o pedaço que falta,
é como se ele não estivesse lá.
(a pior ausência é a que se faz presente no espaço vazio que a denuncia)
20.8.09
Sarau da UNIRIO
29.7.09
amigo não se ganha
amigo não se faz
amizade não cresce, não se constrói
e é por isso que amigo não se perde
amizade não se desfaz, não diminui, não se destrói
amizade é um encontro que acontece
amigo
– e isso é tanto e é só isso –
se reconhece
20.7.09
De lá vamos para o Sarau Eletrônico do Tico Santa Cruz, que é transmitido ao vivo pela internet. Pra saber o endereço do site e mais informações, acesse: http://bloglog.globo.com/ticosantacruz/
14.7.09
você é tão inteligente
já deveria tê-las
talvez as tenha
mas não!
a verdade é que você não tem resposta nenhuma
até as dúvidas você suga dos outros
cite filósofos e poetas e grandes cineastas
cite o mundo inteiro!
mostre o quanto você é capaz de armazenar conhecimento
e não ter uma idéia própria
porque tem medo
eu sou bonita e veja você!
eu não sou burra – sabe por quê?
porque eu sei pensar por mim mesma.
e falo fernando pessoa, e clarice lispector e a puta que o pariu!
(se eu acho que eles dizem o que eu quero dizer)
mas eu sei dizer o que eu quero
com as palavras que EU quero
ao contrário de você.
você foi treinado para ser o inteligente
e não é capaz de compreender a beleza
de simplesmente
SER
eu nunca fui adestrada
sou fera solta
ferida às vezes
mas sempre capaz de ferir
não se meta comigo, rapaz, você vai se arrepender!
eu podia dizer o que eu disse e algo mais, e daí?
eu sou o que eu sou.
e você?
você é o que fizeram de ti.
9.7.09
UM POEMA RUIM (ou a minha melhor resposta)
porque você só dorme com a namorada e eu sou a vadia
porque você me conta das suas trepadas
e dá em cima da minha melhor amiga
eu podia destruir você em poucas palavras
falar que você trepa mal e beijar meu amigo gay
eu podia ignorar a sua existência, que é o melhor tapa na cara
eu podia trepar com todos os caras, menos você
ou te seduzir só pra dizer na hora h,
que nem geni a herculano:
- “você só toca em mim casando!”
mas não vou fazer nada,
nada, nada, nada
não vou dizer nada
só não vou dormir com você porque não sou sua namorada
e nem vou dar mais ouvidos às histórias das suas trepadas
vou sair com a minha melhor amiga pra falar de você e de outros caras
e dedicar a você um dos meus piores poemas
já que é da minha poesia que você tanto gosta
então eis um poema ruim
(ou a minha melhor resposta)
27.6.09
8.6.09
não fujo da dor
encaro.
se pra amar é preciso doer, que doa!
e doa mais, muito mais, sempre mais...
(sofreria é se não doesse de amor)
doer é uma forma de sentir-se vivo
ter um corpo com terminações nervosas
e um músculo se exercitando no meio do peito
é natural da vida
se você entra numa academia e exercita demais o músculo do braço
no dia seguinte, o braço vai doer
com o coração é assim
é um músculo como qualquer outro
mas é um tipo de dor - exercitar-se - um tipo de dor que dá prazer
você sente que tem um corpo e faz dele o que quer
você sente que tem um coração e que ele bate e que ele apanha
não queira apaziguar meu coração
ele é um lutador de boxe, um campeão!
não uma bailarina na ponta dos pés...
vale sangrar no canto da boca e inchar o olho pra levar o cinturão
de que me vale dinheiro?
eu quero o título, as homenagens...
quero todas as honras...
e o inchaço no rosto e o dente que voa pelos ares
eu quero também
eu quero todas as minhas cicatrizes das minhas lutas e das minhas conquistas
e de todas as vezes que eu fiquei na lona
eu as trago comigo, as ostento como um troféu
você acha que eu sofro, que estou triste?
tenho tudo o que quero, mesmo quando não tenho
porque faço do meu jeito, sem medo de correr riscos
eu entro no ringue com a mesma disposição pra luta
seja o adversário um frangote ou um troglodita
de que me vale a sua segurança?
andar de cinto, atravessar na faixa, jamais avançar o sinal,
cercar-se de grades, câmeras, alarmes – prisão!
eu atravesso fora da faixa no sinal aberto correndo ao ar livre
só para abraçar alguém que vive!
morrer, cedo ou tarde, todo mundo morre
e também se morre, e muito mais cedo,
e muito mais triste o seu enterro,
quando se morre de não viver.
(meu coração não pára nunca!)
4.6.09
Carta de um livro em processo (para Fernando)
1.6.09
1 ano de Corujão em Niterói

27.5.09
Nesta quinta, dia 28
Este terá coordenação de Guilherme Zarvos, e de acordo com a Photophophoka de Tavinho Paes (link ao lado), a programação terá: "o poeta alagoano Lêdo Ivo, o rock da garotada dos Azuis; o talento cênico de estrela Alessandra Colasanti; O Coelho Rosa, Sol na Garganta do Futuro; lançamento do livro O Poeta Maldito da Lapa, de Kbé Saraiva (cuidado com os microfones!), e do 4º vídeo da CEPensamento TV; além dos experimentos sensoriais de Liza Machado e da gastronimia do Chef Z Guinle, que servirá no encerramento seu fabuloso ...risotto al funghi!"
18.5.09
Fim de jogo.
10.5.09
primeira poesia
matéria-prima do poeta
palavra
a gente lavra, lavra
esculpe a palavra
pinta de várias cores
faz soar em vários tons
brinca na ginga
dança na música das palavras
meu primeiro poema
foi a primeira palavra falada
para o público mais comovido
mãe
é palavra, é gente
abrigo, alimento, é vida
é toda palavra já dita
toda a palavra não-dita
toda bendita palavra gerada no ventre do universo
todo verso
e toda prosa
mãe é toda, e todas são,
rima mais rara, mais cara, mais rica
e nem precisa ser escrita
mãe é
poesia
28.4.09
VERSOS DA MEIA-NOITE COM MADAME KAOS!
20.4.09
UM SINISTRO (COMO NOS TERMOS DO SEGURO)
Por um triz a batida não foi na porta do motorista, no caso, eu
Por um triz eu não perco a vida ou me estrepo toda
E teria sido por um triz que eu não teria avançado aquele sinal, ou que teria avançado o anterior, porque eu parei no primeiro, mas o medo não me deixou para duas vezes seguidas no mesmo lugar em que eu tinha sido assaltada há pouco tempo
Eles nos levam tudo instaurando esse clima de medo, levaram o meu celular, ferraram meu carro e podiam ter me levado a vida, por um triz
Se o motorista do outro carro tivesse freado, a batida teria sido na porta do meu lado
Ele passou pouco antes, e batemos frente com lateral dianteira
Por um triz eu não bato na porta do carona onde estava a mulher dele, por um triz a mulher dele saiu inteira, sem nenhum arranhão
O carro ficou todo ferrado, mas por um triz estávamos os três inteiros
Eu tremendo e chorando e não achando o maldito cartão do seguro na bolsa, e não conseguindo montar o triângulo, dependendo da ajuda de estranhos
Eu tremendo e chorando sozinha de madrugada olhando o estrago no meu carro e no carro dele, enquanto ele calmo chamava a polícia pra fazer ocorrência
Não sei se a calma dele me acalmava ou me deixava mais nervosa, eu só pedia desculpas, tremia e chorava e me sentia engolida por toda a solidão e desamparo do mundo
Foi só um segundo, eu não vi, só senti a batida, e por um triz... Por um triz não acontecia, ou seria pior, por um triz...
Depois de acionar a polícia, o seguro, o reboque, duas horas depois eu estava em casa, tão cansada...
Mas agora a imagem da batida, mais que a imagem, a sensação, porque eu não vi nada, aquela sensação não me deixa dormir
A sensação de um segundo, o barulho, a porrada, o cheiro de borracha queimada, e eu sem saber se desligava o carro, puxava o freio de mão ou ligava o pisca alerta, ou tirava o freio de mão e saía logo do carro antes que um outro viesse na minha direção... eu saindo do carro tremendo ainda sem saber direito o que estava acontecendo... meu deus, o que eu faço, eu nunca bati com o carro? O casal sai do outro carro. Vocês estão bem? Estão. E eu sento no meio-fio e começo a chorar porque eu não acho na bolsa o cartão, o celular, e nem sei pra quem eu devo primeiro ligar... Eu não acho o documento do carro, a carteira de habilitação, e nem sei o que devo falar. Pro casal eu só peço desculpas. Desculpa, desculpa, desculpa... Eu tive medo de parar.
E agora eu não consigo dormir, porque eu queria esquecer, mas eu preciso lembrar. Eu que freqüentemente dirijo sob efeito de álcool, eu não tinha ingerido uma gota de nada. Eu preciso lembrar pra descobrir o que foi que eu fiz de errado. Avançar o sinal? O motorista do reboque veio avançando até Niterói. Todo mundo avança sinal de madrugada. Porque uma menina sozinha no carro não avançaria?! Como foi que eu não vi o outro carro que vinha? A rua parecia tão deserta... Será que a culpa foi minha, ou não estaria ele muito acelerado? Como eu não vi? Eu avanço os sinais vermelhos de madrugada, mas também sempre reduzo nos verdes, porque eu sei que todo mundo avança, então reduzo por segurança. Ele não reduziu, não me viu. Tudo bem, tava verde pra ele, mas por que ele não reduziu? Até bêbada eu faço isso, meu deus! Principalmente bêbada, fico mais cautelosa, por me saber a priori errada. Mas desta vez eu não tinha bebido nada, só água. Só tinha medo de ficar parada, e um pouco de pressa de chegar em casa. Nem cansada eu estava...
Agora tá lá o meu carro todo ferrado, eu ainda sem saber o valor do estrago, mas já sabendo que o seguro não cobre tudo e que eu não tenho um tostão pra bancar o conserto.
Agora ta lá o meu carro ferrado, e eu aqui com a sensação da batida a me despertar toda hora que eu me entrego pro sono. Como se o sono fosse aquele segundo de distração, onde tudo aconteceu por um triz.
Por um triz, eu bati. Por um triz, não consigo dormir.
Aí eu desci pra comprar uma cerveja e vi lá embaixo meu carro amassado e pensei: que merda! Aí eu desisti de dormir. Agora só tomo a minha cerveja e fumo o meu cigarro... Não há nada o que fazer. Só lembrar ao máximo, pra depois conseguir esquecer.
6.4.09
diz que eu fui por aí
levando um violão embaixo do braço
em qualquer esquina
eu paro
em qualquer botequim
eu entro
e se houver motivo
é mais um samba que eu faço
se quiserem saber se eu volto
diga que sim
mas só depois que a saudade se afastar de mim"
7.3.09
A DOR QUE DÓI MAIS, de Martha Medeiros
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
Oscar manda lembranças
6.3.09
Eu Não Existo Sem Você (Vinícius de Moraes)
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos me encaminham pra você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você
2.3.09
como burocratizar um poema?
descreva os objetivos
aponte os resultados concretos a serem obtidos
informe o quê pretende realizar de maneira clara e sucinta
descreva as atividades previstas
informe o público alvo
faça planos de distribuição e divulgação
orçamentos
cronogramas
não deixe nada em branco
preencha cada campo
de maneira clara e direta
com a quantia de caracteres certa
enquadre, burocratize bem o poema!
depois vá dormir se perguntando: 40 mil vale a pena?
ah, se com um poema eu conquistasse 40 mil almas...!
isso, sim, valeria!
por que não nos pagam pra fazer poesia?
essa coisa sem objetivo, sem resultado concreto, sem público alvo, sem alvará...
essa coisa que não se diz o quê de maneira clara e sucinta
essa coisa, deus meu, que não se enquadra!
que espera apenas que alguém a sinta...
e depois se perde de vista.
que escorrega, desliza, rodopia e vaza...
essa coisa poema não dá,
eu aperto aqui ali acolá,
e não cabe.
eu quero enquadrar, algemar, prender.
eu quero dinheiro – e quem não quer?
mas ela dá um jeito de fugir.
essa coisa poesia me escapa
numa palavra que ela esbarra, empaca:
burocracia.
e lá se foi a poesia...
25.2.09
30.1.09
W.O.
é medo de perder?
ou é medo de ganhar?
quando o jogo está zerado
quando não rolam os dados
quando não se assume os riscos
de iniciar a partida
ela já está perdida
se o que há é nada, já é o não
arrisque a possibilidade de um sim
o sim é o máximo que pode acontecer
não tenha medo de ganhar
que não lutar já é perder
25.12.08
23.12.08

16.12.08
9.12.08
NOSSA MELHOR INFÂNCIA

Em maternidades distantes num longínquo 81,
nascemos irmãos numa só alma.
Destinos traçados nas palmas de mãos vazias,
que aprendemos a ocupar de copos e cigarros por não ter o que segurar.
Mãos das quais tudo insiste em escapar...
Mãos em que as linhas das vidas divididas se assemelham a cicatrizes antigas,
já rasas e quase apagadas, mas ainda lá, marcadas.
Temos esse sinal de nascença.
Essa mania de entrar no mundo sem pedir licença
e nunca sentir-se em casa em nenhum lugar.
Encontrar sua mão na minha é como regressar ao lar que nunca me foi abrigo,
e as memórias da infância que não tivemos são minha única realidade possível.
Nossa casa na árvore, para onde fugíamos quando tínhamos medo de algum perigo.
Passávamos dias e dias escondidos debaixo da cama pra jogar Resta Um,
e quando restava uma peça no tabuleiro, saíamos pra comemorar.
Corríamos por horas a fio só pra sentir o vento no rosto.
E nos dias de temporal, a gente corria pra fora de casa e se deixava inundar.
Nos dias de sol, era pedrinha no riacho e picolé na carrocinha do seu Chico.
Um dia a gente mascou tanto bubaloo, mas tanto, que ficou com dor nas mandíbulas,
e a gente queria rir e doía, e a gente ria, e ria, e ria...
A gente comia banda e bala juquinha, e uma vez você se engasgou numa bala soft que foi um deus nos acuda!
Foi a primeira vez que tive medo.
Eu queria dissolver a bala na tua garganta.
Dissolver do mundo tudo o que podia te engasgar, te fazer sofrer,
tudo o que podia me afastar de você.
Quando eu fraturei o braço você foi o primeiro a assinar o meu gesso.
Eu guardei o gesso na minha caixa de cartas.
Você lembra quando a gente dizia que ia viajar?
Eu ia pro meu quarto e você pro seu, de portas fechadas, e a gente se escrevia cartas, mandava por debaixo da porta.
Às vezes as viagens duravam muito e aí batia uma saudade danada e a gente marcava de se encontrar em um ponto do universo, que era a cozinha, porque a gente adorava experimentar novas gastronomias.
Tinha um país que fazia pão com manteiga e açúcar, e era o que a gente mais gostava!
A gente nunca comeu gafanhoto, mas a gente caçava formigas, assim, com o dedão, esmagava uma a uma no chão.
E eu adorava quando você me salvava das terríveis baratas!
Você sempre foi o meu herói, o mais forte, o mais bonito, o príncipe de todo conto de fadas.
E eu gostava de ser salva, e às vezes fingia medos só pra te ver enfrentar meus perigos.
Sem querer nós matamos os peixes do aquário e o pintinho da feira de filhotes.
Enterramos no jardim com uma cerimônia muito solene, choramos como duas carpideiras incontidas, e depois esquecemos os mortos pra jogar Atari.
A gente sempre quebrava o joystick fazendo força na curva do enduro, em que entrávamos com o corpo inteiro!
Eu gostava de comer jujubas com você vendo o dia amanhecer depois de tomar coca-cola escondido a noite inteira!
E andar de bicicleta, e soltar pipa, e jogar bola, e pular pogobol e pular corda!...
No nosso mundo não havia incesto e o meu primeiro beijo foi seu,
e eu fui sua namorada e você o meu,
e o nosso casamento era cada dia em um lugar.
O primeiro escolhido foi a Lua, e eu queria entrar de vermelho que é pro povo da Terra poder me avistar.
Mas o ônibus espacial demorava a chegar...
Aí a gente resolveu casar no jardim, que já era cemitério, então podia ser igreja.
A festa seria na casa da árvore, que é onde a gente ia morar.
Mas não ia caber todo mundo lá!
Que tal então se a gente casasse no Maracanã?! Descesse de helicóptero como o Papai Noel no Natal da Xuxa?! A gente antecipava os fogos do Ano Novo, e ia ser o grande acontecimento do ano! Ia passar na Retrospectiva 94 e ninguém nem ia lembrar da morte do Senna.
Droga, não queria lembrar do Senna, mortes me deprimem!
Prefiro planejar o nosso filho, a cor dos meus olhos com o seu brilho, um nome de anjo, com cara de diabinho, que vai herdar nossa casa na árvore, nosso Atari e todos os outros brinquedos!
Nosso primeiro filho veio no Jogo da Vida, nossa primeira casa e mais toda a rede de hotéis a gente comprou no Banco Imobiliário, mas bom mesmo era ganhar o mundo inteiro no War, que entrava madrugada adentro e a gente nunca se cansava...
A nossa vida inteira a gente foi ganhando como um jogo, montando as peças como um quebra-cabeças que faz surgir uma tela que a gente pintou, nosso jogo da memória inventada.
São as melhores lembranças que eu tenho da nossa infância.
Não você, meu pequeno anjo amoral perdido num céu de estrelas fluorescentes coladas no teto de um quarto vazio.
Não eu, sua pequena infernal, trancada no banheiro pra chorar escondida a solidão inevitável de uma estrela caída.
Nós dois, crianças de um mundo onde não há infância,
escondidos na dor do riso com o mesmo olhar de espanto.
E de repente, depois de tanto pranto, de tanta coisa, de tanta gente,
de toda essa infância perdida,
nossos olhares se cruzam numa esquina da vida.
E mergulhar nos seus olhos é como recordar tudo isso!
Lembrar tudo o que foi (que é tudo o que podia ter sido).
Voltar ao lar que nunca me foi abrigo e finalmente me sentir em casa,
que toda a dor da nossa vida foi uma bala soft agarrada na garganta e um braço quebrado, com um cafuné pelo susto e um gesso assinado de lembrança.
Talvez seja tarde para um pedido, talvez você já tenha desistido,
mas eu não mudei nossos planos.
(eu até guardei meu vestido vermelho)
Vamos pegar carona no próximo foguete
e você casa na Lua comigo?
(quero a cor dos meus olhos com o seu brilho,
quero amar nosso filho)
AMOR PORCO-ESPINHO
não sei amar
nunca aprendi a amar
não sei...
acho que descobri o amor ainda pequeno
amei um porco-espinho
precisava cuidado pra amar
o amor demais, apertado,
te entra no corpo como uma farpa, uma flecha
um espinho que não se desencrava
daí percebi que amar doía
desaprendi a acariciar
sempre acho que a mão que desprende carinho
pode afundar-se em espinhos
tenho medo de amar.
Tenho uma fantasia
Um ponto luminoso que quica de parede em parede
e de repente
te cai no mar.
Da minha casa tenho as referências
Do bonito do inteligente
Do como devo ser e não sou.
Escolho ser educado, um gentleman!
Agradável, doce no falar
E carente no olhar.
Tenho um desejo escondido.
Voar nas costas de uma borboleta.
Sentir o vento no rosto
E nunca ter um objetivo certo,
Um porto-destino.
Queria mesmo era recolher a âncora,
rasgar o peito
Ver todo meu pranto vermelho derramado,
e nele sim,
levantar as velas.
E me ser eu, eu pra ti
sem pensar, sem ponderar
gestos nem navalhas.
Mostrar meu corte ainda aberto
E não deixar secar minha lágrima.
Queria ser carregado pela mão,
não pr’um campo verde.
Mas, pro meio de um turbilhão
E lá no centro te pegar pela mão
e rodopiar.
Brincar de ser eu o teu dono.
De ser eu a borboleta.
Eu disse não ser mas talvez seja
talvez eu não me perceba
que no sonho a voar nas asas de uma borboleta
seja eu o pássaro a voar mais alto
o que não se sabe
que caiu do ninho
ainda pequenino, e agora sempre sozinho
asas quebradas, ferida aberta
sem saber que ainda é canto
o que meu chorar
que é sempre canto
o meu lamento
que eu canto e vôo, passarinho
mas penso que passo, no meu canto, sozinho,
sem que ninguém me perceba passar
Fernando Klipel e Beatriz Provasi
6.12.08
Dar arte de dar nós; Da arte de nos dar
O desejo latente, latejante
de amar em um momento constante
Amar em todos os momentos,
como se ama no sacrifício, na luta.
Até o momento em que amar
não seja mais sacrifício.
Até o momento que sentir
seja uma simples golada de prazer
à presença do amor.
Assim sinto bater como um coração
nossos pés no chão
e cada corpo que se atrai
que se entrelaça
na nossa pequena íntima multidão.
Me sinto distante...
ora perto, ora longe
do prazer que me satisfaz
Da força que não sabemos de onde vem
mas que nos pega e nos arrasta
Nos leva pra longe, distante
imenso, cativante
De onde nada tem
de onde tudo nasceu
Descubro você. A sorte de amar.
Assim mato a saudade, sedenta de você, numa mesa de bar.
E entre as garrafas de nossos antigos carnavais
descubro teus olhos, que me fitam nessa vida afora
Dentro fora, Dentro fora, Dentro fora, Deeeeeentro...
Tempo afora como agora
E o amanhã que nunca acaba.
E acaba, propõe o recomeço, a ré – a marcha ré, do inconsciente passo que me pedes pra dar. E sem falar, e sem ouvir, eu sigo, errante entre um gole e um abraço. Te tenho em meus braços, vos tenho em meus braços.
Braços já cansados de não segurar, tiram forças do desejo de seguir em frente com vocês, da exaustão. Não suporto, desta vez, ter que soltar, desta vez seguir errante.
Não temo cara feia, mas peço, esta cara tem que me abraçar, amanhã ou depois.
Respirar com todos, este é meu
Devir.
Meu dever de tornar possível cada momento ao seu lado. Como se fosse único, como se fosse inexplicável, como se fôssemos um só, e que nada mais existisse, apenas nós, como o ser mais perfeito do mundo.
Nós todos apertados
Nós. Todos sem querer apartar.
Sempre nós, laços
das fitas mais coloridas
que enchem nossos olhos
que inflam nossos peitos
que são a nossa voz
cantando juntos
uma só voz
de uma só vez, toda vez,
várias vezes
sempre
AMO VOCÊS
NÓS
(nunca mais sós)
E agora, passo.
Posso repetir em voz alta,
sussurrada pra ninguém que não sejamos.
Sempre Nós!

Turma do 2º semestre de 2008 – Artes Cênicas/UNIRIO, vulgo “O Fruto Proibido”
Escrito por Aline Vargas, Beatriz Provasi, Bel Flaksman, Daniel Galvão, Diogo Diniz, Fernando Klipel, Gunnar Borges, Gustavo Almeida, Marília Nunes, Nilson Nunes, Rany Carneiro, Renato De Sena, Rodrigo Abreu, Tatiane Santoro, Vanessa Reis e Wesley May. Participação especial de Rafael Medeiros e Vitória Hadba, amigos d’A Boemia.
23.11.08
A incrível saga de São Luiz Gonzaga
A incrível saga de São Luiz Gonzaga
para Marília Nunes, Gunnar Borges e Daniel Galvão
A inviável noite se anuncia
Sutilmente mentirosa com medo da triste apatia entediada
E Luiz Gonzaga
que não era santo nem nada
se escondia atrás do parque
Ai que Boa Vista esta
que não paro de perceber
sempre em círculos.
E quanto mais quadrados e retas procuro,
sempre me indicam:
Contorna! A vista é bela.
Sim, as saídas foram múltiplas.
Mas Luiz Gonzaga não compreendia
em sua busca existencial
qual era afinal,
afinal, qual era, meu deus?!
A ENTRADA!
Escondido atrás do parque, agachado, mãos na testa, como estava, meditava...
Meditava, outros dizem:
- Mendigava o Gonzaga... sempre em busca de migalhas do pão.
Na eterna fuga de sua imensa tristeza. Um sorriso, um consolo, uma desculpa. Um olhar.
Mas não, a Baronesa só tinha lágrimas, do outro lado o cão só ladra.
E Francisco Xavier, esse sim santo
enviou num cavalo branco
um fidalgo salvador
que trazia na cabeça a espada da concórdia
e nas mãos uma taça cheia de presentes dourados .
Assistência móvel para panes elétricas 24 horas.
Este era o cartão que Luiz, o Gonzaga, carregava no pescoço para o caso de um enfarto ou enfisema pulmonar.
Nunca se sabe quando as encruzilhadas viram rotatórias, os mendigos ricos, ou os escarros vêm do gozo.
Aí veio o Barão, um velho nobre podre de pobre que escarrava no chão e vivia a dizer indecências.
Chegou sem pedir licença, puxou uma cadeira e sentou perguntando (sem nem dizer bom dia): Rio?!
E riu...
Mas o sorriso é singelo, carismático, alegre. O Barão tem sua mesquita com um símbolo da suástica, uma virgem de burca transparente, um olhar translúcido em um dos olhos. Só num.
No outro... ninguém sabe como definir.
O outro é tão, tão...
Lacrimoso, eu diria. Mas era uma lágrima que nunca caía. Estava sempre lá, parada, na iminência de despencar. Mas não podia.
Ela sabia que caindo solitária levaria o corpo todo do Barão a desabar, e com ele o céu, o mar, toda a vida, tudo que no mundo há. Uma tristeza quase doce era o anúncio desse olho.
Então ele andava, andava, andava, por aí, a procurar rir pra não chorar.
Passo. Eu não vou conseguir.
É só emoção.
Eu não tenho o dom da palavra.
Não quero mais procurar. Não quero mais chorar...
Não quero sequer rir!
Quero sim é encontrar a concórdia, de mim... Desculpem, do Barão.
Do meu – entendam sempre dele, por favor. Do meu sim e do meu não. Do meu Santo ou nada. Do meu bi, tri, quadri... Multi qualquer coisa que seja farsa ou não.
Em um ano da minha vida, tenho tudo daquele ano, e nem consigo entender.
Como jogo fora, pra ninguém ver.
Nunca queimei, joguei fora mesmo.
Pra ninguém que eu perceba alguém ler.
Mas que besteira a minha!
Que ingenuidade besta meu deus?!
Se já me lêem nos olhos a alma, se já me lêem no corpo inteiro, nos dedos rasgando das toalhas das mesas de bar o molhado do suor dos copos...
Não, não, não são todos que sabem ler.
Há os analfabetos fundamentais, que nunca vêem uma letra de emoção. Um “a” de abelhinha zunindo no ouvido de uma criança que descobre o mundo.
Paro por aqui, porque quanto mais profundo se chega no Japão,
mas no Luiz Gonzaga a gente não chega não!
Beatriz Provasi, Bel Flaksman, Fernando Klipel e Taianã Mello (que após algumas garrafas seguiram um táxi e conseguiram enfim chegar na Rua São Luiz Gonzaga!!!)
21.11.08
O MENINO E A CORUJA FALANTE

uma fala amaciada
desliza pela madrugada...
e eu vejo um menino brincando
um sorriso de criança encantada
sabe aquela criança que inventa a brincadeira
personagens, histórias, mundos incríveis,
paisagens, perigos, heróis, grandes conquistas
coisas que os outros dizem: não é verdade, isso não existe.
mas ela insiste na fantasia
pois no fundo ela sabe
(e se fortalece nesse saber profundo)
que tudo existe quando a gente cria!
eu acredito na sua história,
entro no jogo, participo da brincadeira,
e comigo vejo outros,
e vejo uma cidade inteira!
e eu vejo o olhar deslumbrado da criança
quando percebe que os outros acreditam no que ela já sabia
mas lhe diziam os incrédulos: isso é pura fantasia!
qual o quê!
criança sempre vê além
por isso vê o que ninguém vê
esse menino viu além
e foi além do que podia imaginar
outros vieram lhe somar histórias
e era tanta imaginação, tanta imagem, tanta ação,
tantos mundos se somando, tanta criação, tão divertido!
que o menino nunca mais se viu perdido
e mesmo na madrugada mais sozinha, mais fria, mais vazia,
ele conversa com uma coruja de estimação
um coruja que fala!
não como um papagaio besta que vive repetindo frase feita
ele tem uma coruja que no pé do seu ouvido
pousa palavras com asas
uma coruja que fala poesia!...
o menino nunca pára de brincar
a brincadeira, tão somada, tão sadia,
que pela cidade inteira se irradia,
nunca, nunca, nunca vai terminar!
mas tem hora que o menino precisa
- porque toda a mãe dizia e nela a gente sempre acredita -
deixar o jogo só um pouquinho,
escovar os dentes, fazer xixi, e ir pra cama dormir.
e nessas horas a coruja se empoleira na sua cabeceira,
e faz dos versos uma linda canção de ninar.
no dia seguinte o menino acorda homem feito
com tantos feitos no caminho
mas ainda vejo no seu olhar, no seu sorriso, de mansinho,
o despertar daquele menino,
que inventou as brincadeiras
com as quais continua a brincar.
ele acredita, e se encanta, e se deslumbra,
e ainda conversa poesia com a coruja,
que leva no ombro pra todo lugar!
mas sabe, não é todo mundo que vê
a coruja no seu ombro e o menino em seu olhar
são só as crianças e os poetas
- o que dá na mesma.
só mesmo que sabe brincar!
14.11.08
FLIPORTO 2008



pintos, preás, patos
peixes comendo ração
cavalos-marinhos expostos em vidrinhos
Sol nascendo ao sono do povo
Poesia no porto sonhando acordada
A arte convida...
Antes os grilhões pesados dos escravos no porto,
hoje a poesia que liberta os pulsos
e pulsa na garganta


31.10.08
EPISÓDIOS ONÍRICOS

certa vez sonhei que meus dedos caíam, um a um
hoje tenho muitas coisas nas mãos e pouca vontade de chorar
mas há um olho que sangra
que eu não posso estancar
dias depois
sonhei que catava morangos no fundo do mar
os morangos estavam de molho
e eu precisava mergulhar fundo, fundo, quase perdendo o ar
depois trazia os morangos à tona
colocava em algum lugar
e voltava a mergulhar
é assim meu mergulho no mundo
eu cato morangos no fundo do mar
depois voltei a sonhar no mar
era... um navio virado
eram... pessoas brigando
e eu não sabia por que
eu estava perdida entre aquelas pessoas
eu não sabia o que eu fazia ali
aí eu mergulhei
revirei umas coisas no fundo do mar
encontrei uma chave
aí eu percebi que as pessoas brigavam pela chave
eu encontrei a chave e escondi comigo
eu tinha a chave pela qual as pessoas brigavam
mas eu não sabia pra que usar
depois eu estava comendo uma torta de morango
não sei como fui do mar aos morangos da torta
nem sei que fim levaram as pessoas que brigavam
mas eu tinha a chave do fundo do mar
e os morangos eram deliciosos
30.10.08
27.10.08
Batuck das Artes na UNIRIO
Tô organizando este sarau com a minha turma de Teatro da UNIRIO: Batuck das Artes, dia 31/10, sexta, a partir das 18h, no Jardim do CLA. Pra quem não sabe, a UNIRIO fica na Urca, Av. Pasteur, e eu não sei o número, mas tem placa indicando a entrada. Vou fazer uma performance de poesia e gaita com Betina Kopp e Oswaldo Coyote. Trabalho inédito! Vale a pena conferir...
Começou, e agora?
Não costumo ler críticas nem me deixo influenciar por elas. Prefiro tirar minhas próprias conclusões. Pois bem, nem faço idéia do que a crítica falou sobre “Ele precisa começar”. Fui assistir à peça porque a proposta me pareceu interessante – e de fato é. O ator com pleno domínio de todas as funções criativas do espetáculo, texto, direção, atuação, luz, som; e partindo do seu próprio processo de criação. Não tem nenhuma grande novidade aí (e onde é que tem?), mas isso me interessa. Mas se por um lado a concepção do espetáculo me despertou interesse, por outro achei o conteúdo um tanto raso. É o próprio ator, Felipe Rocha, num quarto de hotel, escrevendo o texto da sua peça. Isso poderia levar a muitos lugares ou a lugar nenhum. Nesse caso, levou a muitos lugares e a lugar nenhum. É uma necessidade desesperada de expressão - muito compreensível, aliás, na nossa geração - e algumas boas tiradas cômicas. Mas esse “querer falar” é ao mesmo tempo um “não ter nada a dizer”, e é aí que a coisa toda se perde. Porque querer falar sem ter o que dizer acaba soando como uma simples necessidade de aparecer – também muito compreensível na nossa geração “Big Brother”, mas pouco louvável. Esse processo de construção do texto que o ator/autor põe em cena é interessante, mas é diferente querer dizer alguma coisa e não saber como, buscar meios de se expressar, descobrir outras coisas pelo caminho, se desviar, voltar... e querer dizer qualquer coisa só pra ter o que falar! Eu fiquei angustiada com essa tentativa desesperada do ator de falar sem ter o que dizer, crendo na possibilidade de ser surpreendida com uma crítica. Com um comentário final que denunciasse o absurdo daquela situação. Como em “Dinheiro grátis”, de Michel Melamed, em que o ator submete o público a uma série de jogos de compra e venda, em que o público paga por uma declaração de amor, por um trago no cigarro do ator, por uma série de coisas que o ator propõe em cena, e no final queima o dinheiro todo, dando um sentido de crítica àquela brincadeira, a todas aquelas transações comerciais realizadas no espetáculo. A peça não diria tanto sem aquele comentário final. Em “Ele precisa começar”, a peça fala, fala, e não diz nada. Felipe Rocha chega a propor que nós, espectadores, estaríamos nos perguntando qual o interesse daquilo tudo. Acerta. As pessoas riem da piada. Essa autocrítica em tom de piada me lembra tanto Jô Soares quando faz uma piada sem graça... Aí ele dá um jeito de arrancar risada fazendo piada do seu próprio ridículo. Talvez ainda fosse pior, aquela autocrítica de quem quer receber elogio. Não sei. O fato é que não me parece nenhum dilema existencial real, nenhum questionamento sério sobre o sentido daquilo tudo. Apenas um comentário engraçado perdido no meio de tantos outros, amarrados por esse desejo de se expressar sem ter o que dizer. Eu sempre acho que, nesses casos, é melhor ficar calado. Mas admiro a coragem do ator, ele encarou a fera que o perseguia em seus sonhos. Ele precisava começar e começou. Só não sabia pra onde ir, andou em círculos e não chegou a lugar nenhum. Não conheço bem a trajetória do ator, e não tenho nenhuma pretensão de julgá-lo por esse trabalho; aliás, gostei dele como ator, não gostei foi do autor do texto (que por acaso é ele mesmo). Torço pra que no próximo trabalho ele ao menos tenha idéia de onde quer chegar, mesmo que dê em um lugar totalmente diferente. Tenho certeza que seus passos serão mais seguros, e acompanhá-los uma experiência bem mais interessante.











