17.10.12

ainda & sempre o maldito cão

tem um cão desesperado
saltando, latindo e abanando o rabo
mendigando migalhas de atenção
um furacão que veio

não se sabe de que direção
telhados, postes, plantações
- tudo devastado
a imagem singela
daquela criança correndo na guerra
- as guerras nos porta-retratos -
aviões dentro de torres
tanques sobre carros
em todo lugar uma TV sempre ligada
uma pessoa enfiando o dedo na tomada
alguém tomado de angústia ou medo
alguém tomando o último gole
e indo embora em segredo
e tem aquele cão desesperado
eu querendo falar de amor
esse cão desesperado no meu peito
arranhando as minhas pernas
eu armada de pés
chutando ele de lado
sempre armada de pés
desarmada de chãos
vislumbrando 10 mil monstros
embaixo do colchão
criança correndo de dentro
do porta-retrato
das nossas guerras
se atirando no centro
da devastação
tem toda essa solidão
a tomada eletrizando os dedos
sem notícias na televisão
meu último gole
uma fuga em segredo
e o latido intermitente
de um cão

2 comentários:

R. disse...

"tem toda essa solidão
a tomada eletrizando os dedos
sem notícias na televisão
meu último gole
uma fuga em segredo
e o latido intermitente
de um cão";

Adoro seus finais!
Esse tá no livro?

Beatriz Provasi disse...

valeu! esse não tá não, é novo. vai entrar numa antologia de poetas do corujão da poesia. aviso por aqui qdo for rolar o lançamento... bjs