31.12.10

garganta do diabo

para Cabelo

a garganta do diabo
sussurra coisas que você não quer ouvir
você pode perder o endereço de casa
teus demônios sempre sabem onde te achar
a garganta do diabo
gargareja teus desejos
e gargalha
grita, grunhe
faz todos os sons de espantar mosquitos,
ratos, e seres humanos
na garganta do diabo
só cabem anjos
asas quebradas
atravessadas
na garganta

30.12.10

essa mania de lamber feridas


regular a freqüência da solidão
com a medida do silêncio
engolir as mesmas doses dos meus venenos

os monstros embaixo da minha cama
ainda são os mesmos
- olhos arregalados de criança -

sempre bebo o sal das mesmas lágrimas
ainda converso, sempre, com fantasmas
ainda cuido, como passarinhos assustados,
dos meus anjos de asas quebradas

ainda aqueles demônios
saltando na minha cabeça
antes do sono


e como um estranho gato
essa mania de lamber feridas
com pequenas navalhas na ponta da língua

29.12.10

APROVEITE


Foto do meu amigo Magoo, tb conhecido como Marcelo Valle

25.12.10

Não preciso que me tirem pra dançar esta noite

Já foi, engoli o Natal com peru e farofa. Agora todos dormem e eu posso simplesmente ouvir um CD de blues e tomar esse rum que a minha irmã trouxe de Cuba quando esteve lá. Usei o rum pra fazer um mousse de chocolate, aí me lembrei dele. A garrafa ainda estava fechada. É claro que ela trouxe várias, esta é a última. Estava guardada. Nem lembrava dela... encontrei e posso considerá-la meu presente de Natal. Aqui não teve troca de presentes. Não gosto disso, acho um saco ter que comprar presente pra alguém numa data determinada. Eu compro quando eu tô a fim, não importa se é aniversário, Natal ou qualquer coisa que o valha. E nessa época eu realmente não fico a fim de comprar nada. Minha mãe também. A gente é muito diferente, mas em algumas coisas a gente se entende. Comemos na hora que deu fome, vimos um pouco de TV e aí ela foi dormir. Não deixei ela ver o Natal da Xuxa, ficamos com o Pânico na TV. Tem muita coisa no Pânico que eu gosto, de verdade. Acho um programa escroto, politicamente incorreto, e muito bem editado. Na verdade o conteúdo é uma bosta. Eu me delicio é com as edições. Os caras parecem idiotas, mas sacam muito bem quem é Eisenstein e toda aquela toeria de montagem revolucionária dos filmes soviéticos. Só que usam isso pra fazer graça e escrotizar tudo, e não pra nenhuma revolução. Ok, cada uma faz a revolução que pode. A minha, no momento, é tomar esse rum cubano ouvindo um blues americano numa noite em que dizem que nasceu um cara chamado Jesus, que parece até que era um cara bem bacana, mas eu não conheci, não posso afirmar. Se é fato que ele transformava água em vinho acho até que eu ia gostar. O cara também queria mudar o mundo, como os russos e os cubanos. Foi crucificado. Hoje estampa camisetas, do mesmo modo que Che Guevara. E um monte de gente fala em seu nome, na maioria das vezes um monte de besteiras. Acho que ele não ia gostar muito disso. Mas como eu disse, não o conheci, não posso afirmar. Mas desconfio mesmo que ninguém goste de ver alguém falando em seu nome. Eu prefiro falar por mim mesma. Mesmo que eu me contradiga 10 vezes na mesma frase. Enquanto eu estiver viva eu tô mudando de idéia, então que ninguém pegue nada que eu diga como coisa fixa. Dali a um segundo pode não ser mais aquilo. E não é. Disse que não ia fazer, mas desejei feliz natal pra quem eu não devia. É claro que eu fiz isso por mensagem, que é mais seguro. Não tem a voz do outro do outro lado da linha pra te estremecer e fazer você mudar de idéia e não ligar mas você já ligou e não tem mais jeito. É claro que eu não recebi aquele feliz natal de volta, eu não esperava por isso. Mas levantei uma bandeira branca em sinal de paz e estou bem assim. Tudo o que eu queria é que ele entrasse por aquela porta e me tirasse pra dançar essa música que tá tocando agora. Etta James cantando A Sunday Kind Of Love. E a gente dançando como se não existissem domingos, segundas, terças... como se nada mais houvesse além de nós. Mas há uma penca de filhos e ex-mulheres na barra da sua calça, e nenhum lugar pra mim na sua dança ou nos seus dias da semana. Mas estou feliz com o meu sinal de paz. É um sinal de paz pra mim. Eu preciso dessa paz. A Sunday Kind Of Love e eu dançando sozinha esta noite. Don't Cry Baby, e eu não tenho vontade de chorar. Estou tomada por uma estranha serenidade. Eu que sou feita de desesperos. Não tenho lágrimas. Estou quase feliz. Esses dias encontrei um velho amor, um grande amor, eterno, que me faz muito bem. Dormi nos seus braços. Me fez muito bem. Ele já foi meu desespero. Não há mais desespero entre nós; ainda há amor, e isso me faz muito bem. Pronto, agora tá tocando uma música que eu adoro - Baby, What You Want Me To Do - e me deu realmente vontade de dançar sozinha esta noite. E é isso o que eu vou fazer.

24.12.10

E eu nem sou essa coca-cola toda. ou Brastemps também quebram.

Eu tenho o dom – e isso só pode ser um dom, porque eu faço muito bem – eu tenho esse dom de estragar tudo. De mandar mensagens suicidas e e-mails assassinos. De ligar na hora errada. De cair fora antes do tempo. E de ficar calada fingindo que não está acontecendo nada quando eu tô me rasgando por dentro. Eu tenho esse dom de sempre fazer tudo errado. E um dom não pode ser desperdiçado. Então eu vou ligar pra desejar “feliz natal” como se nada tivesse acontecido. E ele vai se assustar e ter ainda mais certeza de que eu não passo de uma maluca. E vai entender porque não me quer, apesar de eu ser uma garota bonita e interessante, inteligente e boa de cama (modéstia não é meu forte). Geralmente esse tipo de mulher é bastante maluca e os caras fogem como o diabo da cruz. Mesmo quando os caras também são meio malucos. Depois de uma mensagem suicida e um e-mail assassino, eles entendem que tá na hora de cair fora. E eu entendo. Nem guardo mágoa. No lugar deles acho que eu faria o mesmo. O Rio de Janeiro está cheio de mulheres mais interessantes do que eu e um pouco mais comedidas. Eu não sou nem nunca vou ser o tipo “mãe de família”. Eu não sou nem nunca vou ser o tipo compreensiva, doce, equilibrada. E nem quero ser! Eu não quero compreender nem aceitar nada. Eu me acho boa demais pra me contentar com migalhas. E tá aí o meu erro trágico, a desmedida. Eu me acho a última coca-cola do verão. E não entendo por que o cara iria preferir pepsi. Quer pepsi? Foda-se! Eu continuo sendo a última coca-cola do verão. Mesmo que a coca vá ficando quente e sem gás e com gosto de xarope... Se eu fosse meio pepsi, acho que eu aceitaria o primeiro que dissesse “pode ser” e aceitaria as pedras de gelo e o limão e até uma vodka vagabunda. Talvez eu fosse feliz assim, meio pepsi, pode ser. Talvez eu não tivesse tanto medo de pegar o telefone e desejar “feliz natal” como uma desculpa besta pra dizer “oi”. Talvez eu estivesse preparada para a rejeição, e talvez por isso eu não fizesse tanta coisa errada. Talvez eu até conseguisse pedir desculpas pelo e-mail assassino e dizer “tudo que eu quero é te encontrar”, eu só queria isso, desculpa, fiquei com raiva por não estar rolando; eu fui uma garota mimada esperneando porque não tinha o que queria na hora que queria, mas eu ainda te quero. Não consigo. Não vou nem ligar. Já disse que tenho o dom de fazer tudo errado? Um dom não pode ser desperdiçado.

Saldo do ano

Uma gastrite, uma pneumonia, uma amigdalite>Dezenas de apresentações de poesia>Um livro lançado>Seis performances>Um boneco inflável>Um processo coletivo de criação em teatro>Uma dúzia de novos amigos>Dois casamentos de amigos antigos>Dois amigos grávidos>Um carro mofado>Dois pés na estrada>Uma câmera roubada>Vários livros lidos>Novos CDs>Uma irmã na Europa>Uma casa desfeita>Dois sapatos de salto>Um rádio pro carro>Uma música na cabeça>Um coração partido.

fragmentos

e esse caco no meu pé
cicatrizou assim, esse caco dentro
sempre que eu piso dói um pouco
e essa minha mania de andar descalça
e me quebrar com facilidade
e estar bêbada demais para sentir os cacos entrando
e não saber tirá-los
cicatrizar com eles
e doer a cada passo
cortando a carne de dentro

...

desordenadamente,
e sem nenhuma intenção de ninho
tem um pica-pau cavando buracos
dentro do meu peito

...

e esse tigre afiando as garras nas minhas veias?
como é que ele veio parar aqui?

...

felinos são assim mesmo
afiam as unhas em qualquer lugar
pé da cortina, braço do sofá, boca do estômago, tanto faz
só a gente que sabe onde dói mais

...

mas por que esses peixes vêm se suicidar na minha cabeça?
ficam pulando pra fora do aquário
na minha cabeça
você já viu um peixe morrendo por falta d’água?
é assim mesmo.
só que na minha cabeça

...

metáforas de animais são tão infantis!
quase tão ruins como cacos no pé
subterfúgios pra falar de solidão
a solidão é.
é...
uma garota fumando um cigarro sozinha na véspera de natal
e escrevendo sobre tigres, aves e peixes
porque é mais bonito que falar de ratos, pombos e lagartixas
porque já não se pode falar de amor.
(esse caco no meu pé)

podia ser uma inscrição de pára-choque de caminhão

eu vejo o futuro dentro de um copo de cerveja
começa sempre gelado
termina sempre vazio
(e quando esquenta, a gente joga fora)

18.12.10

Sobre Papai Noel, o meu carro da Barbie, e esses anjos incompreendidos que não me largam

Essa época do ano me deprime um pouco. Houve um tempo em que eu montava árvore de Natal. Já teve até um tempo que eu acreditava em Papai Noel. E eu me senti fodona quando desconfiei que não existia e disse pra minha irmã (mais velha): Aninha, eu acho que é nossa mãe que compra os presentes, vamos investigar? E saímos as duas detetives revirando a casa, enquanto a minha mãe estava no trabalho, até descobrir em cima do armário umas caixas escondidas onde estavam nossa casa e carro da Barbie! Aninha tinha pedido a casa. Eu, o carro. Engraçado que isso tem a ver com o que aconteceu com a gente. Aninha, assim que pôde, foi montar a casa dela. Eu comprei um carro, e só agora que tô procurando apartamento. Acho que eu sempre optei mais pela mobilidade do que pelas coisas fixas. As nossas opções na vida têm sempre muito a ver com a nossa personalidade. Eu prefiro ir e vir do que ter estar. Eu sou assim, esse ser em trânsito. Mas nessa época é tudo engarrafamento e eu acho isso um saco. Engarrafamento de carros e de pessoas. Eu que não saio pra comprar nada em shopping, uma sucursal do inferno! E tudo enfeitado, e todos forçando sorrisos, porque é quase uma obrigação essa coisa de “feliz Natal”. Um monte de família feliz tentando disfarçar as mágoas de toda a vida e preencher a ausência de um ano inteiro com peru de Natal e farofa, com tender e maionese. Até que depois de algumas cervejas ou taças de vinho alguém lança aquele comentário mortal e infalível para o constrangimento de todos, e o mal estar se instala. Sempre rola um comentário infeliz pra azedar aquela felicidade forçada engolida com a seco com nozes, castanhas e avelãs. Era bom acreditar em Papai Noel. Sem dúvida que era bom. Era bom acreditar em Deus. Isso também era bom. Mas só porque eu não tinha medo do inferno. Acho que sempre achei o capeta um cara bacana, uma espécie de anjo incompreendido. Ele era uma pouco mais parecido comigo. Mas era bom acreditar na possibilidade de Deus. Eu perdi a minha fé nas coisas impossíveis. Só acredito em anjos incompreendidos. Eu os vejo o tempo inteiro. Eles choram no banheiro e contam histórias de mulheres que se foram para o garçom do bar. Eles acordam no meio da madrugada assustados com um sonho bom e reviram a geladeira atrás de uma lata de cerveja. Eles se vestem de Papai Noel por alguns trocados pra comprar cigarros e uma dose de qualquer coisa forte, enquanto enganam crianças tolas que ainda acham que podem conseguir o que querem com uma cartinha para o Pólo Norte. Eles sabem que não conseguirão o que querem, não têm a quem pedir, mas continuam tentando. Esmurrando mesas e quebrando cinzeiros na parede. Chorando convulsivamente como a criança que não ganhou seu presente. Esquecida por Papai Noel, sem o colo de Deus, sem as mãos dos pais. Anjos incompreendidos sem inferno e sem céu, largados no mundo. Eu conheço essa gente. Tem a ver comigo. É o tipo de gente que se deprime um bocado essa época do ano. Sente saudades de uma época em que acreditava. E põe a culpa nos engarrafamentos.

17.12.10

O amigo poeta Bruno Borja assistiu nossa apresentação ontem na UNIRIO e escreveu um poema inspirado na coisa. Adorei!

O MINOTAURO PÓS-MODERNO

 Liberto de seu casulo –
Invólucro sintético anticoncepcional –
O minotauro pós-moderno ganha as ruas
Causando perplexidade e admiração
Transgride a luz dos postes
Penetrando o lado oculto
De uma nova geração:

Metade mulher

                         Metade coisa

Desnuda a moça liberdade
Tapada a vergonha material
Peitos de virgem
E pernas de pau
Dão à vida
               (de uma vez só)
Uma ninhada de ninfas
Cobertas de pó

Bruno Borja
16/12/2010

15.12.10


Concepção e realização: Beatriz Provasi, Camila Bastos, Dai Bonfim, Julia Cartier, Fernanda Paixão, Fernando Codeço e Stefanie Bulgari

13.12.10

POETA OCULTO 2010


O negócio é assim: rola um sorteio, aí você tem que escrever um poema pra pessoa que você tirou. Esse ano eu tirei o Fernão, que é um dos meus amigos mais queridos, e no mesmo dia já tava com um poema pronto pra ele! Tinha que ficar segurando até o dia da entrega/leitura..., que foi ontem. Numa terça-feira Fernão me liga no meio da tarde e pergunta: posso ler um poema? Eu digo leia! Ele vai lendo e eu vou me reconhecendo. Ele pergunta gostou? Eu digo amei! Ele diz que bom, é pra você! Ele foi escrever um poema pro poeta oculto dele e saiu um pra mim, e eu fiquei dando muita risada por dentro, feliz feliz com a coincidência, que eu não podia revelar pra ele até ontem. Então assim foi, eu ganhei dois poemas. Um do Fernão e outro da Laurinha - minha linda! Aí na véspera da parada Juju me fala, Bia, tive uma idéia, o Tavinho tirou o Arnaldo e como ele não vai poder ir, a gente faz um poema pro Arnaldo, que tal? Eu digo ótimo! Segundos depois já começo a escrever um... Então foi assim, eu dei dois poemas e recebi 2, fechou perfeita a contabilidade! E a festa da Madame Kaos foi um estouro! (pra vocês sacarem como estou ficando velha, resgatei esse termo antigo "estouro”, que segundo a definição do dicionário significa "foda pra caralho") foto da festa:


seguem abaixo os poemas, os que fiz e os que recebi.

MENINO ATRAVESSANDO O HOMEM
para Fernão Monteiro

menino atravessando o homem
de sustos e travessuras
de risadas largas, sem censura
menino atravessando o homem
de inocência sincera
das verdades mais puras
atravessando com o homem
todas as ruas
lhe dando a mão
lhe conduzindo por vias seguras
menino atravessando o homem
seus eternos olhos de descoberta
sua alma de transparência
sua implicância de taurino
que diverte toda a turma
com esse jeito de menino criado na rua
jogando bola, soltando pipa,
e brincando de vento pra levantar a saia das meninas
- eu, não! foi o vento...
diria ele com um sorriso faceiro
e ninguém lhe creria menos sincero
menino atravessando o homem
guloseimas guardadas nos bolsos da alma
e um coração cheio de pipocas estourando
menino atravessando o homem
com o sorriso mais puro
de quem não se contaminou pelo mundo
menino atravessando o mundo
a passeio...

me dando a mão no meio da tarde
para uma volta em todos os parques
me dando a mão no meio do escuro
me dando a mão no meio de lágrimas e soluços
me dando a mão no meio da tempestade
menino me fazendo sorriso no meio de medos e dores
me dando a mão, o ombro, um poema
um brinquedo colorido, um doce açucarado,
um desenho animado, um motivo pra risada
me dando tudo isso que ao mesmo tempo é uma coisa só, que é tudo:
amizade.
...

GENLTEMAN ROCK-MAN
para Arnaldo Brandão
(poema para ser lido com a base e o refrão da música "Cheira a confusão", de Arnaldo Brandão)

10 da noite ele abre a porta do carro pra ela entrar
com um sorriso de dilacerar corações
10 e cinco ela puxa um cigarro depois de afivelar o cinto
ele tava sacando e já chega com o isqueiro

10 e meia já tem um rock pulsando na sua veia
ele manda a letra, ela cai
dribla um, dois, três marmanjos que se dizem mais
e já tá lá, na cara do gol

onze e pau ele já tem um poema na ponta da língua
língua na boca, boca na língua, língua na boca, boca na língua
vai na ginga,
goleando...

vai rolando um, dois, três rock and rolls
nos acordes da noite
meia-noite ele encontra sapatos de cristal
largados no asfalto
guarda um, dois, três, mais...
príncipe das cinderelas da nigth
não nega majestade

duas da manhã, ele estende tapetes vermelhos
na orla dos bares
elas passam pra lá e pra cá desfilando
e ele lá, só olhando...

logo logo ele saca a guitarra
engatilha os pedais
e dá tiros pro ar
é o rei do pedaço
e ele tá lá, só tocando...

as princesas descabeladas gritando gritando gritando
e ele lá, só tocando...

mata uma, duas, três, mais
só tocando...

acena com um olhar de descabelar corações
e elas ficam na sua, na sua, na sua
elas ficam na sua
e ele lá, só tocando...

4 e tal, ele diz que elas são totalmente demais
lindas como neném, lindas como um robô
gatas de Avalon, que delícia e que tais
elas não conseguem se controlar
e ele lá, só tocando...

amanhece ele diz “adeus”
elas dizem “não”
ele diz “já foi”
elas dizem “mais”
ele diz “me deixa em paz, doçura”
“me deixa em paz, doçura”
ele diz “doçura”
“até mais”
só tocando...
“doçura”
só tocando...
“doçura”
“até mais”

Não sei não, não sei não, não sei não (3x)
Cheira a confusão


...

para Beatriz Provasi
 
Quando suas asas batem
A lágrima voa
E dorme nas cinzas da causa
É o que mantém a liberdade
O corpo-descalço
A mente sem chave
E o coração com fome
Não procura
Se vai como vento
E invisível  aparece
Tão bela é a timidez
Que o parto para a extroversão vem cravado
Vivo
Solto
Humano
Incorrigível mulher
Na estrada que carrega
Beba da vida
E não terá fim.
 
Laura Cravo 

 ...
 
Apresentação
para Bia Provasi

sou livre
faço meu rumo
meu tempo
meu espaço

me prendo aos afetos
me dão conforto
energia
prazer

liberto meus gestos
aceno
aponto
agarro

não erro nem acerto
eu faço
eu amo
eu pago

não fico com restos
eu faço
me prendo
sou livre

Fernão Monteiro


ps: procurando um vídeo da música "Cheira a confusão" pra postar aqui, descobri que o safado do Arnaldo postou no youtube esse do show do Hipodromo que tem a minha participação e não me avisou. então lá vai...

10.12.10

Um chazinho prum sono tranqüilo, só isso; ou I love you Alice; ou Eu devia estar sonhando; ou Que sono de mim mesma!

Eu já ia dormir... dispensei o convite de um amigo pro bar, pq eu tô virada - uma baita insônia, e eu saí às 8 da matina e só cheguei em casa quase meia-noite, morta de cansada. Eu já ia dormir, mas fui abrir a geladeira (eu tenho esse hábito de ficar abrindo e fechando a geladeira na madrugada, mesmo que ela esteja vazia, como se de uma hora pra outra fosse brotar uma surpresa dentro). Pois bem, eu fui abrir a geladeira e a surpresa me brotou na forma de uma garrafa de cerveja. Resolvi bebê-la. Antes de dormir. Como se fosse um chazinho prum sono tranqüilo.


Resolvi beber e escrever alguma coisa. Mas que merda que eu tô escrevendo?! Que grande merda! A quem interessa que eu tava virada e fui abrir a geladeira antes de dormir, e que eu tenho esse habitozinho idiota, e achei uma cerveja e resolvi beber? Foda-se, né? Quer beber bebe e não me enche o saco. Mas me deu vontade de escrever qualquer coisa que não fosse poema. Qualquer coisa que fosse só uma garota sozinha na madrugada caindo de sono, detonada, a fim de tomar uma cerveja antes de dormir e dizer pra alguém que fez essa merda. Em vez de dormir e ter a possibilidade de sonhar com alguma coisa mais interessante, um filme do Buñuel ou umas tomadas do Bergman. Essas imagens surrealistas que inspiram os nossos sonhos. (ninguém me prova que é o contrário!)


Ou então um daqueles sonhos eróticos que a gente acorda gozando e vai se masturbar pra prolongar o orgasmo. Quem é que nunca fez isso? É bom pra caralho! Pena que eu nunca vou ter a sensação de acordar de pau duro, que também deve ser muito foda. E isso não tem nada a ver com esse papo de inveja do falo. É pura curiosidade física. Aliás, eu já sonhei que eu tinha um pau e que eu me masturbava. E não espero que ninguém "interprete" isso. Mas eu sonhei que tinha um pau e que eu me masturbava e foi muito esquisito acordar gozando sem o meu pau. Eu adoro os meus sonhos! Mas em vez de ir lá tentar ter um, vou encher meu copo que esvaziou. Tá bacana levar esse papo comigo e a cerveja tá nas últimas... será que eu peço mais no bar da esquina? vou pedir. (...) Pronto, de quebra vem tb um bolinho de bacalhau! Adoro bares da esquina e penso que eu seria muito infeliz em Brasília. Também em cidades pequenas e pacatas sem delivery às 2h30 da madruga. Seria decididamente muito infeliz. Então vou parar de reclamar da vida nos meus poemas. Afinal, o que são esses homens que não me querem? Uns babacas! Um delivery na madrugada me faz muito mais feliz. O que eu quero, do jeito que eu quero, na hora que eu quero, eu pago e tá tudo acertado. Bom, garotos de programa tb são assim.


Mas eu nunca contratei um. Ainda. Não tenho muito essa tara. Viajo mais em travesti. Tb nunca peguei um. ainda. Mas acho a maior viagem a possibilidade de ficar com alguém que é homem e mulher ao mesmo tempo. Quer dizer, no caso, uma mulher me comendo com um pau, de verdade. Eu tenho essa curiosidade. O problema é que os travestis, pelo que eu sei, gostam de homem, então nenhuma ia querer dar pra mim. Uma pena... Minha irmã morava numa rua que era ponto de travestis e tinha umas que eram mais femininas do que eu, lindas! De vez em quando eu batia papo com elas. Mas eram todas amigas. Não tavam nem aí pra mim. Só na política de boa vizinhança. E pensar que eu comecei esse texto sem ter o que dizer e tô aqui revelando as minhas fantasias sexuais mais bizarras! E nem posso culpar a cerveja. Só agora que eu terminei a primeira garrafa, e isso pra mim não é nada. É isso o que me revolta nessa onda de lei seca. Eles têm que medir a capacidade da pessoa de dirigir, se tem reflexo, equilíbrio e tal, e não o quanto ela bebeu. Cada organismo reage de um jeito, e o meu costuma ser resistente. O que não impede de terem me mandado uma multa de quase mil reais só pq eu me recusei a soprar o bafômetro, quer dizer, sem nem saber se eu tinha de fato bebido ou não. É claro que eu não paguei, nem tenho dinheiro pra isso. As leis estão todas erradas. Eu dirijo muito mal se eu fumo um baseado, mas não tem bafômetro pra isso. Tudo bem que é proibido mas todo mundo fuma e todo mundo sabe que todo mundo fuma e essa merda já devia estar liberada há 10 mil anos atrás (aliás, há dez mil anos eu acho que estava...). Tendo consciência das minhas limitações, se eu fumo eu não pego o carro, se eu pego o carro, eu não fumo. Eu sou um exemplo de responsabilidade ao volante! Falta reconhecimento... Mas um dia eu ainda vou ser reconhecida! Quando eu morrer, talvez. É sempre assim com os poetas. Como diz o título de um livro oral que eu criei com uns amigos: "Poeta bom é poeta morto - O transtorno passa, a obra fica".


A gente a caminho de Paraty em 2008, uma turma no meu carro, eu ia lançar meu primeiro livro na FLIP, e rola esse papo de poeta só ser valorizado depois de morto e o Gean diz que eu iria morrer e ele herdaria os meus livros e ficaria rico. Daí a gente começa a criar uma história, vários poetas sendo misteriosamente assassinados, uma história muito louca tendo como personagens todos os nossos amigos... a maior viagem! E aí num trecho da estrada um engarrafamento, um túnel em obras, com uma placa: "O transtorno passa, a obra fica". Porra! Até fotografamos. Virou o subtítulo desse livro imaginário. Esse livro foi lançado oralmente naquela FLIP, com várias versões, vários novos capítulos sendo improvisados, novos personagens entrando na história pra matar ou pra morrer, imortalizados. Pena que a gente não tinha um gravador. Uma pena... Era um livro bem divertido! Caramba, como é que eu vim parar aqui? O que me remeteu a essa história? Deu uma saudade danada dessa época e desses meus amigos. O Gean tá na Suécia e eu não vejo faz mais de um ano. Ele agora deve estar congelando. Mas pelo que eu sei, ele tá bem feliz por lá. E tb sente saudades. Talvez eu devesse encerrar assim, com essa saudade gostosa e essa lembrança divertida. Mas é que eu pedi mais cerveja, mais 2 garrafas. O que eu vou ficar fazendo sozinha com elas? Prefiro me acompanhar da lembrança de amigos e de momentos divertidos. Deixa eu pensar mais um... Por que é sempre mais fácil lembrar dos momentos tristes do que dos alegres? um saco, isso! Me bateu agora uma certa melancolia - será que eu tô indo da fase eufórica pra depressiva do álcool? Não, muito cedo pra isso. Já aprendi a não menosprezar a minha melancolia com TPMs e alcoolismos... Essa coisa de estar sempre sorrindo é coisa de comercial de margarina.


Com a gente não é assim, né? Tem hora que bate mesmo uma tristeza de estar sozinha tomando uma cerveja e fumando um cigarro e escrevendo num blogue e lembrando de amigos distantes e alegrias perdidas. Bate uma tristeza de lembrar de ausências. Um livro perdido na efemeridade da fala... Amigos fora do alcance dos nossos abraços... do tato. Aquelas palavras que a gente preferia não ter dito, e tudo o que precisávamos dizer e calamos. Todo o nosso medo de ganhar. Medo de perder? Não se perde o que não se tem. Nosso medo de ganhar e toda a paralisia. Tristeza de ausências. Faz parte da vida. Ninguém aqui tá dentro de um comercial de margarina. Quem bom, né? Senão a gente só ia comer pão e torradas. E ninguém é feliz só com pão e torradas. A gente precisa de um maldito torresminho que faz o nosso paladar delirar e o nosso colesterol ir às alturas! Ninguém é feliz com zero açúcar, zero calorias. Essas coisas que tentam nos empurrar com sorrisos. Eu prefiro chorar sobre um bolinho de bacalhau - é mais digno! Ou ter uma felicidade incontida com uma barra de chocolates! Qualquer coisa que seja realmente real, corporal, sentida, e não simulada. Já cheguei num ponto que eu não sei como terminar esse texto, porque qualquer coisa que eu escreva vai ser conclusiva, e eu não tenho conclusões pra nada. Eu não tenho conclusões previamente estabelecidas, emoções previamente estabelecidas, nem um fim de noite previamente estabelecido pelo meu "vou dormir" antes de abrir a geladeira. Acho que a vida é assim mesmo. Um deixar-se levar pra ver onde vai dar, e às vezes não dá em nada. Mas e o caminho percorrido? É ali no meio que alguma coisa acontece, eu acho. Ali no meio entre a felicidade e a melancolia. Entre o dito e o não dito. Entre o ir dormir e o abrir a geladeira. Uma faísca.

9.12.10

me calar me calar me calar me calar - eu preciso!

deixar o silêncio entrar violento
derrubando portas e certezas
gritando alto todas as ausências
todos os preenchimentos irregulares
desmoronando encostas e destruindo abrigos
penetrando os poros
e promovendo uma série de contrações musculares
involuntárias
deixar o silêncio entrar, violentíssimo
com o pé no acelerador e a buzina calada
causando atropelamentos
mentes atormentadas
coisas presas nas ferragens
deixar o silêncio dar seu grito
mandar a mensagem
- eu preciso me calar -
(entrelinha pouca é bobagem)
tem gente que só entende essa linguagem
do não-dito.

princesa-punk (segunda versão)

decadence avec elegancearrastando-se pela madrugada
cabelos despencados na cara
a alma escorrida pelos bueiros
e um sono de 100 anos
como só as princesas
e os mortos


a sarjeta lhe cai muito bem
quando você sai de salto
você aos tropeços
entre um uísque bom
e um cigarro barato

cartões de crédito como navalhadas
e você cortando os pulsos da madrugada
princesa punk, rainha de funkcata os destroços e compõe tua alegoria
eu conheço as tuas maquiagens
rímel borrado:
um soco na sua cara
batom vermelho:
hematoma na sua risada
exibe o teu ouro de ferro velho,
as tuas grifes, tuas marcas,
na pele, tuas cicatrizes
todo o teu luxo de diva fracassada
celebridade esquecida

nas páginas de uma antiga revista
e você não consegue virar as páginas


você revirada, vira-lata
com uma coleira de diamantes
reluzindo
a sua dor

decadence avec elegancetoda a tua pose de princesa de conto de fadas
largada na calçada
o meiofio é o trono do teu reino
decreta tuas leis e vai embora
o asfalto é teu tapete vermelho
a noite é tua coroa
antes que amanheça
decreta tuas leis e vai embora

7.12.10

princesa-punk

luxo-lixo, lixo-luxo
decadence avec elegance
a sarjeta lhe cai muito bem
quando você sai de salto alto
você aos tropeços
entre um whisky bom
e um cigarro barato
decadence avec elegance
cartões de crédito como navalhadas
e você cortando os pulsos da madrugada
há espelhos em toda a parte
e você revirando o lixo em busca de identidade
cata os destroços e compõe tua alegoria - teu traje de gala
retoca a maquiagem - o rímel sempre estará borrado
é o hematoma de um soco na sua cara
é um hematoma seu batom vermelho
é um hematoma a sua risada
exibe teu ouro de ferro velho, tuas grifes,
tuas marcas, na pele, tuas cicatrizes
todo o teu luxo de diva fracassada
celebridade esquecida nas páginas de uma antiga revista
e você não consegue virar as páginas
decadence avec elegance
toda a sua pose de princesa de conto de fadas
largada na calçada
e você revirada, vira-lata
com uma coleira de diamantes
reluzindo
a sua dor
decadence avec elegance
você sabe doer sorrindo
e cair sem descer dos saltos
o meio-fio é o trono do seu reino
senta e chora, sem derramar uma lágrima
decreta tuas leis, e vai embora
o asfalto é teu tapete vermelho
a noite é tua coroa
antes que amanheça
decreta tuas leis e vai embora
decadente, elegante
puro luxo, puro lixo
cabelos despencados na cara
alma escorrida pelos bueiros
e um sono de 100 anos
como só as princesas
e os mortos.

5.12.10

FESTA DO KAOS

Aniversário de 3 anos do grupo de poesia Madame Kaos
(Beatriz Provasi, Juliana Hollanda e Marcela Giannini) +
Lançamento do DVD do show Amnésia Programada, de Arnaldo Brandão.

Com Madame Kaos, Arnaldo Brandão, Tavinho Paes, Chacal, Augusto de Guimaraens Cavalcanti, Lage&Lake - Os Pedros, Caô Sam, Shiva Samba, Joka J./Gean Q. (vídeo), Oswaldo Coyote (gaita), Marcello Magdaleno (sax), Marcelo Chaves (guitarra), Moana Mayall (vídeo-arte), Layana Lossë (photo-bar), e mais quem pintar por lá... encerramento com o poeta oculto 2010.

Poesia, música e instauração do kaos!



E quem diria que aquela apresentação despretensiosa ia dar nisso?!

No dia 10 de dezembro de 2007, no palco do Espaço Cultural Sérgio Porto, eu, Juju e Marcela falávamos uns poemas nossos, intercalados. Era o último CEP 20.000 do ano, e o Chacal sugeriu que a gente fizesse uma apresentação juntas. Anunciou assim: “Bia, Juju e Marcela”. Ainda não éramos Madame Kaos. Ou éramos? Sim, a gente já era um grupo sem saber e o Chacal percebeu isso e nos juntou no palco. Por isso eu costumo dizer que ele é o pai da Madame Kaos. Aí veio o Tavinho Paes e virou padrinho, e virou parceiro, e virou editor dos nossos livros e promotor das nossas farras, na casa da Marcela, no terraço da Layana, no estúdio do Arnaldo, em qualquer lugar do mundo que a gente ache espaço. Agora que a gente faz 3 anos de grupo, toda a minha reverência é para esses mestres, na arte da palavra e da produção de acontecimentos, que eu tenho a honra de ter como amigos. E todo o meu amor pra eles e pra tantos outros que fazem parte da nossa história... poetas que se fizeram presentes nos nossos eventos, músicos que tocaram com a gente nos nossos shows, fotógrafos que registraram os nossos momentos, amigos que nos convidaram para apresentações... etc etc etc. É tanta gente que não cabe no flyer da festa. Betina, Maysa, Fernão, Adriana, Karla, Thereza, João José, João Luiz, Guto, os Ratos, povo do CEP, do Corujão, etc etc, tanta gente, tantos amigos, que não dá pra citar todo mundo. É pra isso que a gente faz festa, pra tentar reunir essa galera! Mesmo quem tá à distância, como o Gean, já prometeu dar um jeito de participar, e eu tenho certeza que se ele gritar lá da Suécia “bucetas poéticas!!” com toda aquela sua verve, como costumava fazer nos Versos da Meia Noite, a gente vai ouvir do lado de cá. E a gente vai sorrir, com ele e com todos os outros amigos. E vai beber todas, e falar poemas e curtir as músicas e instaurar o kaos! A gente vai se divertir. Que é pra isso que a gente veio ao mundo, eu tenho certeza.

4.12.10

o flyer tá bom?


tô perguntando pq ainda não espalhei a divulgação, então ainda dá pra fazer ajustes. se vc puder me ajudar com a sua opinião...

stops imaginários para canções imaginárias

Eu não quero mais trilha sonora pros meus abismos.
Eu aqui. Quebrando discos.
E você cantarolando distraído uma canção de amor dentro da minha alma. Procuro o stop sem achar botões para apertar.
Stops imaginários para canções imaginárias.
Como se desliga o coração quando ele insiste em doer mais alto?

30.11.10

Os tigres à solta

Amanhã tem o lançamento do livro do meu amigo Augusto, com esse título que eu amo: "Os tigres cravaram as garras no horizonte". segue o flyer:


E um texto do primeiro livro dele, "Poemas para se ler ao meio-dia", que eu gosto pra caralho: (ele fez pra mim, embora ainda nem me conhecesse - essas coisas acontecem...)

CAPA DE ABISMO

Veste teu manto de loucura e sai pela noite. Sai pela noite porque tudo é tão misterioso. Que todas tuas ilusões perdidas são só algum brilho desvairado. Ri do seu próprio ser atropelado, mas que a noite é tua. A barba que te cerra a cara é o destino que veste dentro de cada olhar. Como uma estrela desgovernada. Teus medos, tua parafernália de exageros. Que a noite é tua loucura, tuas utopias despedaçadas. De claridades noturnas você sai por aí como um lobo atrás da caça. Teus segredos se desfazem, mas tudo permanece em aberto. E você nem nota que a sarjeta é tua liturgia bela pulsação de delírios. Tira essas roupas que incomodam tua existência e anda com teus pés descalços. Que tudo que sobrou foi uma música tocando baixinha, uma música que talvez nem exista mais. Pisa de leve sobre tais ruínas. Quem sabe assim pelo menos a noite possa parar de morrer. Coloca tua máscara, anda com tua classe de príncipe sobre teu reino depredado. Tira esse relógio da parede, utiliza teu relógio imaginário. Recolhe tuas migalhas, veste tua capa de abismo. Veste teu manto de loucura e sai pela noite. (e quem sabe desse jeito um dia a noite possa parar de morrer)

Augusto de Guimaraens Cavalcanti,
em "Poemas para se ler ao meio-dia"
Rio de Janeiro: 7Letras, 2006

hey, Jack!

Hey, Jack, o mundo é mesmo esse carrossel de estradas desencontradas pra lugar nenhum. Fica frio. O trem vai passar fora dos trilhos das nossas mentes fazendo a curva para o infinito. A gente se esbarra naquela esquina que não consta no mapa. A gente conhece os caminhos de tudo que não é mapa, atalho ou trilha. Os caminhos mais perversos, como o sorriso sádico das estrelas do deserto. Já passamos por aqui, estamos dando voltas. A estrada é sempre essa desesperança. Mãos nos bolsos, cigarro de palha no canto da boca, olhar esquecido no céu ou no chão. Tanto faz, tudo são distâncias. Ajeita a aba do chapéu do pensamento e segue o rastro da tarde. O rastro dos lençóis brancos nos varais da tarde. Vara as noites em busca de acenos de adeus. Todas as mãos andam muito ocupadas em colheitas de grãos de ilusão perdida. Vara as madrugadas. Nenhuma mão te acena adeus e você segue indo embora. Há muito já percebeu que teu lugar é do lado de fora. Hey, Jack, o mundo é assim mesmo, esse avesso. Vísceras expostas. Essas aves de rapina são o canto dos teus pássaros, o eco nos teus tímpanos. Você não vai dançar, Jack? Há muito já perdeu os passos nos pés do abismo. Tua música é um vrruuummm de carros na pista. Um crash de batida beat. vrruumm crash beat. Dança, Jack! vrruuummm crash beat, Jack dance. A pista te chama. A pista te vrruuummm. Leva longe, fora, out, Jack. vrruummm crash beat, Jack dance. Out, Jack. Leva longe, fora, out, Jack. Jack dance. Hey, Jack, o mundo é mesmo esse som de acordes desencontrados pra lugar nenhum.