31.8.06
a festa ou ensaio de orquestra
mais a música soprada pelo aparelho de som
e uns tantos ruídos de copos, e brindes, e passos,
e o vento assobiando na janela
e o trânsito por baixo transava com tudo
seu som era um sopro de fumaça
e um glub, glub no copo de chopp
seu som discreto atravessou a ruidosa sala
se embrenhou pelo corredor
e se trancou no banheiro
abafando aquela orquestra de gente em festa
silenciou
afundou a cara na água da pia
encarou o espelho
olhou em torno – nunca vira um banheiro tão grande!
fumegante, deixou-se absorver em si tendo a banheira como leito
molhar o rosto não disfarçava
secar o rosto já não adiantava
se encheu de lágrimas afundando na banheira
se afundou em pensamentos enchendo de si aquele banheiro enorme
quando bateram à porta,
molhou o rosto, secou os olhos, deu descarga e saiu
pegou outra cerveja na geladeira
acendeu outro cigarro
e soou seu som naquele ensaio de orquestra
fosse Fellini o diretor, restaria nada da festa!
mas em ruína, ali, só ela
a festa continuava...
29.8.06
28.8.06
Joana
Clarice
27.8.06
Pâmela
Chico Buarque
Pâmela florescia com as primaveras, ardia nos verões, secava no outono, caía no inverno. Ela crescia com a lua, se enchia e minguava até fazer-se invisível. Seu sorriso era um pranto inconsolável; suas lágrimas, de tanto rir. E de tanto andar sem chão, aprendera a levitar. Andava fora de si. E podia ver-se entre os passantes, entre as passistas, em cada pista que pisava aquele corpo abandonado. Aquele corpo que não perdia o rebolado. Aquele corpo que se perdia. Pâmela via tudo lá do alto, lá de baixo, lado a lado, nunca no mesmo lugar. Pâmela, que não cansava de se procurar, só se encontrava fora de si. E quando se achava por fora, caía em si. E despencava em oito abismos de infinitos. E quanto mais lhe faltasse o ar, mais cigarros tragava para não sufocar. Só bebia para se embevecer. Só se embriagava de dor e prazer. Só, bebia. Só, se embriagava. Sempre só e ainda mais só quanto mais acompanhada. Porque Pâmela... Pâmela só levitava. Andava fora de si, a vislumbrar tudo e todos e a si mesma com certo estranhamento. Todos falavam de tudo. Pâmela calava. Porque tudo ecoava dentro de si. Nadava, nadava, nadava no nada. Ela estava distante, léguas e léguas daqui. Tão distante que poderia jamais encontrar o caminho de volta. Suas migalhas que deixara como rastro foram devoradas por aves famintas. Estava esmigalhada. Quando encontraram o corpo, tremia no frio mais frio do inverno. Era uma noite de lua nova.
23.8.06
Ratos, CEP, 1/2 Noite: Eu vou!!!

RATOS DI VERSOS....
caia nessa ratoeira!!!
Esta quarta, dia 23/08
No Beco do Rato, no início da Joaquim Silva, próximo à termas Rio Antigo, Lapa.
A partir das 19:00
Com Dan Soares, Dudu Pererê, Maristela, Karluxo, Maurição, Dalberto, Juju, Chacal e et cétera e tal...
MANIFESTO RATNIK
Nós, as malditas criaturas subterrâneas abandonadas e esquecidas através das eras.
Nós, que há tanto tempo ansiamos pela luz do sol, roendo silenciosamente o rancor retido em nossa espinha
Nós, os absurdos habitantes da meia-noite, os invisíveis invasores do amanhã
Não estamos sós
Nós temos voz
Diversos, Ratos di Versos,
Subam pelas paredes e ratazanem a paz das famílias
É a hora e a vez
DO PULO DO RATO!!!
Dan Soares
TERÇA tem...
CEP 20.000
16 ANOS
DE POESIA E PERFORMANCE
DE ALTA VOLTAGEM E VERTIGEM
DE ALEGRIA E CONFUSÃO
DE RISOS E LÁGRIMAS
DE BEIJO NA BOCA DA INVENÇÃO
DE ROCK E MUITO GROOVIE
DE DANÇA E VÍDEO E AZARAÇÃO
DE SILÊNCIOS E BARULHOS
DE VERSOS RIMAS E APLAUSOS
ESPAÇO CULTURAL SÉRGIO PORTO
TERÇA – 29 DE AGOSTO
DE 18 ÀS 22 HS
R$6,00 (meia: R$3,00 /
até 18 hs = R$1,00)
18:00 = CONTATOS IMEDIATOS DO SEGUNDO GRAU:
COLÉGIO PEDRO II APRESENTA:
NADA CONTRA NADA (banda)
GABRIEL HITTER, GUILHERME CELESTINO (poemas)
CAROL BRUNELLI, ROMÃ NEPTUNE (cena)
19:00 = APOSTAS
19:00 = DOIDIVINAS (banda)
19:30 = QINHO E OS CARA (banda)
20:00 = DIGNOSSAUROS
20:00 = OS OUTROS (banda)
20:30 = CHACAL E MIMI LESSA (performance)
20:40 = MAURIÇÃO E CARLUXO (textos)
20:50 = TAVINHO PAES E ARNALDO BRANDÃO (cena)
21:00 = ACHADOS & PEDIDOS
21:00 = FLU ( banda)
21:30 = PATRÍCIA CARVALHO (performance)
21:40 = DUDU PERERÊ E DANIEL SOARES (cena)
21:50 = DANSA DENSA
22:00 = GRAN FINALE
???????????????????????
E na QUARTA...
VERSOS DA 1/2 NOITE
20.8.06
O ritual
Abaixo-assinado online pelo Cinema Icaraí
A balada
19.8.06
Microcontos
O suicida sádico
Hesitou. Calculou.
E jogou-se sobre a multidão, levando o coro consigo.
17.8.06
Salto alto

14.8.06
FLIP: o OFF do OFF (ou, simplesmente, ON)
8.8.06
silêncios

silêncios que eu insisto em prolongar
e me apavoram
silêncios de eternidade
que podem se impor a qualquer segundo
silêncios de voz travada e respiração presa
silêncios de contenção
silêncios-represa
quando um silêncio assim me toma
sei que estou prestes a explodir
cá dentro ouço tudo ruir
uma orquestra infernal estremece meu ser
cá dentro uma soprano se exercita
com toda a sua potência vocal
cá dentro se parte um vidro de cristal
vozes
que são as minhas
e me dizem como agir, o que pensar, o que falar
são muitas vozes que se contradizem
soam tão alto que desorientam
tanto me ecoam que me deixam vácuo
se impõem tão forte que me largam fraca
quando serenam
já não ajo, já não penso
quando elas calam
já não falo
7.8.06
"Ao homem que não me quis"

Mas minha paisagem não é tão bela quanto a dela. Na verdade, não passa desta tela. Pois noutro conto ("Mulher do povo"), Ivana escreve: "Os livros são a minha salvação. Quando tudo ao redor se torna insuportável, enfio a cabeça dentro deles e espero o temporal passar." Foi o que fiz hoje. Passei a tarde lendo "Ao homem que não me quis". E foi o suficiente para querer mais, para querer ler todos os livros desta mulher! Os contos são todos maravilhosos! Gostei especialmente de "Da difícil vida das rêmoras". Gosto de ser surpreendida. E o conto tem umas reviravoltas magníficas até o final. Mas o que dá título ao livro é também uma delícia, e todos os outros. Não teve um, por mais curto e grosso que fosse, de que não tenha gostado. "Por Deus" são apenas duas frases: "Tira essa faca do meu peito e enterra o pau. É muito mais confortável." Caralho, Ivana! Que poder de síntese fantástico!
A primeira vez que vi a Ivana Arruda Leite foi em cena, no projeto "Autores em cena", no Itaú Cultural, em maio deste ano. Ela e a Índigo arrasaram com uma direção também arrasadora da Fernanda D'Umbra. Foi lá que comprei o livro dela. Mas só agora li. Tenho uma certa compulsão por comprar livros. Mas nunca tempo suficiente para ler todos. Então ele ficou na estante, aguardando o momento exato para ser lido. Lido, não. Devorado. E já virei fã de carteirinha. Ela tem também um blogue, que eu vou linkar aqui do lado: http://www.doidivana.zip.net/ . Tá lindo, lindo. Vale muito a pena conferir!
6.8.06
Avenida Dropsie e outras deste Bronx

É no Bronx que se passa o espetáculo que vi ontem. Mais precisamente na Avenida Dropsie, que dá título à peça encenada pela Sutil Companhia de Teatro, em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues. A Avenida Dropsie dos quadrinhos de Will Eisner, que Felipe Hirsch levou ao palco. O movimento corporal dos atores reproduzia com precisão o movimento congelado pelos traços dos quadrinhos. Era possível ver a ação quadro a quadro tal como num quadrinho. Só o trabalho dos atores poderia bastar para levar aquele universo ao palco, mas Hirsch ousou mais, muito mais. Ousou erguer um prédio de três andares, em cujas janelas víamos uma profusão de histórias individuais se chocarem naquele espaço coletivo, incomunicáveis. Ousou levantar uma quarta parede real, constituída por um telão transparente em que se projetavam os traços do próprio Will Eisner, suas falas, também ouvidas em off na voz de Gianfracesco Guarnieri, e até mesmo os pensamentos dos personagens enfileirados lado a lado dentro de um trem. Hirsch derramou sobre os atores um temporal e inundou o teatro daquele efeito de chuva próprio aos quadrinhos de Eisner. Essa plasticidade ousada e precisa do espetáculo bastaria para reproduzir aquele universo. Mas Hirsch foi muito além. Ultrapassou a superfície das relações entre as pessoas das grandes cidades. Mais do que a solidão individual em meio ao caos urbano, a peça comunicou a incomunicabilidade. E eu ali, incomunicável em meio ao teatro lotado, eu me vi ali, naquele palco, em diversas situações do dia-a-dia. Eu não me transportei para aquele universo, porque aquele universo é o meu universo. Aquele barulho, aquela agitação, aquela pressa, aquela falta de diálogo, aquela violência, aquilo tudo invade os meus sentidos a todo o momento pelas avenidas do Rio de Janeiro, pelas paulistas, pelas vidas vividas nas avenidas das grandes cidades. Eu ontem estive no Bronx. Não apenas no Bronx de Will Eisner e Felipe Hirsch. Estive no Bronx do Rio de Janeiro. Desfilando sozinha a minha invisibilidade a caminho do teatro para comprar o ingresso. Desfiando a minha incomunicabilidade a caminho do Odeon, para ver Zuzu Angel enquanto aguardava o horário da peça. Desafiando a minha solidão na saída do espetáculo para tomar umas na Lapa com um amigo que lá encontrei. Dissolvendo-me na violência que me assaltou a caminho do 100. Enfim, levei um papo com os assaltantes, pois só tinha o dinheiro pra voltar pra casa, e eles me deixaram partir em paz com meus 10 reais. Ainda lhes desejei boa sorte antes de lhes dar as costas e caminhei mais uns tantos metros sombrios mergulhada na minha solidão. Refletido na janela do ônibus, meu olhar ainda refletia todo esse universo. Das avenidas Dropsie, Rio Branco, Paulista, Amaral Peixoto, Roberto Silveira... De todas as avenidas ensolaradas e tempestuosas da minha vida.