18.5.06

abrem-se as portas do armário:

eu tava que nem aquela música do zeca baleiro, triste, tristinha, mais sem graça que a top model magrela na passarela, eu tava só, sozinha, mais solitária que um paulistano, que um canastrão na hora que cai o pano... mas hoje eu recebi um telegrama. não, não, não recebi telegrama nenhum. ninguém disse que me ama. quer dizer, eu disse que me amo. por isso hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o português da padaria. porque eu disse que me amo e não vou mais perder meu precioso tempo de criação artística enfurnada na burocracia do serviço público! é isso mesmo. eu sou funcionária pública concursada e vou chutar o balde! foda-se a estabilidade! foda-se! eu quero viver na corda bamba, porque equilibrismo é arte!... acorda, bamba! cansei de beladormecer! vou assumir de uma vez por todas, vou sair do armário: eu sou artista! pronto, falei. desculpa, mãe. mas é isso o que eu sou. eu sei que você preferia que eu tivesse terminado o curso de jornalismo e apresentasse o jornal nacional. mas olha, mãe, eu agora tenho nível superior: bacharel em cinema! táqui o diploma. eu sou cineasta. eu tô fazendo o meu filme. olha, mãe, roteiro e direção: beatriz tavares. olha o crétido. vê o filme. tá du caralho! eu sou poeta. olha só. tenho até um blogue! e tenho fôlego pra falar poesia até dar um nó nas cordas vocais! e eu ainda quero mais. eu sou produtora cultural. porque a partir de agora, eu vou me produzir. eu jogo o cabelo pra trás, poderosa, ergo a cabeça e faço o que eu quero! e eu quero mais... eu vou voltar a fazer teatro. nunca devia ter parado. eu sou atriz. eu amo o palco, os refletores na cara, as cortinas se abrindo, o friozinho na barriga e meeeeerdaaaaa... eu armo a cena. e agora eu tenho um projeto. eu tô segura. e quando eu tô segura, ninguém me segura. vai ser um espetáculo!

e abrem-se as cortinas do palco:

2 comentários:

Anônimo disse...

isso!assim é que se fala!pra vc que já descobriu o que é tá mais fácil do que pra mim que nem tenho noção.quando eu tava achando que era poeta ouvi um consagrado dizendo que poeta é o cara que não consegue ficar sem escrever,e não é meu caso,porque eu fico tranquilão sem escrever e ler.mas tb penso que o sentido seja essa busca indefinida à identidade.bj,edu

Beatriz Tavares disse...

somos múltiplos, dudu, múltiplos! o lance é ver o que se vai fazer dessa multiplicidade. conter ou extravazar. vamos extravazar, meu caro poeta antropólogo! não precisamos nos enquadrar no sistema para ser uma coisa só. sejamos nós! (no sentido de nós mesmos e também de emaranhados...) beijos!