7.6.07

Está escuro aqui

“Tem alguma coisa me incomodando
Acho que sou eu”
(Woody Allen)

...
E tem tanta luz piscando na cidade que eu já não encontro a minha
Alguma coisa se apagou aqui
Alguma coisa me larga sozinha no escuro e eu sempre tive medo do escuro
E da solidão
E era um medo assim tão forte que me atraía para si
Eu não vejo as luzes que brilham lá fora
Aqui tudo é medo e abandono, aqui tudo é real
Aqui tudo me atropela e eu não sei onde botar as mãos
Aqui eu aperto os dedos e contraio os lábios
Aqui rolam lágrimas que eu não sei de onde vêm, pra onde vão
Aqui tem uma ausência corroendo uma qualquer coisa que eu não sei
Aqui faz tanto frio, chove, venta e eu não trouxe guarda-chuva, nem um casaquinho sequer, não sabia que ia chover, não podia prever
Aqui é tudo gelo e escuridão e não há ninguém que possa me dar a mão
Aqui ninguém sabe onde é, ninguém pode me achar
Daqui ninguém me resgata
Aqui não há interruptores ou luzes de emergência
Não tem gerador, o elevador parou de subir, ou descer, mas ele pode cair
E cair assim dentro de uma caixa é como ser atirada ao mar sem saber nadar
Aqui o ar me falta, uma coisa me sufoca, uma coisa que eu não sei dizer
Aqui eu estou tão encolhidinha, com tanto frio e pavor que eu quase não sou
Aqui é silencioso e emergem ruídos estranhos, medonhos
Aqui tem alguma coisa que eu não sei me empurrando para o que eu não sou e eu não quero ir mas não tenho forças
Eu sempre quis sair daqui e aqui sempre estou, fechada, sozinha, no escuro e na dor
Eu às vezes finjo que não estou nem aqui, e encontro gente, e vejo acender uma luz qualquer, mas o escuro sempre me toma de volta e me envolve em seu manto de treva
Estou presa a ele como a meu próprio corpo, como se fosse parte de mim, como se fosse meu, como se fosse eu, como sou
Se eu corresse ele se adiantava e me tomava em seus braços na linha de chegada
Se eu fingisse ele ainda mais se dissimulava e de mansinho me fisgava
E se eu morresse, não, nem se eu morresse ele não me largava, ia velar-me com velas apagadas e se fechar sobre mim como um túmulo sombrio
Eu não sei, meu deus, não sei explicar esse medo infantil, esse medo de escuro, não sei porque ele não ficou lá atrás, escondido embaixo da cama sem nunca pegar meu pé
E hoje, que eu não sou mais criança, é tudo tão escuro aqui
Eu sinto frio nos pés e estou descalça
O chão frio que eu pisava se fez abismo de repente
Eu não tenho onde segurar nem quem me aparte a queda
Eu fui engolida pela minha própria boca
E por meus dentes dilacerada
Já não me resta nada
Só uma boca, no vazio, me regurgita em palavras
E não há sequer ouvidos para resgatá-las
São palavras sozinhas, perdidas, com medo do escuro
São palavras apagadas, que deixam no papel apenas sua marca indelével de terem sido escritas um dia
Como eu de ter sido outrora escrita, mas jamais lida, e uma vez apagada, levando a marca do que teria sido, sem jamais ser

5 comentários:

Saulo Jacques disse...

como adoro passar sobre e sob suas letras!
vim aqui só responder a proposta dos poemas e o que vejo: novos textos/poemas seus... não pude resistir!

sim sim, troca de poemas! meus e seus, agora é só coincidir nossa presença em algum evento desses!

beijins soletrados

Beatriz Tavares disse...

O próximo seu eu vou levar decorado! Agora só falta vc, iê, iê... Se vc não falar, vou contar pra todo mundo pq eu terminei nosso namoro!... rsrsrs... Beijão!

Saulo Jacques disse...

claro, próximos eventos levarei seu poema, até separei alguns aqui!
muito bom ter ido ao beco ontem! estava com saudade.

ah, só uma coisa: não diga o que aconteceu, já sofri muito quando tudo terminou! hahaha

beijins ensolarados

Anônimo disse...

por favor beatriz me conte o resumo de anjo negro de nelson rodrigues

Beatriz Provasi disse...

até poderia fazer isso com o maior prazer. mas a troco que quê? quem é vc? desculpe, mas não entendi o propósito deste pedido. bjs