8.10.11

É ASSIM

É assim: Como quem preenche os cobertores de pés, para que os cobertores não reparem na falta de outros cobertores para lhe isentarem da função de ser sempre calor. Cobertores também sentem frio. Se sentem pisados e se sentem sozinhos. Tenho pena dos cobertores. Como de copos sem brindes e cigarros sem isqueiros. Tenho pena de tudo o que é incompleto, e portanto de tudo. Tenho dó do existir do mundo.

É assim: Como quem senta numa cadeira, e coloca a bolsa para sentar na outra; e conversa com ela, para que ela não se sinta apenas uma coisa feita para carregar outras; porque uma bolsa carrega o mundo nos ombros e ninguém reconhece, e ninguém lhe agradece por ser bolsa. Outro dia eu dei de beber uma garrafa de uísque à minha bolsa; ela agradeceu embriagada e muitíssimo comovida. Meu celular entrou em coma alcoólico; mas já está recuperado. Tomamos um porre todos, juntos e felizes, eu e os meus pertences!

É assim: Como quem faz companhia à TV ligada durante a noite e por toda a madrugada, porque ela tem medo de dormir sozinha, e num susto nunca mais voltar a ligar. Como quem não desliga as coisas para que elas não tenham medo de não voltar a funcionar. Tudo tem medo da morte. Se eu pudesse desinventava a tecla off.

É assim: Como quem fala poemas para os azulejos do banheiro, para a água e o chuveiro, porque eles têm ouvidos sensíveis, não suportariam me ouvir cantar. Como quem fala poemas para o painel do carro, o volante, o rádio, o porta-luvas e os bancos, os estofados. É preciso distraí-los, entretê-los, para que não percebam que os estou usando para chegar em algum lugar. Eles são muito sensíveis, não suportariam se sentir usados. Todas as coisas são sensíveis. Pessoas, algumas.

É assim: Nada me dói, nada me assusta. Eu não me desgasto, não quebro, não sou descartada. Eu não tenho rótulo, marca, não estou numa prateleira de mercado. Eu não sou usada; nem fico sozinha, esquecida. Eu não tenho frios. Eu não tenho medos. São as coisas que me comovem e me fazer ficar assim.

4 comentários:

R. disse...

extraordinário, no sentido mais cru do termo! senti falta desses seus escritos que despertam essa tristeza altiva, estes lamentos poéticos. muito bonito, Beatriz.

Beatriz Provasi disse...

q bom, obrigada! tb tô sentindo falta de escrever por aqui. assim q essa corda sair do meu pescoço, prometo voltar com tudo! bjsss

Cinthia Lee disse...

Adoro o que vc escreve. Ver o avesso das coisas através das suas palavras. Verso e reverso. A nudez das palavras, adornadas pela poesia de novos sentidos.

Beatriz Provasi disse...

q bom, cinthia, valeu! bjss