tem uma coisa qualquer um desassossego tem um mar que se agita na ponta dos dedos uma onda que quebra nas veias tem uma pulsação nos cílios tem um fogo nas bochechas e nos olhos, mil centelhas tem um bicho faminto que passeia uma fera que contempla a paisagem uma sereia que não se sabe e caminha passo a passo pela areia... tem um ator numa orelha na outra, um personagem às vezes não se escutam falta direção mas eles vão... o que importa é a viagem!... a porta aberta dando passagem seja para o que for ou pra receber pro que der e vier tem formiga no pé e um elefante no dorso a asa vai no quadril contornando sinuoso qualquer ardil tem uma coisa qualquer uma angústia inquieta uma calma forjada um sorriso de esfinge no meio da madrugada tem uma coisa qualquer um nariz que finge e um joelho que entrega a charada tem uma coisa qualquer uma contradição na essência e uma simplicidade imensa tem uma coisa qualquer tem algo que pulsa tem algo que pensa tem sempre uma coisa qualquer intensa tem sempre uma explicação pretensa uma idéia avulsa mas nunca se sabe exatamente o que é essa coisa qualquer que pensa e pulsa e finge e passeia que não se sabe centelha, esfinge essa coisa meio ator meio sereia que só se vê de passagem essa fera com fome de primavera quando menos se espera não é uma coisa qualquer invento, alucinação, miragem esse mar quebrando na veia sem dizer a que veio ou o que quer só deixa visível na areia um contorno da coisa mulher
22.9.08
às vezes espero outras, exaspero mas sempre ardo
um dia tardo outro falho
em dias de hoje o amanhã se empilha de ontens
ah, o tempo que era quando! nem um pouco tampouco tanto (ando no fio da navalha) meu tempo é quanto e a cor do saldo salta vermelha.
A artista plástica Maysa Britto, amiga queridíssima, vai participar desta exposição junto com outros artistas no Parque Lage, com abertura na próxima terça, dia 9, às 19h. Imperdível!
4.9.08
Reparei que você tem covinhas quase iguais às minhas. Um pouco mais acentuadas, porque estão sempre lá, marcadas, mesmo quando não há riso. Tenho a impressão de que você está sempre sorrindo. Imagino que é pra mim. Ou finjo. Tenho vontade de cavar as suas covinhas com as pontas dos dedos. Suavemente. E ir descobrindo pouco a pouco de que você é feito. Quero conhecer o que não é sorriso em você. Alguma coisa que ninguém vê. Um buraco, não no rosto, mas no peito. Uma marca profunda na palma da mão. Uma sombra nos olhos. Uma dor escondida entre os dedos dos pés. Quero te conhecer por inteiro, com as pontas dos dedos. Desvendar todos os seus segredos, os seus medos, seus anseios. E depois pousar lentamente tua cabeça entre meus seios, casar teus cabelos com meus dedos, meus cabelos nos teus dedos, pêlos formando alianças. Eu te deixaria ver cada pinta do meu corpo, só pra você perder a conta e dar risada. E eu riria junto, e te contaria umas histórias. Te inventaria um poema na hora, escreveria na tua pele. E me entregaria para a tua escrita nua. E também ouviria tuas histórias, rindo de tudo porque tudo eu acharia lindo. É tudo incrível ao redor dessas covinhas! Uma lágrima em ti teria aura de riso. E seria bonito. Não a lágrima em si. Mas essa fragilidade de mesmo na dor, não poder deixar de sorrir. E eu riria junto com você na tua dor, te fazendo secar as lágrimas e voltar a ser só risada. E riria junto nas alegrias e das coisas engraçadas. Você faria tudo parecer uma piada. A dor escondida entre os dedos dos pés. A marca afundada na palma da mão. Os buracos cavados no peito. E todos os medos. E a tudo a gente enfrentaria às gargalhadas! Unir nossos sorrisos seria a bala na espingarda, nossa arma secreta. Mas... eu ainda tenho o meu próprio medo. E eu ainda não cavei os seus segredos. Ainda sou só olhos. E você, só covinhas. Quase iguais às minhas. Quase...
1.9.08
O que Ela espera é outra coisa. Não é um esperar de espera. É de esperança. Ainda assim é desespero. Como se a esperança esperasse no alto da torre mais alta. E Ela, agarrada às suas tranças, se encontrasse no meio. Muito alto pra cair. Muito alto pra subir. E se agarrasse ferozmente no emaranhado desses cabelos, para permanecer ali, com medo do olhar para baixo, sem forças pra ir além. Ali no meio, à espera de um milagre. De uma esperança-pássaro que a resgatasse. Mas a esperança era a princesa no alto da torre, com seus longos cabelos esvoaçantes para lá e para cá ao sabor do vento. Prender-se a um fio, um fio de esperança, já era um feito e tanto naquele vendaval que sacudia o mundo, e levava seus cabelos para longe em questão de segundos. Mas eram tão lisos e sedosos os cabelos da princesa, que ao subir se deslizava, tornando sempre ao mesmo ponto. Como subir uma escada rolante que desce. Ou andar na esteira. Então a esperança é isso. Exercício. E não algo que se alcança, um lugar a que se chega. É somente o que nos fortalece. Com os músculos cansados e a respiração ofegante, Ela deixou-se deslizar até o chão. Soltou o fio fino que retia na mão. E com lágrimas nos olhos, contemplou o aceno de adeus dos cabelos esvoaçantes. Exausta, vencida, humilhada, sentia-se fraca. Ela não sabia, mas estava mais forte.
Dia 05/10 (domingo) - Lançamento do livro-instalação "Programa de Governo para Almas Desgovernadas ou Programa Desgoverno", a partir das 14h, na Cinelândia.
Dia 09/10 (quinta) - Apresentação do trabalho "Mascaramento da autora e escritura expandida", com performance e lançamento de livros, das 9h às 10h30, no Seminário Letras Expandidas, na PUC-Rio, Sala LF 42. Link: http://letrasexpandidas3.wordpress.com/
Anteriores:
Dia 09/08 - Lançamento do livro "As guerras nos porta-retratos", a partir das 20h, no Estúdio Hanói (Rua Paulo Barreto, nº 16, sobrado - Botafogo).
Dia 23/08 - Jardins Suspensos, no Morro da Babilônia.
Dia 28/08 - CEP 20.000, no Sérgio Porto.
Dia 14/09 - Lançamento do livro "As guerras nos porta-retratos", a partir das 18h, no espaço Hussardos, em São Paulo.
Poeta, atriz e performer; com formação em Cinema-UFF (1999-2006) e Artes Cênicas-UNIRIO (2008-...), cursando Mestrado em Artes Visuais na UFRJ. Autora dos livros INVENTOS RAIOS E TROVÕES (2008), ESFINGE (2010) e TODOS ESSES CÃES LATINDO NO PEITO (2012). Integra o grupo MADAME KAOS, com Juliana Hollanda e Marcela Giannini, e com elas também o coletivo HEART-ACTION, com Tavinho Paes e Arnaldo Brandão. Em 2005, lançou o fanzine FOLHAS AO VENTO na FLIP, em Paraty, onde apresentou sua poesia pela primeira vez. De lá pra cá, lançou mais dois zines, criou o blogue NUMA NOITE QUALQUER e passou a falar poesia em vários espaços: CEP 20.000, Corujão da Poesia, Versos da Meia-Noite, Versos (Ins)Pirados, República dos Poetas, Ratos di Versos, Filé de Peixe, Caldo Cultural, Geringonça, etc. Formou com Chacal a dupla BIA&CIA. Se apresentou com o VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA. Criou o evento POEMÁTICA - A INDISCIPLINA DA POESIA, e também participou da produção do CORUJÃO DA POESIA de Niterói. Em 2008, foi convidada a realizar os saraus da Casa do JB na FLIPORTO, em Porto de Galinhas, com o grupo do Corujão. Em 2009, com Betina Kopp e Lucas Castelo Branco, foi convidada a realizar performances nos lançamentos dos livros “Alumbramentos e perplexidades - vivências banderianas”, de Edson Nery da Fonseca (FLIP), e “Estribilho do encarcerado”, de Ana Maria Carvalho (DiVersos). Participou do lançamento do CD “Amnésia Programada”, de Arnaldo Brandão, na Cinemathèque. Em 2010, participou do lançamento do CD “Cala a boca e me beija”, de Karla Sabah, no Teatro Rival; e de shows do Arnaldo Brandão na FLIP, no Hipódromo Up, no Centro Cultural Solar de Botafogo, no Zozô Bar etc. Participou da FLIPORTO, com o grupo do Corujão da Poesia. A convite da Editora Moderna, se apresentou em diversas escolas. Participou do grupo de Processos Coletivos de Criação Teatral na UNIRIO, realizando ações de teatro-performance na Praça Cardeal Arcoverde, em Copacabana, e nos jardins da UNIRIO. Criou uma série de experimentos performáticos intitulados “Poeta bom é poeta morto – o transtorno passa, a obra fica”, com ações em diversos espaços, em 2010 e 2011. A convite da Aliança Francesa, participou das performances “24 horas da vida de uma mulher”, das artistas francesas Emmanuelle Becquemin e Stéphanie Sagot, em 2009, e “Choc’s d’amour”, da performer Tania Alice, em 2010, no Sofitel, e “Viva a diferença”, em 2011, na loja da grife Gilson Martins. Em 2011, se apresentou no evento "A palavra toda", no SESC Copacabana, com curadoria de Chacal e Heloisa Buarque de Hollanda. Na Bienal de Cultura da UNE, com o grupo do Corujão da Poesia. No evento "Poesia no SESI", coordenado por Claufe Rodrigues e Mônica Montone. Em show no Sallon 79, em Botafogo. Etc. etc. etc.