2.1.07

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

Clarice Lispector

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

3 comentários:

jupyhollanda disse...

sim, querida Bia... Clarice foi mestre em nos mostrar que a distração tem que existir na nossa vida... quando prestamos atenção nas coisas, principalmente nós, poetas... acontece isso tudo mesmo e tudo fica sério e a gente seca. Por isso... sim, temos que continuar olhando as ranhuras da lua, os buracos no chão, o gesto das flores... e sim, vagar distraídas pelas ruas...pq só assim... a vida acontece!

Bjos
Juju

Dan disse...

Bia, Bia!
Escrevendo cada vez melhor, você...
Nem seus textos "deprê" conseguem me deprimir, tão bonitos que são!
Talento é talento...você é a Rainha Midas das letras!

Beatriz Tavares disse...

Ai, Dan, quem me dera que este texto fosse meu!... Vc, que anda distraído, nem viu que lá em cima está o nome da autora: Clarice Lispector. Ela, sim, é foda! E vc confundir um texto dela com um meu é um elogio e tanto! Valeu, querido! Beijos!